Lembranças de Luz - Tilim (2024)

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Rating:
  • Mature
Archive Warning:
  • Creator Chose Not To Use Archive Warnings
Category:
  • F/M
Fandom:
Relationship:
  • Hyuuga Hinata/Uchiha Sasuke
Characters:
  • Uchiha Sasuke
  • Hyuuga Hinata
  • Uzumaki Naruto
  • Haruno Sakura
  • Yamato | Tenzou
  • Tsunade (Naruto)
Additional Tags:
  • Alternate Universe - Canon Divergence
  • Inspired by Memoirs of a Geisha
  • Slow Burn
  • Eventual Romance
  • Eventual Smut
  • Implied/Referenced Rape/Non-con
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-03-30
Updated:
2024-05-12
Words:
39,380
Chapters:
8/16
Comments:
1
Kudos:
2
Hits:
65

Lembranças de Luz

Tilim

Summary:

Chegou a revolver tanto o passado com a atualidade, que nos dois ou três lampejos de lucidez que teve antes de morrer ninguém soube ao certo se falava do que sentia ou do que lembrava. "Cem anos de solidão"; Gabriel García Márquez, p. 376.

Notes:

Postada originalmente no FF.net entre 29 de março de 2009 a 14 de julho de 2013.

Chapter 1: Prólogo

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Todas as lembranças do meu passado distante estão imersas em uma luz branca muito intensa e essa luz branca torna impossível distinguir as imagens com a nitidez precisada. É como o sonhar, como a nostalgia. Eu via em minha mente as coisas tais quais são hoje, pouco mudou, mas sempre havia a presença da luz branca quando é uma lembrança. Foi na primavera, com as pequeninas e delicadas flores de cerejeiras caindo das árvores como uma chuva rosada, dispersando o seu perfume pelos jardins, pela mansão, pelo dojo, pelas pessoas.

Minha mãe era a pessoa mais imersa na luz. Ainda posso ver seus olhos perolados idênticos quando me olho no espelho, seus cabelos muito longos e arroxeados, seu pele pálida demais, sua delicadeza enrustida que nunca a abandonara e o seu sorriso doce e cálido. Nesses dias de primavera ela se levantava andando perfeitamente sem deixar que o quimono comprido atrapalhasse seus passos pequenos. Eu a seguia pela varanda até a escada do jardim e por ali descíamos para passear em volta do laguinho com as carpas e o bambu que se enchia e se esvaziava de água, sem nunca fazer outra coisa e sem nunca mudar seu curso.

Tudo isso coberto por flores de cerejeiras.

- Você quer aprender a dançar, Hinata-chan? – ela me perguntava sorrindo, os olhos sumindo em uma risca. Eu manejava a cabeça em afirmação, minha maior alegria era ver minha mãe dançando para depois tentar copiar, desajeitadamente, seus passos maravilhosos. Ela se levantava e tirava do obi seu par de leques brancos – Você se lembra da lição de ontem, querida?

- Uma gueixa é uma mulher que trabalha para entreter, por isso precisa deixar o homem atento a seus movimentos – eu repetia as palavras que ela havia me dito no dia anterior, naquele mesmo lugar, na mesma posição.

- Uma gueixa – ela começava a lição do dia conforme mexia os leques em volta de si, fazendo círculos calmos e bem construídos. Ás vezes os seus movimentos passavam por um momento mais rápido em que o leque voava por cima de sua cabeça vindo das costas para ser aparado com precisão pelo outro loque – Vende suas habilidades, não seu corpo. Conquista através do mistério do pó de arroz, dos lábios vermelhos e da sutileza de seus movimentos.

- Foi assim que Okaa-san conquistou Otou-san? – perguntei enquanto ela terminava a dança e voltava a se sentar, as pernas juntas e inclinadas para o meu lado, sempre muito ereta, muito bonita.

- Não sei se eu o conquistei ou se ele me conquistou – eu me lembro que até a forma de ela rir era delicado, um sopro, um suspirar. Ela olhava para os muros e parecia enxergar suas memórias com uma nitidez que eu não consigo e dizia, cheia de paixão – Eu e outras gueixas sempre éramos chamadas para entreter os homens do Clã depois das reuniões. Isso ainda acontece hoje, mas com gueixas mais jovens. Um dia seu pai estava lá, era sua primeira reunião, e também era a minha iniciação como umamaiko(1).

- Eu esqueci o que é umamaiko, Okaa-san.

- É a aprendiz de gueixa – ela explicava pacientemente – E como nós dois éramos novos nas reuniões o seu Ojii-san pediu para que eu ficasse a entreter o seu Otou-san. Ele era muito tímido e sério – ela imitava as sobrancelhas franzidas e as rugas nos lados dos lábios de meu pai, mas nas feições suaves dela nunca parecia que Otou-san era tão rígido como ele é – Ele não respondia as minhas conversas e nem pareceu gostar quando eu toquei oshamisen(2), então, como último recurso, eu fui dançar – ela parava um momento e sorria tocando meu nariz com a ponta do indicador – E só assim eu consegui fazer com que ele olhasse para mim.

- Não tem como não olhar quando Okaa-san dança.

Riamos juntas e uma das criadas aparecia curvando-se e dizendo que o chá já estava pronto. Okaa-san se levantava e a seguia comigo em seu encalço, admirando, sempre observando. Minha mãe era o ser mais gracioso do mundo e seus movimentos me eram hipnotizastes. Nos meus pensamentos de criança eu queria ser como ela, queria ser uma gueixa, e pensava ser por isso que ela me ensinava, que ela me contava as histórias dessa cultura. Ela me ensinava como servir o chá, como tocar oshamisene ashukahachi(3), lia para mim as mais bonitas poesias, me explicava como fazer o mais magnífico nó no obi.E eu, como uma esponja, absorvia suas palavras para nunca mais esquecer, mesmo agora ela estando envolta da névoa luminosa.

Enquanto eu não estava com Okaa-san, nos momentos em que ela tinha que descansar por causa de sua saúde frágil, eu ficava junto de Otou-san e as memórias com ele são as mais nítidas que eu guardo. Eu me lembro sempre das paredes e do chão de madeira bem polida do dojo, da roupa preta do treino e os membros doloridos. As lembranças de Otou-san não vêm com cheiro de cerejeiras, era cheiro de madeira e suor. Ali ao lado ficava Neji-nii-san e Hizashi-oji-san.

- Não vou mais permitir que Hikari fique falando sobre gueixas com você, Hinata. Você está com a cabeça nas nuvens e não se concentra! – ele ordenava com o tom de voz elevado, eu senti Neji se mover ainda ajoelhado.

- Desculpe, Otou-san – eu lhe pedia de cabeça baixa.

- Vá agora.

Mas os encontros com minha mãe, às aulas sobre gueixas, as lições, nunca eram interrompidas.

Quando chegou o inverno e mesmo com a barriga proeminente de minha mãe pela gravidez de Hanabi, ela não deixou de me ensinar. Agora eu mesma conduzia o leque enquanto ela cantava, eu servia o chá enquanto ela tocava oshamisen, eu lia até fazê-la dormir. Com os meses passando e as estações mudando, minha Okaa-san ia ficando mais pálida, seus lábios já não pintava mais, seus olhos quase não mais se abriam. E seus sorrisos desapareciam rapidamente.

Quando Hanabi nasceu Okaa-san não abriu mais os olhos.

Durante o seu velório não me foi permitido chorar, não me foi permitido abaixar a cabeça. Eu era a herdeira primogênita do Clã Hyuuga, um dos clãs mais poderosos e antigos da Vila Oculta da Folha. Eu só voltei para o meu quarto depois sem olhar para nada e deitei no futón. Ali, e somente ali, uma única vez, eu chorei pela minha mãe. Os ensinamentos de gueixa ficaram esquecidos nas lembranças de luz e o que passou a ser nítido até hoje foram as lições ninja. O toque doshamisenagora era o retinir das kunais, o servir do chá era o movimento do Jyuken, a dança era o poder do Byakugan. Ao morrer minha mãe levou com ela minhas vontades de ser uma gueixa, levou seus sorrisos e palavras gentis. Acabara-se a época da chuva rosada.

Hinata pousou o pincel de volta no suporte e assoprou levemente o pergaminho para apressar a tinta a secar. A caligrafia impecável era como uma obra de arte sobre o papel. Enrolou-o novamente, colocou na gaveta de sua mesinha e apagou a vela. Ainda era muito cedo, mas já era hora de ir. Levantou-se com as pernas doloridas de ficar em uma mesma posição por muito tempo e vestiu o casaco lilás e branco. Encaixou na perna a bolsa de kunais e saiu do quarto fechando a porta de correr atrás de si. Caminhou lentamente pelos corredores de madeira até a entrada do Clã Hyuuga e saiu a caminho do seu local de treinos com seus companheiros de time.

As ruas da Vila, mesmo ainda sendo quase de madrugada, eram sempre movimentadas. Os comerciantes armavam seus negócios e vários ninjas circulavam nas ruas ou sobre as edificações. Hinata parou em uma venda e comprou alguns dangôs(4) para levar para Akamaru. Passava em frente à Academia Ninja quando avistou Yamato andando em sua direção.

- Bom dia, Yamato-san – disse quando se aproximaram o suficiente.

- Oi, Hinata – ele respondeu sorrindo – Que bom que eu encontrei você.

- Aconteceu alguma coisa?

- Não, é Tsunade-sama que quer que você vá agora ao escritório dela. É uma missão em que você se faz necessária.

- Certo, vou avisar Shino e Kiba – ela disse fazendo uma pequena reverência e começando a andar apressada.

- Espere, Hinata – ela parou e se virou – Shino e Kiba não estão escalados pra essa missão, ela só me mandou chamar você.

- Oh, certo – ela assentiu, mas olhou para baixo, para o saco com dangôs que segurava, e ficou indecisa – Pode me fazer um favor, Yamato-san?

- Um favor?

- Pode levar isso a Shino e Kiba? São doces para Akamaru.

- Claro, Hinata – ele sorriu pensando que seria alguma coisa complicada. Ela lhe sorriu de volta – os gaguejos e os rubores não eram mais traços enrustidos de sua personalidade, eram somente respostas ocasionais a uma situação embaraçosa – e entregou-lhe o saco de papel despedindo-se e correndo para o prédio da Hokage. Yamato sorriu com as mudanças em Hinata. Pequenas, mas perceptíveis.

Estava tudo completamente escuro, do jeito que ele gostava. Somente ás vezes o vento passava por baixo da porta movimentando sua cortina e deixando uma nesga de claridade entrar e incidir direto sobre sua cama, bem em cima de seus olhos. Rolou para o lado e sentou-se, derrotado. Não tinha mais sono. Bagunçou ainda mais os cabelos e abriu os olhos devagar. A cortina balançou mais uma vez e quando ele meteu os pés para fora do edredom e da cama um ANBU surgiu pendurado no seu teto.

- Uchiha Sasuke-san – disse o ANBU.

- Pare de ficar entrando na minha casa – respondeu seco.

- Compareça imediatamente ao escritório da Hokage – e, como sempre, quando o ANBU entrava para anunciar a mesma coisa, todas às vezes, Sasuke lhe respondia bruscamente e o ANBU o ignorava. Bufou e o shinobi mascarado sumiu em fumaça branca.

- NARUTO! – gritou Sakura tentando fazer o rapaz loiro acordar.

- MIL ANOS DE DOR NÃO, KAKASHI-SENSEI! – gritou o loiro pulando da cama assustando e olhando para os dois lados em desespero. Não havia nenhum Kakashi-sensei, mas uma Sakura com um olhar nada, nada amigável – O que você está fazendo aqui, Sakura-chan?

- Estou tentando te acordar faz uma hora, seu idiota! – os olhos dela pegavam fogo e tinha os punhos enluvados levantados ameaçadoramente.

- Ah, ah... – ele se afastava – D-desculpe, Sakura-chan, é que eu fui dormir muito tarde ontem, dattebayo!

- Não me interessa! – e socou-lhe atirando Naruto pela janela do seu apartamento. Suspirou relaxando e correu para pega-lo de cima de um telhado e arrasta-lo ainda de pijamas para a sala de sua mestra.

Hinata bateu na porta do escritório da Hokage e não demorou a ouvir o chamado para entrar. Tsunade estava usualmente sentada em sua cadeira de espaldar alto, pergaminhos estendidos a sua frente, os cotovelos sobre eles e as mãos cruzadas dando-lhe uma pose de pensativa. Ao seu lado, em pé, estava Shizune segurando o porquinho Tonton.

- Mandou me chamar, Tsunade-sama? – a Hyuuga perguntou fechando a porta.

- Sim, Hinata, obrigada por vir depressa. Assim que os outros chegarem eu vou explicar o que está acontecendo.

- E quem seriam esses outros além de nós dois? – a voz de Sasuke veio da janela. Já completamente trocado com suas roupas negras e o colete Jounin, a bandana da Folha reluzindo em sua testa. Estava recostado a janela, as mãos nos bolsos. Ele encarou a tímida Hyuuga por um segundo tentando se recordar se alguma vez já tivera uma missão com ela, ou melhor, se alguma vez jáfalaracom ela. Não conseguiu lembrar de nada.

- Que bom que chegou, Sasuke – disse a Hokage – E pare de entrar pela janela, você está ficando muito igual ao Kakashi.

- Se você parar de mandar ANBUs na minha casa – ele aproximou-se da mesa ficando ao lado de Hinata, mas encarando a mulher loira.

- É o jeito mais rápido de mandar mensagens.

- O que aconteceu com aquele pássaro irritante? Finalmente alguém tacou uma kunai nele?

- Foi – Tsunade olhou ameaçadoramente estreitando os olhos para a maneira descontraída com que ele dissera aquilo – E já estou com uma idéia de quem tenha sido.

Mas as suspeitas de quem teria sido o assassino do pássaro mensageiro pararam por aí, pois no momento seguinte algo arrebentou a porta de entrada da sala rolando pela extensão até bater na mesa da Hokage e ficar estirado entre Hinata e Sasuke, ambos encarando a tal coisa sem entender. A tal coisa, porém, era Uzumaki Naruto. E a pessoa que o atirara através da porta fora uma nada controlada Haruno Sakura que passava por seus destroços bufando e colocando-se, os braços cruzados, ao lado de Hinata.

- Levante ele, Sasuke – Tsunade recostou-se a sua cadeira e suspirou enquanto Sasuke pegava Naruto pelo colarinho e o colocava em pé bruscamente. Que manhã agitada! Quando Naruto já conseguia ficar firme sobre suas pernas sem a ajuda do amigo e já estava com os olhos suficientemente abertos, vestido ainda com seu pijama azul e a toquinha na cabeça, a Hokage colocou sobre a mesa em frente a eles a foto de um homem muito bonito, jovem, os cabelos pretos penteados para trás e os olhos aquosos de um verde escuro – A missão que eu tenho para vocês quatro é conseguir informações sobre as atitudes desse homem, Masaru Ren.

- Quais informações? – perguntou Sasuke enquanto Sakura pegava a foto e juntava-se com Hinata para olhá-la.

- Depois do ataque de Pain há quatro anos não posso me dar ao luxo de permitir que a Vila da Folha seja atacada novamente em um espaço de tempo tão curto e chegaram informações a mim de que este homem deseja fazer isso com um exército de mercenários dos países que são contra o País do Fogo – a mulher virou sua cadeira para a janela e observou o sol ainda baixo – Eu estou mandando vocês para verificarem a veracidade dessas informações e tomarem as devidas providências caso se mostrem corretas.

- Teremos que matá-lo? – perguntou Naruto.

- Somente se entrarem em combate, senão basta trazê-lo para a Vila que tomaremos as devidas providências com sua prisão.

- Quando partimos? – Sakura devolveu a foto para cima da mesa.

- Espere, Sakura, eu ainda tenho que dizer os detalhes da missão – os olhos âmbar de Tsunade pousaram nos perolados de Hinata – Hinata...

- Hinata-chan! Você estava aí, dattebayo? Quando você chegou?

- Ela estava aqui o tempo todo, idiota! – disse Sakura.

- Não me interrompam! – urrou Tsunade olhando para eles. No momento seguinte depois desse berro estridente eles ficaram imóveis, os braços colados ao corpo, como estátuas. Sasuke manteve-se impassível, como sempre, as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos fechados e Hinata sorriu gentilmente – Hinata – a garota a olhou, esperando – Eu lamento pelo que aconteceu a Hikari.

Todas as cabeças, incluindo Sasuke que abriu os olhos, voltaram-se sem entender para Hinata. Ao ouvir o nome de sua mãe a garota levou as mãos ao peito, apertando uma a outra. Não abaixou a cabeça, não quis desviar os olhos. Só esperou a sannin continuar.

- Ela era uma mulher maravilhosa e minha amiga, eu lamento não ter podido ajudar – a impressão que a garota teve foi que Tsunade lhe estava dizendo aquilo como uma súplica esperando de Hinata um perdão que ela não precisava receber. A morte de sua mãe já fazia muito tempo que tinha acontecido e, apesar da saudade dolorosa que sempre lhe agulhava o peito quando lembrava dela, não havia porque lamentar mais.

- Por favor, Tsunade-sama – a voz de Hinata era tão suave como sempre e ela sorria, com os lábios e com os olhos – Não lamente.

Tsunade olhou para a mesa um segundo antes de levantar a cabeça e continuar, ainda encarando a primogênita Hyuuga:

- Não quero causar nenhuma dor a você – Hinata balançou a cabeça negativamente como se dissesse que não iria. A loira olhou, então, para os outros três voltando a ter sua voz enérgica – Masaru Ren é o senhor de um feudo ao norte do país muito conhecido por suas ricas casas de chá e suas gueixas. Vou mandar os quatro pra lá sob disfarces – ela encarou Sasuke – Sasuke vai se apresentar a Masaru Ren como você mesmo. Já que voltou a Vila há tão pouco tempo e só tem saído para missões mascarado poucas pessoas sabem do seu retorno. Masaru vai querer te recrutar para o exército dele caso a informação seja verdadeira. Você estará lá como um freqüentador da casa de chá.

Sasuke apenas murmurou algo inaudível em concordância e Sakura fechou a cara. Não tinha gostado da idéia do seu Sasuke-kun em meio a gueixas, em meio a prostitutas. Mudou sua expressão quando sua mestra cravou seus olhos nela e em Hinata.

- Vocês duas serão mandadas para lá com o disfarce de gueixas. Não sei se as duas serão aceitas, mas caso não sejam trabalhem lá de alguma outra forma.

- Tsunade-sama – chamou a Haruno levemente escandalizada – Você irá nos mandar pra lá para trabalharmos como... – enroscou na palavra e engoliu limpando a garganta - ...prostitutas?

O semblante da Hokage se anuviou e seus olhos se tornaram pedra. Sakura realmente se assustou e pensou que Tsunade fosse pular em seu pescoço, mas a voz de Hinata desviou as atenções de si e a salvou:

- Gueixas não são prostitutas, Sakura-san, são artistas – ela abaixou os olhos – Minha mãe era uma gueixa do Clã Hyuuga.

As bochechas de Sakura se fizeram quentes e escarlates e ela ficou sem saber o que dizer até mesmo para se desculpar.

- Eu sei que Hikari passou as lições de gueixa para você, Hinata, então, por favor, ensine o que Sakura precisa saber durante a viagem. São quatro dias de viagem até o feudo e eu sei que não será possível ensinar tudo, mas pelo menos o básico.

- Sim, Tsunade-sama.

- Oi, Tsunade-baa-chan, você tá esquecendo de mim, dattebayo! – exclamou Naruto, impaciente como sempre, espalmando as mãos por sobre a mesa da Hokage. A mulher loira deu-lhe um peteleco irritado na testa, porém fraco.

- Você vai ser serviçal! – berrou para ele.

- QUÊ?! Porque eu não posso ser o cara legal e o teme o serviçal? – ele berrou de volta.

- Você vem de um Clã nobre? Você é um ex-foragido perigoso? Você é um ser inexpressivo e apático? – uma veia saltou na testa de Sasuke – Não! Você ficou conhecido depois de derrotar a Akatsuki, seu idiota, como espera que eu te mande para lá como mercenário se você é o salvador da Vila da Folha?

Naruto não disse mais nada. Recuou e colocou as mãos atrás da cabeça abrindo o seu sorriso enorme. Sakura e Hinata sorriram das palavras de Tsunade e da reação do loiro, Sasuke suspirou.

- Um dia esse seu ego inflamado ainda vai te fazer explodir – disse o moreno e Naruto lhe mostrou língua.

- Shizune, arrume o disfarce do Naruto e chame Kotetsu ou Izumo para arrumar a porta – Tsunade voltou a sentar – Sasuke será o líder da missão, vocês estão dispensados. Arrumem suas coisas, partirão ao entardecer.

Todos os quatro de viraram para sair pela porta quebrada, Naruto na frente sorrindo muito largamente, seguido por Sakura e Sasuke, as mãos nos bolsos, e Hinata.

- Esperem! – eles pararam e se viraram. Os olhos de Tsunade estavam fechados – Só mais uma coisa – ela os abriu – Se for necessário que vocês duas precisem fazer o ritual de venda domizuage(5) para conseguirem mais informações – Hinata e Sakura se fizeram escarlates – Será você quem irá comprá-lo, Sasuke.

A morena se fez ainda mais escarlate e pensou que fosse desmaiar, suas mãos começaram a suar só de imaginar que poderia haver a possibilidade dela ter que colocar sua virgindade a venda e ainda mais Sasuke,Uchiha Sasuke, compra-la. A rósea, por outro lado, relaxou. Se fosse Sasuke quem a comprasse então estaria tudo bem, não haveria problema. O Uchiha por sua vez não se sentiu confortável com a situação e Naruto foi o único que ficou sem entender nada.

- Desse jeito não haverá problema, pois Sasuke não precisará consumar a compra – ela finalizou – Podem ir agora.

Os quatro saíram da sala, em silêncio, menos Naruto:

- Eu não entendi a última parte, então vou tomar café da manhã, dattebayo! Quem quer ir ao Ichiraku comigo? – ninguém se pronunciou, mas todos os quatro seguiram com Naruto na direção da barraquinha de lámen.

- Hinata-chan! – uma voz ao longe gritou fazendo os quatro pararem no meio de caminho e se virarem para ver Inuzuka Kiba e Akamaru correndo até eles. Aburame Shino vinha atrás, andando, paciente.

- Kiba-kun, Akamaru-kun – ela respondeu ao chamado e pousou a mão em uma carícia leve na cabeça do grande cão branco quando eles se aproximaram. Ele lhe sorriu e Shino juntou-se ao grupo.

- O que você está fazendo de pijama, Naruto? – perguntou Kiba olhando-o de cima a baixo. Naruto corou olhando-se também. Tinha se esquecido que Sakura o tinha atirado para fora de casa pela janela sem ter dado tempo para que o rapaz se trocasse nem nada do tipo.

- Isso não é pijama, essa é um novo estilo de roupa ninja, é a última moda, dattebayo! – ele fez a pose "Nice Guy" tentando ser convincente.

- É, a última moda se você for Maito Gai e Rock Lee, dobe – desdenhou o Uchiha.

- Teme! – gritou o loiro.

Shino e Kiba olharam a discussão por um segundo, assim como Hinata com um sorriso. Mas Shino fez o favor de voltar à realidade.

- Yamato disse que você tem uma missão.

- Sim – ela respondeu – Naruto-kun, Sakura-san e Sasuke-san também vão. Vamos a um feudo colher informações.

- Tome cuidado – disse Kiba. Ela não respondeu, apenas sorriu. Depois do ataque da Akatsuki em que Hinata quase morreu tentando proteger Naruto na luta contra Pain, Kiba e Shino tinham se tornado muito mais protetores com a garota Hyuuga. E Neji também, mais que qualquer um deles. Afinal, ele era o guardião de Hinata e não lhe fora útil quando necessário – É bom tomar conta dela, Naruto!

- Deixa comigo, dattebayo!

Hinata sorriu, mas uma parte dentro dela reclamava por Kiba tomar essas atitudes. Ela já estava ficando cansada de todos terem que a proteger, de todos insistirem em dizer isso uns pros outros. Era uma coisa ruim no estômago ter que ouvir Kiba pedindo para outro tomar conta dela, como se ela fosse uma peça rara que não podia se quebrar e tinha que ser guardada com esmero e cuidado. Ela não se sentia, ela nãoeramais uma peça rara.

- Desculpe, tenho que ir – a Hyuuga curvou-se querendo sair dali o mais rápido que conseguia – Até logo!

E deu as costas aos companheiros seguindo na direção do Clã Hyuuga.

- Pare de ser tão estupidamente inconveniente, Kiba.

- Do que é que você está falando, Shino?

- Hinata não é uma criança. Querer que todos a protejam e dizer isso na presença dela é fazer com que ela se sinta ainda pior – os olhos por trás do óculos de Shino continuavam fitando o caminho que ela havia seguido rumo a casa – O melhor jeito de protegê-la é confiar nela.

O Aburame recomeçou a andar deixando-o para trás sem se despedir. Kiba o seguiu não muito tempo depois e eles desapareceram numa esquina seguindo para as áreas de treinamento. O Time 7 continuou parado por um segundo enquanto observavam as coisas acontecerem. As mãos de Sasuke voltaram para seus bolsos e ele se virou, todos recomeçaram a andar para o Ichiraku, em silêncio, até Sasuke se pronunciar:

- As palavras de Shino servem para você também, Naruto.

- Mas eu devo isso a ela – respondeu cabisbaixo. Na sua mente as palavras de Hinata passaram como uma gravação antiga. A declaração, a luta, a conversa entre eles dois depois que tudo terminou, a tentativa de um relacionamento, a frustração, o fim. Eles tentaram, porém era um sentimento equívoco.

Depois de tudo, o que Hinata e Naruto nutriam um pelo outro era carinho, compreensão, afeto.

- Não, você deve, mas só tem que pagar quando for cobrado – e no lugar em que Sasuke se encontrava sobrou apenas uma nuvem de fumaça branca.

Hinata abriu a porta de correr do armário e ficou na ponta dos pés para alcançar as últimas caixas, um espaço que nunca pensou que tocaria novamente. Fechou os olhos quando a caixa velha deslizou para suas mãos e deixou cair de sobre si um monte de poeira. Ajoelhou-se e colocou a caixa no chão tossindo um pouco. Limpou-a com as mãos sem se importar de sujar os dedos e levantou a tampa. O conteúdo estava intacto, enrolado em papel de seda branco. Ela abriu o papel de seda e pegou o quimono pelo colarinho levantando-se e estendendo-o no cabide. Alisou-o com carinho sentindo cheiro de flores de cerejeira por baixo do cheiro do passado. Afastou-se um passo para ver o desenho que o quimono esticado formava, no corpo e no pano dos braços. Ele era branco e havia montanhas ao longe e uma árvore em primeiro plano de onde folhas outonais caiam suavemente. Aquele fora o primeiro quimono de verdade que sua mãe havia lhe dado, um presente para quando crescesse. Nunca o usou.

Ficou novamente na ponta dos pés perto do armário e retirou outra caixa, idêntica a primeira, e fez o mesmo procedimento. Guardou o quimono de outono e estendeu esse último no cabide. Este era vermelho e havia nele o desenho de carpas como se elas estivessem nadando em um lago rubro. O terceiro quimono era azul escuro e tinha sombreados em branco-acinzentado formando uma neblina ao redor da silhueta negra de um castelo ao fundo e uma lua brilhava perto do colarinho. O último quimono que pegou era totalmente negro em pano com apenas uma garça branca em sua extensão quebrando a dureza do ébano. As pontas das penas de suas asas abertas em leque eram vermelhas, brilhantes. Dobrou todos os quimonos com ainda mais cuidado e os enrolou em papéis de seda novos antes de guardar na mochila que levaria na missão. Olhou para o sol da tarde, não iria demorar a entardecer.

- Hinata-sama – a voz de Neji veio do outro lado da porta.

- Entre, nii-san – a porta deslizou e Neji entrou no quarto. Os cabelos longos e muito negros emolduraram as feições preocupadas do Hyuuga – Algum problema, Neji-nii-san?

- Você vai sair em missão – a afirmação dele fez com que o seu estômago desse mais daquelas coisas ruins no estômago. Era mais um que queria que ela fosse protegida.

Seu pai queria que ela ficasse forte, outros queriam que ela ficasse segura. E ela, o que queria? Queria alguém que acreditasse. Elaprecisavade alguém que acreditasse que ela poderia fazer tudo para que ela realmente conseguisse fazer tudo. A última pessoa que havia acreditado nela cegamente agora estava morta.

- Sim – ela disse dando-lhe as costas e pegando a mochila e o casaco lilás que estavam sobre sua mesinha – Eu e Naruto-kun, Sakura-san e Sasuke-san.

Ele assentiu com a cabeça, mas Hinata não viu. Virou-se com um sorriso e disse:

- Preciso ir, Neji-nii-san, já está quase na hora – ele deu passagem para ela, mas segurou seu braço quando já estava no corredor a impedindo de prosseguir. Ela sabia o que vinha a seguir e não queria escutar.

- Volte viva – a outra mão de Neji, a que não lhe segurava o pulso, elevou-se até a têmpora de Hinata e tocou-lhe de forma suave a mecha de cabelo caída ali. A pele pálida tomou a coloração vermelha quase imediatamente que ela sentiu os dedos de Neji descerem para sua bochecha. Fechou os olhos e sentiu o apertou em seu pulso de afrouxar.

Curvou-se e disse depressa, se virando para o corredor:

- Avise Hanabi-chan por mim, por favor, nii-san – ela seguiu pelos corredores muito conhecidos do Clã Hyuuga em uma direção certa. Passou pelo corredor de fora em que podia ver as cerejeiras e a ponte, mas não olhou para os lados. Diminuiu a velocidade e ajoelhou-se colocando as coisas ao seu lado. Esperou o coração desacelerar antes de chamar respeitosamente – Otou-san?

- Entre, Hinata – ela abriu a porta. Dentro do cômodo seu pai estava sentado atrás de sua própria mesinha, vários pergaminhos enrolados estavam dispostos ao seu lado e a sua frente. Ele não levantou a cabeça para olhá-la nem parou o pincel que deslizava rapidamente pelo pergaminho – O que quer?

- E-eu vim avisar que estou saindo em missão, Otou-san – com seu pai, com toda a sua indiferença, ela não conseguia evitar se sentir nervosa jamais. Era irônico pensar que a pessoa que lhe devia ser mais próxima era a que mais lhe tratava com indiferença.

Hinata não notou, tinha os olhos baixos encarando suas mãos sobre as pernas, mas o pincel que Hiashi segurava parou e começou a tremer muito levemente.

- Vai ficar fora quanto tempo?

- Não... Não sei ao certo.

- Muito bem – o pincel voltou a correr – Faça o que tem que fazer.

- Sim – ela curvou-se – Estou indo.

Deslizou a porta e fechou-a. Dentro do cômodo Hiashi pousou o pincel e amassou o pergaminho. Sua letra tremida estava ilegível. Hinata colocou o casaco e depois a mochila. Caminhou até o portão do Clã e anunciou, em voz baixa, que estava saindo para ninguém em particular, apenas como costume. Olhou para o sol e ele já estava quase beirando o horizonte.

Pouco antes de minha mãe morrer no parto de Hanabi ela me chamou ao seu quarto, me fez sentar e ler para ela. Eu obedeci, como sempre. Quando eu fechei o livro e pensei que ela estivesse dormindo sua mão branca tocou meus joelhos e por entre seus lábios saíram às palavras que eu jamais iria esquecer:

- Lembre-se sempre, Hinata-chan, que você é como um raio de luz. Não como a luz do sol que ilumina tudo, mas como a luz da lua, que ilumina um ponto de escuridão por vez – ela fechou os olhos e eu pensei que finalmente tivesse dormido. Me levantei e fui até a porta, mas parei novamente quando ouvi sua voz – Você não pode olhar diretamente para o sol, mas sempre pode admirar a lua.

Notes:

(1)Maiko: Aprendizes de gueixas. Tradução para dança infantil.

(2)Shamisen: Instrumento musical japonês de três cordas.

(3)Shukahachi: Uma espécie de flauta de bambu de aproximadamente 30cm.

(4)Dangôs: Bolinho japonês feio de farinha de arroz tradicionalmente servido em palitos e com chá verde.

(5)Mizuage: Na verdade o ritual do mizuage é o rito de passagem da gueixa de uma idade para a outra, onde elas começam a se vestir melhor e mais ricamente. Aqui o ritual está como venda da virgindade para se adequar a fic.

Otou-san: Pai

Okaa-san: Mãe

Ojii-san: Avô

Obaa-san(Baa-chan): Avó

Oji-san: Tio

Nii-san: Irmão mais velho.

Hikari – Eu não sei o nome da mãe da Hinata, mas como todos os nomes do Clã Hyuuga têm a ver com luz (menos o Neji que significa "parafuso") eu escolhi esse, pois significa "luz".

Chapter 2: O Sol, a Lua, as Trevas e a Cerejeira

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

"O mundo das gueixas fica em um universo perigoso, Hinata-chan, e se você não tomar cuidado, pode se perder nele" suas mãe não era uma mulher que gostava de ficar se repetindo, mas Hinata era uma aluna dedicada e aprendia rapidamente. Enquanto caminhavam, ao cair do anoitecer, ela passava, uma atrás da outras, as lições que há muito tempo jaziam encaixotadas em baús de jade empoeirados de sua mente que ela não esperava um dia ter que lustrar outra vez.

- Hinata-chan? – perguntou Sakura salvando Hinata da maré de pensamentos que a estavam arrastando para o meio do oceano. A garota olhou-a por um minuto tentando se lembrar de onde estava e do que estava acontecendo. Lembrou-se de tudo quando viu os dois leques nas mãos de Sakura – Está tudo bem?

- Está, sim, Sakura-chan – ela lhe sorriu, tranqüilizadora – Só estava me lembrando.

- Isso é doloroso para você, não é? – as sobrancelhas de Sakura se arquearam e seus olhos ganharam um brilho terno. Hinata desviou seus olhos para evitar a piedade da rósea. Aquilo era a última coisa da qual precisava.

- Pelo contrário – disse-lhe – Lembrar me ajuda, de alguma forma.

O seu olhar queria voltar para o interior, para mais pensamentos e mais lembranças, mas Hinata se obrigou a ficar no presente. Pensar naquelas coisas meio que podia ajudar a lembrar-se que sua mãe um dia acreditou nela, mas não fora completamente franca com Sakura. Do outro lado da questão vinha o seu pensamento de que, se um dia sua mãe acreditara, ela estava morta e não havia mais ninguém para fazê-lo no presente. Sorriu triste, mas virou-se para Sakura que tinha se afastado novamente, treinando os movimentos que Hinata lhe ensinara com o leque.

Sasuke andava na frente, altivo e misterioso com a máscara semelhante à de Kakashi cobrindo-lhe o rosto. Mais cedo, quando Hinata parou para analisar seus companheiros, pensou se a máscara que o Uchiha atualmente usava nas missões não era uma homenagem a seu falecido sensei, assim como o vício do cigarro se tornara a homenagem de Shikamaru. Para ela tudo estava claro que sim. Naruto não conseguia ficar quieto, em nenhum momento. Hora ele seguia mais a frente, conversando ou brigando com Sasuke, hora tentava chamar a atenção de Sakura – mas esta logo lhe repreendia por não deixa-la praticar sossegada. Quando falava com Hinata ela ouvia, respondia, mas depois voltava a suas lembranças e Naruto voltava a ficar entediado. No momento ele seguia na retaguarda, os braços atrás da cabeça, reclamando sobre alguma coisa que nenhum dos outros fazia questão de escutar.

- Você está indo muito bem, Sakura-chan – elogiou Hinata quando viu Sakura executar perfeitamente, e em movimento, o lance de passar o leque de trás do corpo para frente.

- Obrigada. Não é mesmo tão difícil – e depois disso ela girou com a máxima destreza para a execução de um passo e estendeu o braço, mas o leque escorregou de sua luva e foi parar na cabeça de Sasuke forte o suficiente para faze-lo pender pra frente – Sasuke-kun!

Todos pararam naquele momento. Sakura tensa, Hinata temerosa e Naruto... Naruto começou a gargalhar. Tão escandalosamente quando podia. Sasuke parou de andar, agachou-se e pegou o leque nas mãos. Abriu-o para ver a seda negra e os desenhos em linhas cor-de-rosa de pétalas de cerejeira. Algo muito típico de Sakura.

- Desculpe, Sasuke-kun – Sakura pediu delicadamente, mas sua voz foi abafada por outra gargalhada de Naruto.

- Fala sério, teme, até a Sakura-chan já tá batendo em você!

- Fica quieto, Naruto! – gritou Sakura, nervosa – Não piora a situação!

Mas o loiro só continuou gargalhando até o moreno, num movimento rápido demais, fechar o leque e arremessá-lo diretamente na direção da boca de Naruto. E acertando, é claro.

- E você continua apanhando de mim, não é, dobe?

- Teme! – gritou Naruto depois de cuspir o leque, irritado, mas perdendo toda a pose de entediado diante do meio sorriso cínico que Sasuke lhe lançava por trás da máscara. Ele não precisava estar sem ela para Naruto, ou qualquer uma das garotas, saber que ele estava sorrindo. Os seus olhos negros estavam se deixando ser expressivos o suficiente para até mesmo Hinata entender suas intenções.

Irritar Naruto.

- Eu posso quebrar a sua cara quando eu quiser, dattebayo!

- Humpf – foi a única e definitiva resposta de Sasuke. Ele se virou novamente, fechando os olhos, mas ainda sorrindo – Vamos passar a noite naquela casa de chá.

E foi o fim da discussão. Na estrada de terra batida em que se encontravam, ladeada de árvores grossas e antigas, descendo a colina, num vale muito grande, havia uma casa de chá que eles não tinham notado antes. Dos seus fundos levantavam-se nuvens de vapor e das chaminés chegavam a eles linhas finas de lenha queimando. Naruto colocou no rosto o sorriso e correu pra frente:

- Que bom! Vamos ficar na hospedaria por conta do teme, dattebayo!

- Eu não vou pagar pra você.

- Quê?! Porque não?

- Porque você é um idiota – e recomeçou a andar ignorando completamente, como sempre, os impropérios que Naruto desferia para ele.

Sakura e Hinata se entreolharam. Sakura sorriu e seu sorriso se transformou em um riso para mostrar a Hinata que estava tudo bem e ela seguiu os seus companheiros colina abaixo até o vale. Hinata demorou-se um pouco e apanhou o leque que jazia esquecido na estrada. Tirou a terra de cima dele e abriu-o. Girou numa única perna mantendo o leque ainda aberto e a sua mente veio à imagem de sua mãe executando o movimento. Hikari passou o objeto por cima dos olhos, na ponta dele vinha pendurado um guizo que tilintava o tempo todo, e desceu o leque fechando-o no caminho para arremessá-lo para cima com força e pega-lo aberto com a outra mão. O som de guizo tilintando e ela sorriu maravilhosa como sempre fora.

- Hinata-chan! – abriu os olhos bruscamente, de novo tirada de seus pensamentos pela voz de Sakura, que voltava subindo a colina – Eu esqueci o leque, você o encontrou?

- Sim – respondeu e passou uma das mãos pelos olhos. Precisava se concentrar, mas as suas lembranças, essenciais para aquela missão, não estavam ajudando.

- Tem certeza de que você está bem? Está muito distraída, Hinata-chan.

- Estou bem, isso vai passar logo – tentou sorrir, mas corou de vergonha por Sakura perceber sua distração – Não se preocupe.

Sakura sorriu em resposta e pegou-a pela mão puxando colina abaixo.

- Vamos, eu estou louca para um banho! – e, mais baixo, acrescentou – Podemos espiar através do bambu.

E a Hyuuga corou, os olhos arrelagados.

A casa de chá e hospedaria era como qualquer outra que eles encontrariam no País do Fogo, toda feita de madeira, com suas criadas pequeninas e prestativas, de portas corrediças e feitas com papel de seda decorados. Os ninjas de Konoha alugaram dois quartos separados, mas com uma saleta comum. Mal chegaram aos aposentos Naruto jogou suas coisas a um canto e pegou uma dasyukatas(1) que estavam dobradas sobre osfutóns(2).

- Banho ao ar livre, dattebayo! – gritou Naruto abrindo a porta de correr com força. Olhou para trás um momento, ainda sorrindo – Vem logo, Sasuke!

- Vamos também, Hinata-chan – Sakura chamou, suayukatasobre o braço.

- Pode ir na frente, Sakura-chan, tenho que arrumar umas coisas.

- Certo – e a rosada saiu seguindo pelo mesmo caminho de Naruto.

A Hyuuga foi até sua mochila e tirou de lá os seus quatro embrulhos de papel de seda. Colocou-os arrumados e esperou mais um pouco até uma criada surgir na porta.

- Os senhores gostariam que eu trouxesse o jantar?

Só nesse momento Hinata percebeu que ela não estava sozinha no quarto. Se livrando da bolsa de kunais presa à perna e pegando sua própriayukataestava Sasuke, ainda de máscara. Como o rapaz não disse nada, a criada se voltou para a morena que no momento se joelhava em frente a ela.

- Não, ainda vamos tomar banho – respondeu quanto ao jantar – Vocês têm disponíveis cabides para quimono?

- Sim, senhora.

- Eu preciso de quatro, por favor.

- Imediatamente – a criada sorriu e fechou a porta.

Hinata levantou-se de novo e foi para perto de suas coisas e só ouviu a porta deslizar gentilmente para ser aberta. Não se virou, agora sabia quem era.

- Não demore – disse Sasuke. E a porta se fechou com a mesma suavidade que abriu. Hinata estremeceu, desde sempre achara Uchiha Sasuke uma pessoa que era para ser temida, uma pessoa misteriosa e de segredos muito mais profundos do que as pessoas faziam fofoca na rua principal da Vila. E nunca pensou que fosse se arrepiar ao detectar em sua voz um leve, quase inexistente, sinal de urgência.

- Porque demorou, teme? – perguntou Naruto com uma toalha branca na cabeça encostado a uma pedra. A casa de banho estava vazia exceto por eles. Uma parede de bambu dividia os dois lados da terma.

- Nada – Sasuke respondeu sentando-se numa pedra e jogando água sobre si antes de entrar no banho.

- Hinata! Estou aqui!– do outro lado da parede de bambu veio à voz de Sakura e não demorou nem um pouco para que as orelhas de Naruto ganhassem mais atenção para o que estava acontecendo do outro lado. Ele se aproximou da parede e achou uma fenda suficientemente grande– O que é que você está segurando?

- Não estou segurando nada, Sakura-chan– respondeu à morena. Pela fresta Naruto via as costas de Sakura, os cabelos curtos presos para cima, e Hinata enrolada numa toalha, os cabelos negros presos em um rabo-de-cavalo alto, os braços na frente do corpo.

- Hei, Sasuke, vem ver isso aqui, dattebayo! – sussurrou Naruto, um sorriso se estendendo na sua melhor cara de raposa.

- Você deveria deixar de ser infantil, Naruto.

- Quê? Tá me dizendo que isso aí são só seus peitos!?

- Sakura-chan!– pela fresta Naruto viu as bochechas de Hinata ganhando uma coloração não mais rubra, algo arroxeado ou azul, de tão intensa era sua vergonha. Ela mergulhou na água até a boca.

- Desculpe, Hinata-chan– respondeu Sakura com um sorriso brincalhão.

Naruto mudou de ângulo se movimentando para olhar por uma fresta mais a esquerda, mas sua mão esbarrou em outra mão. Quando ele levantou os olhos viu Sasuke, com a face séria de sempre, espiando por uma outra fresta, o Sharingan ativado.

- Eu sou infantil, Sasuke? – o sorriso de raposa tinha voltado às feições de Naruto, mas Sasuke apenas socou-lhe a cabeça fazendo Naruto bater o nariz contra o bambu.

- O que foi isso?

- Devem ser só Naruto e Sasuke-kun– Sakura respondeu simplesmente– Sasuke-kun deve estar impedindo aquele pervertido do Naruto de nos espionar.

Naruto levantou-se de súbito ao ouvir aquilo, mas foi impedido por Sasuke de gritar qualquer coisa em protesto.

- É muito complicada a idéia de só calar a boca e olhar? – perguntou Sasuke num sussurro raivoso. Naruto negou com a cabeça.

Do outro lado da parede, na parte feminina da terma, Hinata se encostara a uma pedra e olhava para o céu. Estava muito escuro e as poucas estrelas estavam difundidas pelo vapor da água.

- Hinata? – Sakura estava recostada a uma pedra próxima, a expressão tristonha como se ela fosse dizer algo que Hinata não acharia agradável.

- Sim?

- Você ficou triste com... Você sabe, Naruto?

E não foi agradável. A Hyuuga mergulhou e só voltou a emergir próxima a parede de bambu. Recostou-se nela, ainda segurando a toalha branca que a envolvia antes de entrar na água. Ela segurou a toalha e cruzou os braços sobre o busto para segurar seus ombros. O seu olhar caiu na água quente, mas não conseguiu se ver refletida.

- Quero dizer, você gostava dele há muito tempo, não é? – Hinata maneou a cabeça afirmativamente e, do outro lado, Naruto tirou seus olhos da fresta. Sasuke olhou-o abaixar a cabeça e dar um sorriso triste.

- S-sim, mas... Naruto-kun foi muito... Gentil comigo, Sakura-chan – a voz de Hinata era amena, com uma alegria perceptível. Suas bochechas não estavam rosadas e seus olhos brilhavam – Só por ele ter tentado gostar de mim também, isso já é muito bom.

A Haruno encarou-a espantada, mas não durou muito.

- Kiba-kun é que ficou com vontade de matar Naruto-kun – e a morena riu. Colocou a mão no queixo como se lembrando de algo – E Lee-san me disse que Neji-nii-san ficou muito aborrecido.

Assim como Naruto, Hinata era outra pessoa que tinha um grande coração. E, também diferentemente dele, ela não precisava sair por aí gritando e sendo escandalosa para mostrar isso. A rósea se aproximou da parede de bambu e sorriu para Hinata.

- Vem, me deixa lavar suas costas – e puxou Hinata para a parte mais rasa da terma, do lado mais longe da parede de bambu. Hinata sentou-se, a toalha cobrindo sua frente. Sakura estava ajoelhada atrás dela e esfregava as costas de Hinata.

- E... – começou tímida – Como vai com Sasuke-san?

O movimento em suas costas parou por um segundo. Naruto olhou para Sasuke, mas o moreno só continuava parado, olhando pela fresta. Sakura voltou a esfregar.

- Continua como sempre. Eu não consigo fazê-lo me ver, sabe, Hinata? É como se ele olhasse, mas não visse.

A Hyuuga virou-se para encontrar as feições tristes de Sakura.

- Eu acho... Que Sasuke-san tem muitos problemas na cabeça, Sakura-chan – mas Sakura balançou a cabeça em negativa.

- Essa desculpa seria compreensível, Hinata, antes de ele voltar para Konoha, mas agora... – Sakura começou a tremer muito levemente. Hinata aproximou-se e abraçou-a.

- Não se preocupe, Sakura-chan – ela disse – Ele ainda vai ver.

Do outro lado do muro, se antes Naruto estava com tanta vontade de bater em Sasuke por fazer Sakura ficar triste que até estava começando a escapar-lhe um pouco do chakra da Kyuubi, agora ele estava com um sorriso no rosto e sangue escorrendo-lhe pelo nariz.

- Você é nojento – disse-lhe Sasuke.

- Hei, Hinata-chan– a Haruno desvencilhou-se do abraço de Hinata e agora sorria largamente, tão marota quanto o sorriso de raposa de Naruto– Você já tentou usar o byakugan para... Dar uma espiadinha?

- Sakura-chan!

- Vamos, Hinata!Quando você namorava Naruto você não o viu sem roupa?

- N-não, nós nunca...

- Pois essa é sua chance!

- E-eu... Não sei...

- E Kiba? E Shino, então? Porque deve, definitivamente, ter alguma coisa embaixo daquelas roupas– Sakura tentava lhe convencer, mas Hinata estava temerosa- Por favor, Hinata-chan, é só descrever pra mim, sabe, abdômen, tórax, pernas...

- Você acha que ela vai usar mesmo o byakugan, Sasuke?

- Não.

- Byakugan!

- O que você dizia, teme? – Naruto alargou o sorriso, mas o Uchiha já não estava mais ao seu lado – Teme? – Sasuke estava do outro lado, a toalha enrolada na cintura, saindo da terma – Vai me deixar aqui sozinho?

- Vou.

- NARUTO-KUN!– ele ouviu um grito vindo do outro lado e colou-se a parede para ver Hinata submergindo e Sakura, com o punho levantado, enrolada numa toalha branca, vindo em sua direção.

- SEU PERVERTIDO! – ela gritou socando a parede, bem onde se encontrava o rosto do loiro, estourando-a e fazendo-o bater numa das pedras grandes da terma – Como você ousa nos espionar tão deliberadamente?

Mas Naruto não se encontrava em condições de falar.

Da sala comum do quarto deles a vista do céu não era anuviada pelo vapor e as poucas estrelas se faziam muito bem visíveis. Depois do banho – e depois de Naruto acordar – eles voltaram para o quarto já devidamente vestidos com asyukatas. A sala comum era muito espaçosa e em seus cantos estavam dispostos os quatro cabides com os quimonos que Hinata trouxera. Sakura ficou maravilhada ao entrar e se deparar com eles, tão bonitos e arrumados.

- Ah, como eles são lindos, Hinata! – Sakura entrou e foi imediatamente na direção deles. Acariciou-os, tirou-os do cabide e provou-os sorrindo como uma garotinha.

- Eu os trouxe para servir de moeda para barganha – explicou a morena – Ficará mais fácil nos aceitarem como gueixas se já tivermos algo de valor para oferecer.

Sasuke atravessou a sala e sentou-se, depois de abrir a porta, recostado a ela, olhando para fora. Naruto, com um olho roxo e um papel no nariz para evitar o sangramento, sentou-se encostado a uma das paredes e lá ficou. Assim que a criada bateu na porta Hinata foi até ela e pediu que trouxesse o jantar. Sakura continuava entretida com os quimonos e ela sorriu. Gostava muito daqueles três, do jeito extrovertido e familiar que eles se entrosavam. Com Kiba, Shino e Akamaru a sua relação era semelhante, apesar de que eles dois pareciam muito protetores de vez em quando. Ali ela podia notar que Sakura estava sozinha, apesar dos dois, enquanto ela podia conversar e pedir conselhos a Shino quando quisesse. Assim como para obter uma boa companhia ela recorria a Kiba e ao pelo macio de Akamaru.

- Eu não consigo fazer esse nó atrás! – Sakura irritou-se com o obi e decidiu fecha-lo na frente, mas Hinata aproximou-se e a advertiu.

- Só as prostitutas usam o nó do obi na frente, Sakura-chan. É pra mostrar que é mais fácil de abrir o quimono – ela desatou o nó de Sakura, que vestia o quimono por cima dayukata, e passou para trás atando-o com uma facilidade assustadora – Pronto.

- Como você é boa nisso! – Sakura colocou-se na frente do espelho comprido que tinha no canto e admirou-se vestindo o quimono de outono. Virou uma vez, duas, três, até que andou pelo quarto e conseguiu tropeçar na barra, caindo no chão – Ai!

- Você precisa andar com um pé em frente ao outro, Sakura-chan – Hinata pegou o quimono azul e vestiu fazendo o nó do obi em si mesma, mais simples, com alguma dificuldade. Para vestir corretamente todas as peças de um quimono de gueixa seria necessário pelo menos uma hora e duas mulheres para ajudar, mas ali não era nenhuma apresentação especial que precisasse de toda essa preparação – Dobre um pouco o joelho e um pé na frente do outro, isso faz a barra sair do caminho.

As explicações continuaram até o jantar e de novo depois dele. Naruto foi o primeiro a abrir a porta do outro quarto e se jogar nosfutónsestendidos para ele e Sasuke, sem se importar de desocupar o espaço do Uchiha. Sakura foi a próxima. Abriu a porta do outro quarto e foi deitar-se, cobrindo-se até o queixo. A Hyuuga tirou dos cabides os quimonos e voltou a guardá-los com precisão, dobrando-os delicadamente. Transformando um ato simples em um ritual conforme pensava somente no que estava fazendo. Colocou-os sob o papel de seda e de volta na mochila. Coçou os olhos e bocejou.

- Vá para a cama, vamos acordar cedo amanhã.

- Sasuke-san! – Hinata se sobressaltou, tinha se esquecido, de novo, de Sasuke parado no canto. Quando ele ficava quieto conseguia ser tão imperceptível quanto um item da decoração. Ele tombou a cabeça levemente e seus olhos negros cravaram-se nela como espadas muito afiadas, mas a morena pareceu não perceber. Levantou-se e se sentou sobre os joelhos perto da porta, olhando para fora – Você também precisa dormir.

- Você já tentou dormir com Naruto? – ele perguntou sério, mas no seu tom de voz tinha um riso dissimulado – Prefiro ficar acordado.

- Você pode dormir com a Sakura-chan, se quiser – ela corou imensamente. Talvez estivesse fazendo um favor a ela, mas sabia que Sasuke poderia pensar que ela estava fazendo isso para dormir junto de Naruto. Desviou seus olhos, mas as palavras de Sasuke não eram acusadoras quando falou.

- Não sei o que é pior: ser chutado por Naruto ou agarrado por Sakura.

Ficaram em silêncio depois disso. Não de forma desconfortável, apenas em silêncio, entretidos o suficiente com seus próprios pensamentos para sequer terem vontade de se mover. Hinata trouxe suas mãos para perto e começou a brincar com os dedos. Apertou-os fortemente antes de se virar para Sasuke, determinada, mas parar no último segundo quando viu os olhos ônix de perto, dardejando em si novamente, muito profundos, hipnotizantes, que pareciam sugá-la para mais perto, mais perto. Mas quando desviou os olhos e voltou a si, não tinha se movido um centímetro para perto dos olhos dele, como pensara.

- Porque você não fica com a Sakura-chan, Sasuke-san?

- Você já imaginou seu futuro, Hinata? – ela o encarou de perfil, as sobrancelhas franzidas como se lembrando de uma memória distante, diferente do olhar perdido dela quando entrava na própria mente para ter com suas lembranças. Ele olhava para baixo, para lugar nenhum, e falava calmamente – Acho que fez isso e viu Naruto lá na frente.

A garota estremeceu e também abaixou a cabeça, esperando Sasuke continuar.

- Quando eu imagino meu futuro eu não vejo Sakura lá na frente, porque eu simplesmente não consigo vê-la no presente.

A morena não o encarou. Estava pessoalmente doída por aquele comentário de Sasuke sobre a Haruno. Levantou-se e seguiu em silêncio para a porta do quarto em que estava à rosada. Parou, a mão na porta corrediça, e respirou muito profundamente.

- As coisas mudaram no meu futuro, porque o seu não pode mudar também?

- Porque a decisão sobre o seu futuro não era apenas sua, mas quanto ao meu é inteiramente minha.

Hinata apertou a porta com raiva das palavras de Sasuke, porque não era verdade aquela sentença. O seu futuro dependera de Naruto também, mas se Sasuke escolhesse Sakura o futuro dele dependeria dela.

- Você está errado, Sasuke-san – Sasuke olhou para as costas dayukatadela, a mão que segurava a porta tremia levemente e sua voz não tinha mais a suavidade de outrora, mas uma determinação que, para Sasuke, era desconhecida – A partir do momento que vemos uma pessoa no nosso futuro, ela passa a ter direito a decidir sobre ele também, você só precisar ver – a morena abriu a porta e entrou no quarto – Boa noite, Sasuke.

O dever da lua é iluminar as trevas, o dever do sol é alegrar a cerejeira.

O sol está constantemente fugindo da lua e a lua foge do sol, mas eles não são inimigos nem amantes. São amigos que nunca podem ficar juntos de fato, apenas sorrir docemente um para o outro quando a lua se põe a sua frente ou quanto o sol o faz, porque eles se ajudam, eles se dão força. A cerejeira recebe, dia após dia, o brilho e a alegria do sol, mas espera constantemente a chegada da noite para receber algumas carícias das trevas, mas as trevas não olham para a cerejeira, pois as trevas estão muito ocupadas admirando o brilho da lua. O sol briga com as trevas, pois eles não podem coexistir ao mesmo tempo. A lua não olha diretamente para ponto algum, apenas ilumina as trevas para fazê-las enxergarem a cerejeira.

O sol entrava pelo papel de seda para perturbar seu sono, mas não importava. Aquele sonho sobre uma antiga lição que sua mãe lhe ensinara, sobre as quatro pessoas que se amavam entre si, mas que foram condenadas a se tornarem aqueles elementos, tinham-na deixado inquieta por toda a noite, pois aquela história tão antiga quanto o tempo estava se mostrando estranhamente familiar.

Notes:

(1)Yukata: quimono leve de verão usado em festivais e casas de banho. Literalmente traduzido como "roupa de banho".

(2)Futón: colchonete estofado, como um colchão, mas mais fino.

Chapter 3: Entre Moscas e Vozes Macias

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Não havia feixes de luz propriamente ditos, mas a claridade entrava no quarto através dos quadradinhos de papel de seda da porta e das paredes do aposento. Sakura nunca fora muito fã de casas de banho exatamente por aquele motivo. Porque eles não podiam ter portas, janelas e paredes como as outras pessoas? Passou a mão nos olhos antes de se sentar nofutón. Ao seu lado o espaço estava vazio e as coisas com as quais Hinata dormira já estavam precisamente arrumadas no canto no quarto.

Como ninja adquirira o hábito de acordar cedo, ao menos mais cedo que Naruto e Sasuke, mas quando a rósea abriu a porta que dava para a fora e viu o sol ainda despontando pálido e pela metade atrás das montanhas ao longe achou Hinata completamente louca de acordar tão cedo. Arrumou ayukatameio torta em seu corpo e fechou a porta que direcionava para a fora e abriu a do cômodo em comum entre o quarto delas e dos rapazes. No centro do cômodo um café da manhã estava disposto para servir e abastecer muito bem a, pelo menos, o triplo de ninjas designados para aquela missão. Imaginou se fora Hinata quem mandara preparar aquilo.

Rodeou a mesa e abriu a porta de correr do outro quarto para encontrar a pior bagunça que dois seres humanos seriam capazes de fazer. As roupas limpas que são entregues de manhã lavadas como cortesia da casa de chá estavam esparramadas pelo quarto todo, osfutónsde Sasuke e Naruto praticamente já não estavam mais debaixo deles e ambos estavam completamente desarrumados. Uma das pernas de Naruto estava bem em cima do estômago de Sasuke a mão direita deste empurrava a cabeça de Naruto para longe. A respiração de Sasuke tinha um leve ressonar, enquanto Naruto fazia o favor de roncar como uma tempestade.

Sakura ajoelhou-se ao lado deles, uma sobrancelha muito arqueada em reprovação, mas sua expressão mudou rapidamente quando ela ignorou o ronco de Naruto e o filete de baba escorrendo da boca dele para admirar Sasuke. As feições dele, mesmo dormindo, pareciam sérias. Tudo em Sasuke inspirava uma seriedade que Sakura achava muito atraente. A kunoichi levantou a mão, incerta se realmente deveria fazer o que pretendia, masqueriatanto,precisavatanto. Seu indicador correu por um das sobrancelhas de Sasuke e por toda a linha do nariz até sua ponta. Mas afastou a mão rapidamente, como se tivesse sido mordida por uma cobra, quando o nariz de Sasuke se mexeu, ele levou a mão ao local e o coçou impaciente, antes de abrir os olhos.

- Ah... – Sakura murmurou enquanto o rapaz sentava-se tacando a perna de Naruto com brusquidão para o lado. Os olhos negros, então, cravaram-se na Haruno conseguindo adivinhar completamente o que a rósea estava fazendo ali – Eu... Vim acordar vocês! Tem um café da manhã incrível esperando ali na sala, Sasuke-kun.

O shinobi a ignorou e levantou-se ajeitando o quimono. Sakura suspirou aliviada quando o moreno abriu a porta da sala comum que tinha vista para a varanda sem brigar com ela. Chutou Naruto com algum carinho e gritou para que ele acordasse. Não demorou muito e os três estavam sentados na mesa com aquele café da manhã magnífico. O loiro fazia o favor de comer como um desesperado, como se nunca mais em sua vida fosse ver comida e precisasse colocar tudo o que visse para dentro naquele momento. Sakura tentava não observar o companheiro.

- Onde será que a Hinata-chan foi? – Sakura soltou a pergunta para a ninguém em particular, mas como se fosse uma invocação à porta se abriu e Hinata os encarou. Ela tinha o casaco lilás amarrado à cintura, a blusa de rede lhe cobria o abdômen e terminava em uma regata sobre o busto farto e estava segura por uma alça em um só de seus ombros. Os cabelos molhados pingavam água em seus ombros e costas – Ah, estava me perguntando onde você estaria, Hinata. Foi tomar banho?

- Si-sim – a garota corou ao responder e tratou de rapidamente colocar o casaco de volta fechando até em cima. Ela sorriu para Sakura e desejou bom dia antes de se sentar ao lado de Naruto, já que Sakura fazia questão de ficar ao lado de Sasuke – Pensei que vocês acordariam mais tarde.

- Esses dois dormem demais mesmo, mas você acorda muito cedo.

- Kiba-kun e Shino-kun acordam muito cedo, também. Acabei me acostumando ao horário deles.

Eles terminaram de comer em silêncio, a não ser por Naruto que fazia o favor de ser bem barulhento e soltar exclamações de agrado sempre que podia. Hinata sorria para ele, gentilmente, admirando a vivacidade do loiro, mas os outros dois apenas continuavam comendo. As criadas retiraram as coisas e a mesa do café da manhã enquanto eles se vestiam e se preparavam para continuar a viagem.

Já na estrada, com o sol cada vez mais quente sobre suas cabeças, Sasuke anunciou que eles deveriam andar, sem cessar, até o anoitecer e comeriam andando. Não havia mais tempo para paradas inúteis, pois enquanto eles andavam Masaru Ren já poderia estar mobilizando exércitos e mercenários contra a Vila da Folha. Naruto protestou contra aquela idéia, Sakura também implorou um pouquinho por, pelo menos, dez minutos de descanso durante o almoço, mas Sasuke foi irredutível. Só descansariam durante a noite. Três dias de caminhada depois, por entre as florestas para que ninguém que estivesse no mesmo rumo que o deles os visse, enquanto iam para o norte e cada vez mais para o norte do País do Fogo, o clima esfriava e a noite caía mais rapidamente.

Na última noite, com o acampamento montado a uma distância segura do feudo, para o caso de ninjas que já estivessem lá não os interceptarem, eles montaram o plano de ação. Sakura e Hinata interromperam as lições de gueixa que Hinata passava para Sakura e eles se colocaram em volta do fogo. Desde que tinham saído da casa de chá Sasuke não tinha mais tirado a máscara, por precaução. Ele retirou da mochila um quimono quase do mesmo estilo que usava quando estava junto com Orochimaru, dava-se para ver o símbolo do Clã Uchiha bordado nas costas e colocou de lado.

- O meu plano era o de chegar um de cada vez, vocês duas juntas, eu e então Naruto, mas reconsiderei – o Uchiha começou – Pareceria muito suspeito tantas pessoas chegarem ao mesmo tempo, de repente – o moreno fixou-se em Naruto primeiro – Então eu e Naruto vamos hoje, você vai atuar como meu servo e eu peço trabalho para você no feudo enquanto estivermos lá.

- Já era ruim o suficiente a ideia de ser serviçal, agora eu tenho que ser seu servo, dattebayo!

O moreno só o ignorou e virou para as kunoichis, os dois pares de olhos claros delas pregados nele.

- Vocês vão chegar amanhã pelo anoitecer, não deixem o sol se pôr, vão antes. Na noite do dia posterior a sua chegada ao feudo nós quatro vamos nos reunir aqui a meia-noite para informar a situação. Informe sua chegada aqui piando três vezes como uma coruja e coaxando uma vez.

Os olhos ônix esquadrinharam os seus companheiros profundamente. Hinata desviou depressa seus olhos dos de Sasuke e saiu do círculo que eles tinham formado para se aproximar de sua mochila e começar a remexer nela. Sakura tentou reter o mais que pôde os olhos de Sasuke nos seus, mas ele passou novamente e observou Naruto com os braços cruzados, um olhar intenso.

- Coloque seu disfarce, Naruto – ele ordenou e pegou o quimono separado ao lado entrando assim na floresta.

Naruto obedeceu. Pegou a mochila e também desapareceu floresta adentro. Sakura suspirou e continuou sentada lá, agarrou as pernas e ficou desenhando coisas na terra ao lado da fogueira antes de Hinata se aproximar dela.

- Sakura-chan, tudo bem?

- Sim, tudo bem – ela respondeu forçando um sorriso.

Já fazia algum tempo, talvez uns dois anos depois de Hinata e Naruto terem terminado o namoro de sete meses deles, que Sakura já não estava mais tão empolgada em fazer coisas que envolvesse ser rejeitada por Sasuke. Por mais que ela gostasse dele, por mais que sempre ficava feliz quando uma oportunidade de ficar junto dele surgia, por mais que fosse persistente, ele não parecia ficar mais interessado nela. Nem depois daquela vez em que se entregara para ele, naquela noite transformada apenas em uma memória envolta em névoa branca e não em sentimento, em que aceitara ser dele, ele não a olhou de forma diferente na manhã seguinte ou em qualquer outra manhã, tarde ou noite. E a partir daquilo, depois de todas as facadas que se fechavam rapidamente e formavam cicatrizes, as facadas agora já não penetravam tão fundo, porque a pele se tornara grossa e dura.

- Aqui, Sakura-chan – a Hyuuga lhe estendia peças de quimono muito mais simples e mal feitos que aqueles que ela lhe mostrara na casa de chá. Esses nem de seda eram feitos, mas só de algodão – Não podemos chegar lá com essas roupas de kunoichis.

- Eu não... Pensei nisso – demorou uns segundos para a Haruno se livrar definitivamente da sensação de amargor em sua boca por causa das lembranças e assimilar o que Hinata dizia.

- Droga de disfarce, dattebayo! – exclamou Naruto tentando socar sem nenhum cuidado o casaco laranja dentro da mochila. Os cabelos loiros tinham sumido embaixo de uma peruca castanha tão arrepiada quando os cabelos do Uzumaki na realidade, um pouco mais compridos na altura da nuca e nas têmporas. Os olhos de azul celeste passaram para um azul escuro e profundo. O quimono simplesmente e cinzento que ele usava caia até abaixo das coxas – Essa coisa não vem com calças! – ele gritou apontando para a parte descoberta de suas pernas encarando as meninas, como se elas pudessem fazer alguma coisa quanto aquilo.

- Pare de gritar – disse Sasuke saindo do escuro com o quimono branco cobrindo suas costas e os braços, mas aberto do peito. A calça preta e simples era larga o suficiente para dar mobilidade a Sasuke e terminava com bandagens desde seus joelhos até os tornozelos. Nas mãos as luvas pretas e num cinto vermelho preso ao quadril vinha Kusanagi embainhada – Lembrem-se, daqui dois dias, a meia-noite. Vamos, Naruto.

- Quer parar de me dar ordens, teme!

Mas mesmo reclamando Naruto seguiu Sasuke. Ambos pularam para os galhos das árvores e logo o chacoalhar das folhas cessou. Sakura e Hinata estavam definitivamente sozinhas na floresta.

O feudo de Masaru Ren era definitivamente enorme e muito bem guarnecido. Sua extensão era toda fechada por altos muros protegidos por guardas com pelo menos algum nível de chakra, mas absolutamente nem um pouco capazes de deterem ninjas como Uzumaki Naruto e Uchiha Sasuke. Imediatamente quando os dois ninjas se aproximaram, Naruto um pouco mais atrás de Sasuke e meio encurvado, como um servo deve ser, os guardas os avistaram e se colocaram a postos, as lanças que empunhavam ficaram em riste. Sasuke parou a uma distância em que as lanças não os alcançariam em um ataque e só pousou, como se fosse um apoio qualquer, o cotovelo no punho de Kusanagi.

- Quero falar com Masaru Ren – ele anunciou.

- Você ouviu isso, Meoki? Ele quer falar com Ren-sama.

- Garoto insolente! – grunhiu o outro – Dê meia volta e vá embora. Ren-sama não recebe a escória no meio da noite.

Sasuke fechou os olhos e suspirou. Quando tornou a abri-los o Sharingan reluziu. De tão longe os guardas não conseguiram ver, mas Naruto sim e lançou, com os olhos, uma pequena advertência a Sasuke.

- Não vou machucá-los – sussurrou o moreno e recomeçou a andar em direção as lanças empunhadas.

- Você é surdo, idiota? É para ir embora!

Uchiha Sasuke não foi embora e continuou andando com o mesmo ritmo até estar perto o suficiente para os guardas considerarem-no uma ameaça real e avançarem com suas lanças, mas o moreno era muito mais rápido e assim que eles estavam prestes a cravar as lâminas em Sasuke ele desapareceu e reapareceu atrás deles. Os seus corpos paralisaram e eles sentiram-se congelar no lugar.

- Vocês podem mandar sua escória para o inferno – a voz dele perfurou-os, rasante como uma flecha, fria como uma adaga de gelo – Mas nem de longe podem me considerar como alguém desse tipo.

E com um movimento rápido desacordou ambos os guardas. Naruto aproximou-se dele correndo, desviando-se dos guardas caídos. Nenhum dos dois se preocupou com eles ficarem jogados ali, apenas abriram o grande portão e entraram no feudo. Era, realmente, um espaço absurdamente grande. Da entrada eles podiam ver, no centro do complexo, o telhado alto da casa do senhor feudal se erguendo imponente na noite. Um pouco mais afastado, mais a oeste, outro telhado pouco mais baixo que o da mansão. As casas e as lojas do feudo eram muito bem cuidadas, contudo naquele momento as ruas espaçosas estavam desertas e a área das plantações não podiam ser vistas da entrada, deviam ficar no extremo norte do feudo. Os dois ninjas começaram a andar pelas ruas mantendo em vista a direção do telhado mais alto, lá era onde eles deveriam encontrar Masaru Ren.

- Sasuke – chamou Naruto olhando para os lados, apreensivo – Os outros guardas não deveriam ter vindo nos interceptar, datte...? – mas engasgou na última parte lembrando-se que tinha que evitar ao máximo seu vício de linguagem, aquela era uma das formas mais eficazes para reconhecer Naruto.

- Eles vieram.

Foram as últimas palavras de Sasuke antes da rua por onde andavam, ladeada de casas e estabelecimentos, acabar e ele se virem em frente a mansão do senhor feudal, com Masaru Ren esperando na escada e o que parecia ser toda a legião de guardas do feudo prostrados diante deles. Naruto quase sorriu. Se eles soubessem que as informações eram verdadeiras ele poderia derrotar todos aqueles guardas naquele momento e arrastar Ren para a Vila da Folha, mas eles ainda tinham que cumprir a missão.

- Eu estava esperando que você viesse, Uchiha Sasuke-san – Masaru Ren olhou para Sasuke e seus olhos brilharam quando passaram por Kusanagi em sua cintura, depois brilharam ainda mais fitando Sharingan ativado. Ele começou a descer as escadas ainda falando e sua voz soava como algo perigoso, pois era uma voz macia como se pudesse confiar cegamente nela, mas os ninjas da Folha sabiam perfeitamente como evitar a hipnose enrustida naquele tipo de timbre – A sua fama como vingador, remanescente do Clã Uchiha, aquele que matou Orochimaru e Uchiha Itachi e o novo Sannin das Cobras chegou até o meu feudo – as escadas terminaram e ele passou por seus guardas sem medo nenhum de ser atacado – A pergunta que me intriga verdadeiramente é o que o traz aqui?

- Chegaram aos meus ouvidos que você está tratando de negócios que me interessam – devolveu Sasuke com a mesma voz de adaga de gelo que usara nos guardas – Vim tratar desses negócios e desfrutar da fama de suas gueixas.

- Se você veio em paz, então seja bem vindo – Ren levantou uma das mãos e os guardas levantaram as lanças, antes apontadas para Naruto e Sasuke, e se dispersaram novamente. Somente dois deles ficaram e esses não empunhavam lanças, somente armas ninjas convencionais – Quem é este com você, Sasuke-san?

- É o meu servo, Nai¹ – uma veia saltou na testa de Naruto e suas sobrancelhas se estreitaram para o nome que Sasuke escolhera. Masaru não lhe dedicou atenção, apesar guiou Sasuke para a escadaria e ele seguiu o rapaz e o senhor feudal.

Nem Sakura nem Hinata conseguiram dormir muito bem durante aquela noite. Ambas já estavam muito despertas ao raiar do dia e o silêncio foi o principal companheiro das kunoichis enquanto Hinata tentava ensinar algumas coisas de última hora para a nin-médica. Quando o dia passou a ficar mais frio e o sol mais laranja, elas vestiram os quimonos simplórios e se prepararam para ir ao feudo.

Os olhos de Sakura, enquanto esperava Hinata terminar de arrumar às coisas de um jeito que elas pudessem transportar escondidas as armas para dentro sem serem percebidas pelos guardas, estavam voltados o tempo todo para o telhado mais alto que dava para se ver atrás dos muros do feudo. A morena se aproximou de Sakura e seguiu sua linha de visão. Suspirou antes de perguntar o mais gentilmente que podia:

- Está pronta, Sakura-chan?

- Estou – ela respondeu vagamente, sem fazer menção de se levantar. Hinata, então, deixou as coisas caírem de seus ombros e sentou-se no tronco ao lado da rósea. Ficou mirando o telhado da mansão feudal por um tempo.

- Você está preocupada com eles.

Ela não respondeu, não havia necessidade.

- Tenten-chan me disse uma coisa uma vez que eu tomei como verdade – a Hyuuga encolheu as pernas e Sakura lhe encarou o perfil – Os shinobis desfazem muito da força das kunoichis e se lançam nas batalhas para protegê-las e provar que são os melhores quando, na verdade, as kunoichis são as mais fortes.

Hinata virou para Sakura e lhe sorriu.

- Mesmo preocupadas com nossos companheiros nós temos força para lutar e fazermos o nosso melhor. Isso só prova que as kunoichis, que as mulheres, são os seres mais fortes.

Os olhos de Sakura tremeram e ela se levantou com vontade, totalmente diferente da Sakura melancólica de segundos atrás. Levantou o punho cerrado, franziu as sobrancelhas e, sorrindo, disse:

- Vamos, Hinata. Vamos fazer a nossa parte da missão!

A morena se levantou um pouco espantada pela súbita explosão de ânimo na Haruno e pegou as coisas do chão colocando-as de volta sobre o ombro. Elas se embrenharam na floresta e seguiram em silêncio por todo o caminho. Avistaram o grande portão do feudo protegido por dois guardas diferentes daqueles que recepcionaram Naruto e Sasuke. Elas esperaram um segundo olhando para a estrada e escolheram um ponto em que os guardas não poderiam vê-las saindo da floresta.

- Vamos agora – sussurrou Sakura, mas parou e segurou Hinata um instante – E muito obrigada, Hinata-chan.

A outra só confirmou com a cabeça e elas correram para a estrada e começaram a caminhar calmamente em direção ao feudo, a suas costas o sol também iniciava sua caminhada rumo ao chão para dar lugar à noite. Ao se aproximarem o suficiente os guardas uniram as lanças fazendo-as interromperem seus passos. Hinata e Sakura pararam, levaram as mãos ao peito como se assustadas, encenando muito bem.

- O que as moças querem aqui? – perguntou o da direita.

- Viemos... – começou Sakura, gaguejando - ...para nos a-apresentarmos como gueixas.

- Vocês são as novas bonecas de Ren-sama? – elas acenaram com a cabeça – E de onde são?

- So-somos gueixas do País da Grama.

Então o guarda da esquerda se precipitou até elas. Sakura deu um passo para trás e Hinata se encolheu. Ele agarrou o queixo da rosada e analisou-a bem, depois fez o mesmo com o de Hinata. Voltou para o seu lugar e cuspiu no chão.

- Vocês podem passar – disse o da direita e, incertas, elas seguiram o caminho e entraram no feudo – Vão até a segunda maior construção.

Foi a instrução do guarda antes delas se verem completamente perdidas entre pessoas e mais pessoas e construções e crianças e animais. O feudo de Masaru Ren era muito grande e povoado. As pessoas circulavam com pressa, sempre com alguma coisa para fazer ou um lugar para onde ir. Eram educadas, sempre que se esbarravam pediam desculpas e seguiam seus caminhos. Às vezes um fazendeiro gritava para o outro tirar seus bois do caminho, mas era tudo. Sem brigas violentas, sem discussões grosseiras, sem desentendimentos que não podiam ser resolvidos. As kunoichis foram sendo empurradas pela população e pelo fluxo constante até chegarem a frente da mansão do senhor feudal. Guardas estavam a postos nas escadarias, mas nem sequer olharam para elas.

- Estamos perdidas? – perguntou Hinata.

- Se ao menos você pudesse usar o Byakugan, porque de onde estamos todas as construções parecem altas – comentou Sakura, olhando em volta.

- Por favor, com licença, eu preciso voltar rápido para aokia- uma garota passou atrás delas e Hinata ouviu sua súplica. Cutucou Sakura e apontou para onde a menina ia. Ela virou a esquina e elas a seguiram. Quando chegaram à esquina elas a viram correndo por uma rua ladeada de casas até entrar numa construção enorme.

- Porque estamos olhando pra onde ela vai? – perguntou Sakura.

- Porque ela disseokia, é onde as gueixas moram – Hinata explicou e elas se colocaram a andar pela rua reta. Quando se aproximaram o suficiente da construção puderam contemplar uma placa ao lado escrita Casa de Chá – Que incomum.

- O quê?

- Normalmente asokiasnão são dentro das casas de chá.

Mas os questionamentos pararam por aí. As duas se aproximaram mais e Sakura tocou o sino pendurado ao lado da porta. Ouviram-se gritos lá dentro para que alguém viesse abrir e momentos depois a mesma garota que tinha passado correndo por elas abriu a porta. Estava de joelhos e fez uma reverência antes de levantar a cabeça.

- Em que posso ajudá-las?

- Viemos nos apresentar a okaa-san² para servirmos como gueixas nestaokia– explicou Hinata.

- Vieram servir de gueixas? – uma voz as costas da menina desdenhou. Não era uma voz que agradou as duas. Áspera, com mais anos de experiência do que seu número de rugas apresentava, irritante como o zumbido de uma mosca. Ela fez um sinal com a mão e a menina se retirou – E o que as faz pensar que podem chegar assim aqui na minhaokiae ser gueixas?

- Muito prazer, okaa-san – disseram ambas depois de fazerem uma mesura – Nós somos gueixas do País da Grama – continuou Sakura – E viemos pela fama da suaokia.

- Claro que sim, porque mais seria? – a Haruno não gostou do tom de voz dela especialmente quando soltava frases arrogantes – Se já são gueixas devem ter algum quimono para pagar o preço do ingresso na minhaokia.

- Temos quatro quimonos, okaa-san – Hinata ofereceu a ela a bolsa com os quimonos de sua mãe.

- Entrem, então – a mulher agarrou de suas mãos a bolsa e deu-lhes passagem.

O corredor de madeira pela qual seguiram era amplo e todas as portas de várias salas de mesmo tamanho estavam abertas, todas elas com o piso de tatame. Em uma ou outra havia uma mulher limpando. Elas foram até o fim e encontraram uma escada para o primeiro andar. Subiram e lá em cima os corredores e as salas eram de menor tamanho. Embaixo funciona a casa de chá e em cima o quarto das gueixas. Okaa-san abriu a porta de seu quarto e as empurrou para dentro, entrou logo depois e sentou-se atrás de uma mesinha mais ao canto. Hinata e Sakura se sentaram sobre os joelhos à frente dela, o tatame pinicando-lhes as pernas.

A morena Hyuuga observou com pesar a mulher abrir os quimonos e passar por eles suas mãos. As lembranças de sua mãe. Prometeu para si mesma que pegaria aqueles quimonos de volta no fim da missão, não importando o que acontecesse. Ela colocou os tecidos de seda de lado e olhou para as duas demoradamente. Levantou-se e elas fizeram o mesmo.

- Pelo que me parece vocês são bem alimentadas – ela rodou em volta das moças e começou sua analise.

Apalpou primeiro as nádegas e coxas de Sakura com tanta firmeza que Hinata pensou que a Haruno fosse dar-lhe um soco para atravessar a parede, mas a rosada se manteve firme em seu papel. Apertou sua barriga lisa e levantou a manga do quimono até os bíceps. Mediu seus pés, suas canelas e seus seios. Levantou o queixo para ver seu rosto de todos os ângulos e a fez arreganhar os dentes antes de passar para Hinata e fazer o mesmo procedimento. Enquanto a Haruno se mantivera firme, Hinata não pôde evitar corar e se retrair repetidas vezes.

- Diga-me, garota – ela segurava o queixo da morena com firmeza, do mesmo jeito que fizera o guarda, e olhava seus olhos com demasiada atenção – Quem foi responsável por colocar todo esse luar dentro dos seus olhos?

Mas ela não respondeu e okaa-san não insistiu, apesar de ficar encarando-a por mais um tempo, depois deu outra volta em torno delas, mandou-as sentarem-se e mirou seus olhos castanhos de mosca em Sakura.

- Vocês duas parecem jovens e saudáveis, mas você é muito menos encorpada e seus braços têm muitos músculos. Pode trabalhar aqui como empregada, estava mesmo precisando de alguém para isso. Dorme nos fundos – e então colou os olhos em Hinata – Você pode se apresentar como gueixa e dorme aqui em cima. Vou procurar alguém para ser sua onee-san³ e fazer sua estréia em breve.

Sakura e Hinata apenas balançavam as cabeças em concordância.

- E como é nome de vocês?

- Sou Hinata e está é Sakura.

- Hinata... – okaa-san não a olhou, só repetiu o nome fazendo-o soar repugnante aos ouvidos da morena.

As regras daokiae instruções continuaram mais um pouco e elas foram dispensada para conhecerem a casa de chá logo depois, mas somente até a casa de chá ser aberta, depois disso elas teriam que ficar em seus quartos, em silêncio. Os quimonos de Hinata ficaram com okaa-san. Logo depois que elas saíram okaa-san avisou a garota que as atendera, de nome Mizuno, que iria sair.

Seu percurso foi rápido até a mansão feudal de Masaru Ren.

- Eu não me dou bem nesse tipo de serviço. Varrer não presta pra nada, sempre tem alguém que pisa onde você acabou de limpar! – Naruto começou a reclamar assim que fechou a porta do quarto de Sasuke. Trazia o jantar do moreno em uma bandeja para manter as aparências de servo. Colocou sobre a cama perfeitamente feita. Ao que parecia o Uchiha não dormira na noite passada e se encontrava sentado no beiral da janela, sem medo de cair do segundo andar, observando a frente da casa de chá – Oi, Sasuke, você tá me ouvindo?

- Hinata e Sakura já chegaram – respondeu e então mirou a porta. Naruto ficou confuso com o olhar do Uchiha e virou-se também. Alguém bateu.

- Sasuke-sama, desculpe incomodar, mas Ren-sama gostaria de falar com o senhor – a voz de um empregado soou abafada pela porta – Ele te espera no escritório.

Quando Sasuke abriu a porta de correr já não havia mais ninguém lá fora, apenas uma sombra que desaparecia apressada na curva do corredor. Ele olhou para Naruto e disse em voz baixa.

- Não tenha idéias idiotas de ir procurar Sakura ou Hinata, isso pode colocar tudo a perder.

- Eu sei disso, dattebayo – respondeu Naruto no mesmo volume, apesar de zangado.

- E consiga informações com os criados, é um dos meios mais fáceis.

- Vou começar a fazer perguntas, mas você tem que se apressar com o tal Ren, não temos todo o tempo do mundo se o que Tsunade-baa-chan falou for verdade.

- As relações de amizade e confiança entre assassinos e mercenários são muito mais complexas do que simplesmente começar a fazer perguntas – Sasuke fitou Naruto para fazer com que ele entendesse através da tensão e apreensão que estavam espalhados pelo corpo do moreno. Como líder daquela missão ele tinha sobre os ombros as responsabilidades, as vidas de seus amigos, dos moradores da Vila, até daqueles que aceitaram sua volta a contragosto, e ele aprendera com Naruto a não ser mais um ninja que deixa para trás aqueles que precisa proteger – Um movimento em fals fim da missão. E então a Vila da Folha cai, Naruto.

O loiro franziu as sobrancelhas e acenou que sim com a cabeça. Confiava em Sasuke e nas habilidades dele como ninja, então não ficou temeroso pelo melhor amigo quando ele fechou a porta do quarto e seguiu pelo corredor.

Sakura e Hinata desceram as escadas depois de andarem por todo o andar superior. As noticias correram rápido e todas as outras moças da casa já sabiam quem eram e o que fariam as kunoichis ali. Para Sakura elas nem ligavam, mas lançavam olhares de desprezo para Hinata por onde passavam. Nos fundos da casa de chá havia um pátio quadrado onde no meio um lago grande e calmo refletia as paredes e o tablado de madeira em volta dele. Algumas cerejeiras o rodeavam e, em seu centro, numa pequenina ilha que alcançava a beirada do lago por uma ponte, jazia uma cerejeira solitária, tão grande, velha e retorcida que suas flores tocavam a água. As kunoichis rodearam o lago e foram até a outra extremidade onde fica a cozinha e os alojamentos das empregadas.

- Eu sinto muito, Sakura-chan – disse Hinata em voz baixa enquanto rodeavam o lago – Aquela mulher não deveria fazer isso, o certo é avaliar uma gueixa por suas habilidades, não seus atributos físicos.

- Então ela escolheu certo, Hinata – respondeu Sakura, mas sorriu – Não tem problema, eu não sei dançar, é melhor que você faça isso. E você notou todos aqueles olhares hostis das outras gueixas sobre você?

- É compreensível. Elas me veem como concorrente, pensam que eu posso roubar odannadelas.

Sakura balançou a cabeça, ela sabia que se qualquer uma daquelas gueixas olhasse para ela como olharam para Hinata, ela acertaria um soco em cada uma delas, mas Hinata só continuavam andando. E elas entraram na cozinha.

- Ren? – chamou Sasuke esperando do lado de fora da porta de Masaru Ren.

- Entre, por favor, Sasuke-san – a voz veio abafada e Sasuke fez a porta deslizar para encontrar o senhor feudal sentado sobre os joelhos em uma almofada, a janela incidia sua luz diretamente na mesa baixa em frente ao homem e ele parou o que estava fazendo quando Sasuke entrou. O quarto feito de escritório não era muito grande e em suas paredes jaziam estantes com livros e pergaminhos. Atrás de Masaru Ren havia dois mapas em pergaminho, um deles do feudo e o outro das nações shinobi – Em um segundo eles trarão o chá.

No momento em que ele pronunciou essas palavras um criado entrou sem precisar bater ou se anunciar trazendo a bandeja e a depositou na mesa. Ren fez um sinal para que o criado se retirasse, ele mesmo serviria o chá e apontou para a almofada a sua frente:

- Sente-se – Sasuke obedeceu.

- Seu criado disse que queria falar comigo. O que é?

- Na verdade você é quem deveria me responder essa pergunta, foi você, Sasuke-san, quem veio primeiro até mim.

- Eu acredito que minha presença aqui é bem óbvia – os olhos negros fitaram os movimentos lentos de Ren para servir o chá. Ele estendeu a xícara para Sasuke e então para si mesmo. Saboreou o cheiro e o vapor – Vim confirmar os boatos que ouvi.

- E esses seriam?

- Que você está montando um exército para atacar a Vila da Folha – o Uchiha foi direto ao ponto e viu os olhos de Masaru se abrirem tão levemente que passaria despercebido por qualquer outra pessoa, mas os olhos de Sasuke já eram treinados para esses pequenos detalhes.

- Então você está aqui para se juntar a mim ou para me deter – não havia interrogação no fim dessa sentença de Ren, apenas uma constatação simples do que Sasuke poderia ou não fazer.

- Se for verdade, quero me juntar a você. Tenho assuntos pendentes com aquela Vila.

- Um assunto chamado Uzumaki Naruto, se não me engano – Ren ainda não tinha bebido o chá – Ele é um amigo de infância, não é?

- Ele é alguém que preciso matar.

- Entendo.

Ren, então, pousou seus olhos aquosos no chá e pegou-o. Sorriu. A varinha de seu chá estava boiando em pé . Um criado bateu na porta e anunciou:

- Ren-sama, Hae-san está aqui e disse que precisa falar com o senhor. Disse, também, que é rápido.

- Sim, mande-a entrar.

O criado abriu a porta e deu passagem para uma mulher. Sasuke não se virou e ela passou por ele sem olhar. Fez uma mesura quando se aproximou de Ren e ajoelhou, falando-lhe ao ouvido:

- Há uma gueixa nova na minhaokiaque irá lhe interessar, Ren-sama.

- Como é o nome dela?

- Hinata – Ren balançou a cabeça, sorriu e olhou para Sasuke.

- Bem, Sasuke-san, seus negócios comigo estão indo bem e parece que seu interesse por gueixas poderá ser satisfeito. Hae-san tem uma nova garota para nos divertir – virou-se para Hae – Quando Hinata estará pronta para se apresentar?

- O mais tardar em dois dias, Ren-sama.

Masaru balançou a cabeça e dispensou os dois. Hae saiu apressada e desapareceu pelos corredores, mas Sasuke andou lentamente de volta para seu quarto. Não havia gostado nem um pouco do jeito que os olhos de Ren brilharam ao pronunciar o nome da Hyuuga.

Notes:

¹Nai: Significada "nada". Uma brincadeira do Sasuke com o nome e a posição de servo de Naruto.

²Okaa-san: Significa "mãe" e é como é chamada, pelas gueixas, a matriarca da okia.

³Onee-san: Significa "irmã mais velha" e é como é chamada a gueixa mais experiente que "cuida" da maiko, a aprendiz de gueixa.

Danna: É como é chamado o homem que toma para si uma gueixa sob proteção. Como gueixas não podem se casar, então elas têm dannas que cuidam delas.

Galho boiando em pé: Na superstição japonesa, quando o galhinho do chá bóia em pé é sinal de boa sorte.

Chapter 4: Nuvens que Cobrem a Lua

Chapter Text

Uchiha Sasuke detestava ser acordado, ainda mais quando quem lhe fazia isso era o sol, porque simplesmente não podia socá-lo como fazia com Naruto, nem dar-lhe uma resposta ríspida e um olhar gelado, como fazia com Sakura. Só abria os olhos, sentava-se na cama e sentia raiva. Através da janela o sol não estava muito alto, apenas o suficiente para alcançar seu quarto no primeiro andar. Naruto ainda deveria estar dormindo, provavelmente.

"Que servo mais atencioso com seu senhor" pensou o moreno ironicamente e levantou-se da cama. Colocou as calças e calçou as sandálias ninja, atou o cinto vermelho à cintura e colocou Kusanagi presa a ele antes de pegar o quimono e as luvas e sair do quarto.

Não encontrou muitas pessoas, apenas duas servas que limpavam o chão quando passou por um corredor, mas não as olhou nem cumprimentou e elas não se importaram de ser ignoradas. Ele saiu para um dos corredores laterais que o levariam ao fundo da mansão e sentiu um cheiro bom de comida vindo da cozinha quando passou por ela em direção ao poço. Içou um balde cheio de água sem dificuldade e, deixando suas coisas ao lado, incluindo sua espada, virou o balde sobre sua cabeça, pescoço e um pouco das costas.

O jardim da mansão era grande e de muito bom gosto. Havia muitas plantas exóticas e as quais os nomes Sasuke não conhecia e caminhos construídos ao redor e entre elas. Rente ao muro mais afastado um carvalho enorme e muito grosso fazia sombra por todo o fundo do jardim e, abaixo dele, um banco de pedra com aparência abandonada, o musgo subia por suas pernas e se estendia pelo assento. Sasuke ouviu passos, fechou os olhos e respirou fundo, de volta com a postura de mercenário.

- Bom dia, Sasuke-san – a voz de Ren veio de trás, mas não surpreendeu Sasuke. Essa era uma façanha difícil de conseguir – Onde está seu servo, Nai?

- Dormindo – respondeu Sasuke vestindo o quimono sem retribuir o cumprimento – Não gosto de ser acordado, então não preciso dele pela manhã.

- Muito generoso da sua parte.

O Uchiha não gostava daquele tom de voz. Nem daquele sorriso velado e nem dos seus olhos amigáveis. Definitivamente, não gostava de nada em Masaru, porque tudo aparentava uma normalidade anormal, algo que passava confiança para qualquer um, mas a última coisa que podia acontecer era confiar naquele homem, naquela voz macia.

Sasuke se virou e Ren tinha Kusanagi nas mãos, olhava para a espada deliciado, como se nunca tivesse visto coisa mais preciosa. Ele segurou-a na altura dos olhos e desembainhou até a metade para ver a lâmina reluzir com a luz do sol da manhã. Fechou-a de novo produzindo um estalido metálico e a estendeu para Sasuke.

- Esta espada é lendária – disse o senhor feudal – Tem muita sorte de possuí-la, Sasuke-san.

O moreno não respondeu, fez um muxoxo e sustentou seu olhar.

- Enviei mensagens a todos os meus aliados, em duas semanas eles estarão aqui e poderemos realizar a última reunião referente aos assuntos com a Vila da Folha – Ren virou-se de costas e começou a andar de volta para dentro da mansão – Por hora, me acompanha no café da manhã?

Sasuke o seguiu como consentimentos e Ren pareceu satisfeito.

Fizeram o mesmo caminho que Sasuke havia feito, mas com Ren na frente eles chegaram a uma sala espaçosa onde uma mesa baixa e comprida estava posicionada sobre o tatame e duas almofadas posicionadas perto dela. Ren ficou na ponta, Sasuke na esquerda.

- Diga-me, Sasuke-san, está de acordo que resolveremos os assuntos referentes à Folha quando meus aliados chegarem, então passemos para o segundo assunto que o trouxe aqui – o senhor feudal apoiou os cotovelos na mesa e o queixo sobre as mãos, encarou Sasuke – Minhas gueixas.

- É uma arte que me interessa – Uchiha respondeu simplesmente, retribuindo seu olhar. Normalmente, em conversas com esse tipo de pessoa, nesses tipos de transações, o contato visual é importante. Desviar os olhos é puro sinal de medo e fraqueza. Qualidades que Uchiha Sasuke se orgulhava ao dizer não possuir.

- Consegui uma nova gueixa ontem, lembra-se? Aquela mulher que veio me dizer isso durante nossa conversa é a matriarca daokiado feudo, Hae – um criado entrou e mais outro atrás dele, então Naruto. Todos os três carregando bandejas com o café da manhã. Nenhum dos dois, Ren e Sasuke, olharam para nenhum deles – Vou averiguar se ela é boa amanhã e, se for, direi a Hae para colocar seumizuagea venda para meus aliados daqui duas semanas, assim também poderá dar um lance, Sasuke-san.

Silêncio.

- Quero que as pessoas que se colocam ao meu lado recebam somente o melhor – foi a última sentença de Masaru antes de começarem a tomar o café da manhã.

- Hinata – Sakura abriu devagar a porta de correr do quarto de Hinata onde a kunoichi estava ajoelhada a um canto e guardou rapidamente as armas ninja que estava arrumando escondidas entre suas coisas – Desculpe, não queria te assustar.

- Não, tudo bem – a morena lhe sorriu – Algum problema, Sakura-chan?

- Nenhum, só vim perguntar se você quer que eu te espere, sabe, hoje à noite? – a rósea chegara muito perto de Hinata e sussurrava as palavras. Descobrira muito rápido que ali as paredes realmente podiam ter ouvidos.

- Não, você pode ir primeiro – respondeu a Hyuuga – Talvez seja mais difícil para eu sair daqui, se pelo menos você for, poderá informar a Naruto-kun e Sasuke-san da situação.

- Certo – Sakura se preparou para sair, mas antes disso voltou-se para Hinata com os olhos esmeraldinos preocupados – Você está nervosa?

- Oh, você soube – a morena desviou os olhos para as mãos quase desaparecidas sobre a manga comprida do quimono daokiaque okaa-san lhe dera, na barra vermelha da manga caiam pétalas rosadas de cerejeira, o símbolo do feudo. Hinata detestou aquele quimono.

- Sim, as outras criadas me disseram que dançar particularmente para Masaru Ren é quase um ritual de aceitação aqui – Hinata assentiu, ainda sem olhar para a Haruno – Você vai se sair bem, Hinata-chan. Eu nunca te vi dançando de fato, mas deve ser incrível.

A moça ruborizou e sorriu de volta em agradecimento, mas não compartilhou com Sakura sua opinião deveras oposta ao que dissera a rósea. Sakura saiu de fininho, assim como entrou, e Hinata voltou a arrumar suas coisas. O quarto que recebera era um dos menores, apenas grande o suficiente para caber umfutónaberto e uma penteadeira baixa com espelho onde ficava o carvão, o pó de arroz e a tintura carmim para os lábios. Mas Hinata não esperava nada melhor para uma recém chegada. Na verdade, esperava até bem menos que aquilo, algo como um cubículo compartilhado com outras gueixas ou mesmo um quarto de cerva, mas se fosse assim as gueixas daquele feudo não seriam tão prestigiadas por sua magnitude. Sua janela redonda não era muito grande, porém, tinha uma boa vista, a linda paisagem do jardim dos fundos da mansão do senhor feudal.

As noites no feudo das gueixas famosas podiam ser bem frias, especialmente quando o céu ficava tão cheio de nuvens a ponto de cobrir a lua e só haver sombras e escuridão e neblina. Não havia vento, então as folhas das árvores estavam silenciosas e quietas, de acordo com os ninjas que precisavam de toda a sutileza que seu trabalho exigia para se encontrarem naquela noite. Os animais na floresta ficaram em suas tocas, escondidos por causa da noite sem lua.

Okaa-san havia seqüestrado Hinata por todo o dia falando-lhe e dando avisos e ordens do que ela deveria, poderia fazer ou não na casa de chá, quer quando estivesse atendendo a um cliente, quer quando chegasse à hora dela ser leiloada. A morena Hyuuga ouvia tudo atentamente e também tentava não notar os olhares terríveis que as outras gueixas lançavam-lhe. Aparentemente nenhuma delas iria ser sua "irmã mais velha", aquela que lhe ensinaria e guiaria por aqueles caminhos traiçoeiros e tortuosos dais quais ela queria escapar o quanto antes. Também ficava atenta sempre que okaa-san falava qualquer coisa sobre Masaru Ren e sobre os homens que ele convidava para vir ao feudo e, conseqüentemente, a casa de chá, mas okaa-san não era muito fácil de arrancar informações por ser uma mulher que já há muitos anos acostumada a manter segredos.

Sakura lhe dissera que, logo depois que terminasse de distribuir a água para as gueixas que não iam trabalhar naquela noite se lavarem antes de dormir, ela iria sair, já era pouco mais de onze horas. Hinata assentiu, mas não disse nada. Sua saída, com todas aquelas gueixas curiosas por ali, poderia ser um pouco mais difícil. Esperou em silêncio deitada em seufutóne levantou-se assim que a última chama, aquela que fica perto da escada, foi assoprada. Abriu a janela e olhou por ela a ruela mal iluminada entre a casa de chá e a mansão feudal, pensou de novo se conseguiria passar, então segurou com as duas mãos no batente acima dela e impulsionou suas pernas para fora. Soltou suas mãos e se preparou para a queda, mas avistou uma sombra embaixo de si. Deveria ser um guarda ou um cidadão atrasado para chegar em casa.

"Não dá pra desviar agora" pensou, aflita. Fechou os olhos e deixou-se cair.

- Peguei você! – exclamou a figura embaixo e Hinata sentiu braços a fecharem perto de um corpo forte o suficiente para carregá-la. Abriu os olhos para encontrar um Naruto moreno sorrindo-lhe – Que perigo fazer isso, Hinata-chan, dattebayo.

- O-obrigada, Naruto-kun – a garota corou e sorriu ao mesmo tempo. Mexeu-se incômoda até o loiro perceber que deveria colocá-la no chão – Não havia ninguém aqui embaixo quando eu olhei.

- Desculpa, eu te atrapalhei – ele coçou a parte de trás da cabeça e seus olhos foram juntos para baixo.

- Não... Não, Naruto-kun... – Hinata espalmou as mãos para deixar ainda mais enfática sua negativa, mas Naruto não ligou para o assunto.

- Já é quase meia-noite, vamos indo? – ele chamou, a kunoichi assentiu e eles começaram a correr em surdina até um dos muros mais afastados, onde Naruto disse ter observado e que não ia quase ninguém, especialmente durante a noite. Quase toparam com um guarda em uma esquina, conseguiram desviar antes que a luz da lanterna a óleo dele os visse.

O Uzumaki insistiu e ajudou Hinata a pular o muro, ele veio atrás. Na floresta eles mantiveram a mesma discrição que usaram dentro do feudo, assim se houvessem guardas fazendo rondas por ali, também não seriam pegos. Ou Hinata simplesmente podia desacordá-los com o Jyuuken. Aproximaram-se do local de encontro, mas antes de avistarem a pequena clareira, Naruto imitou os três pios de coruja e o barulho de sapo, deram alguns passos a frente e nenhuma kunai foi lançada em direção aos olhos dos dois, então estava tudo bem. Desenroscaram-se de umas moitas espinhentas e entraram na clareira onde os olhos de Sakura e Sasuke os encarava.

- Oi, Sakura-chan! – exclamou Naruto e aproximou-se da amiga.

- Naruto, porque vocês demoraram? – a rósea perguntou.

- Encontramos um guarda e fizemos um desvio, dattebayo.

Hinata cumprimentou com um discreto 'boa noite' a qual foi respondido por Sakura, mas captado indiferentemente por Sasuke.

- Relatem – foi à única palavra dita pelo líder olhando para Sakura.

- Nossa entrada no feudo e naokiase deu sem problemas. Hinata foi escolhida como gueixa, eu não. Estou trabalhando lá como criada – então os olhos de Sakura, até aquele momento tão calmos, ficaram praticamente em chamas e ela apertou os punhos na altura do rosto – Aquela Hae idiota disse que eu não sou encorpada!

- Ren não causou transtornos com a minha entrada no seu círculo de alianças e já enviou cartas para os outros contatos. As insinuações que eu tenho feito sobre os assuntos dele ser a destruição da Folha têm sido recebidos, mas ele não fala muito comigo sobre isso. Ele não confia em mim – começou Sasuke, uma das mãos flexionada ao lado do corpo, apoiada em seu quadril – Em duas semanas os outros aliados chegarão.

O moreno preferiu não dizer o que Masaru Ren queria fazer com a nova gueixa que a mulher da casa de chá tinha lhe dito que chegara. Encarou firmemente os olhos de Hinata até ela ficar desconfortável e desviar os olhos. Naruto não gostou muito daquela informação.

- Eu vou ter que dormir naquelefutónfedido por mais duas semanas, teme?

- Não reclame – respondeu o moreno.

- Você diz isso porque a sua cama é macia e não cheira a rato morto.

Sakura e Hinata deram um passo discreto para longe do loiro.

- Mais alguma coisa? – perguntou Sasuke querendo finalizar com aquela reunião. Os outros três ninjas balançaram as cabeças em negativa.

- Como você vai enviar as informações para Tsunade-baa-chan? Já tá provado que esse Ren quer atacar a Vila, dattebayo.

- Vou mandar uma serpente até ela, mas quero saber quem são os aliados dele, assim não corremos o risco de outra pessoa continuar os planos de Masaru.

- Você pensa em tudo, Sasuke-kun!

A reunião se findou ali, não havia mais pontos cruciais a se discutir, porque em dois dias não há como se reunir muitas informações, as pessoas locais não costumam ir abrindo a boca e contando coisas para recém-chegados como eles. Naruto abriu umas moitas esperando Sakura e Hinata passarem, Sasuke não se moveu.

- Não vai voltar, teme?

- Vãos vocês na frente e quero que você também fique, Hinata – a morena se virou olhando-o sem entender – Preciso conversar uma coisa com você.

Naruto e Sakura se entreolharam desconfiados, mas não abriram a boca para contrariar a decisão do líder da missão. Despediram-se e deixaram Hinata e Sasuke na clareira. A Hyuuga não encarou Sasuke e nem ele fazia questão de ter os olhos perolados sobre si. Olhava para cima, para nuvens encobrindo a lua.

- Eu nunca trabalhei em missões com você antes, Hinata, então eu precisava de algumas informações sobre você antes de começarmos. Roubei o seu histórico do arquivo da Hokage.

Hinata arregalou levemente os olhos. Ele tinha feitoo quê?

O Uzumaki e a rósea andavam devagar de volta ao feudo. Naruto ia à frente e Sakura, mais afastada, não parava de olhar por cima do ombro esperando que a conversa entre Hinata e Sasuke já tivesse terminado. Não havia gostado nada daquilo.

- Sasuke-kun te disse alguma coisa sobre precisar conversar com a Hinata, Naruto?

- Não, mas deve ser algo sobre a missão, dattebayo.

- Sim, mas porque ele não pode falar pra gente também?

- Porque deve ser algo secreto para a Hinata-chan.

- Não gosto disso – a nin-médica finalizou e cruzou os braços, as sobrancelhas franzidas.

- Você está sendo boba, Sakura-chan – Sakura parou. A voz de Naruto estava dura quando disse isso e ele não se virou – Hinata-chan é a última pessoa da qual você pode sentir ciúme, dattebayo.

Ele voltou a caminhar e, assim como as palavras dele, a Haruno realmente sentiu-se boba. Olhou para trás uma última vez e continuou seu caminho.

- Isso é contra a lei! – ela exclamou meio aflita.

O Uchiha não fez nenhuma menção de estar abalado, continuou olhando para cima esperando que o céu, a qualquer momento, pudesse cair.

- Você tem inúmeras missões incompletas no seu histórico, missões de nível B para cima.

- Missões incompletas?

- Inimigos poupados.

- Você considera uma missão completa quando aniquila todos os seus inimigos? – ela não o esperou responder, nem esperou para cogitar se ele o faria. Aquela forma de pensar a enojou. Sua voz musicada, mesmo quando ela queria gritar, não se elevava muito, apenas o suficiente para Sasuke perceber a mudança no tom – Você não tem piedade?

- Piedade é a última palavra que deve existir no vocabulário de um ninja.

- Mas esses inimigos... Elespodemmudar, Sasuke-san! – o tom dela passou do acusatório para algo mais suave, condescendente – Você mudou.

Ele se calou, sem saber o que responder perante aquilo. Abandonou o olhar para o céu e encarou a moça. Ela o olhava cravando seus olhos perolados nele como nunca esperou que Hyuuga Hinata pudesse fazer, quase como ele mesmo quando queria pressionar alguém. A kunoichi, porém, não queria pressioná-lo, apesar fazê-lo perceber a semelhança das situações.

- Euacreditoque as pessoas podem mudar, sim, Sasuke-san. Matar todos os seus inimigos não te transforma em um bom shinobi, apenas em um assassino.

- Ninjas são assassinos pagos para isso – a garganta de Hinata deu um nó quando ela pensou em retrucar essa última sentença, mas não disse nada. Mudar o pensamento de outra pessoa não era sua função – Depois a sua ficha estagnou e não foram adicionadas novas missões, pode explicar isso?

- Não.

- Na área das missões de grupo você apresenta várias falhas. Isso não vai acontecer aqui, sob meu comando, Hyuuga Hinata. Seu erro pode destruir a Vila, esteja ciente – ela balançou a cabeça em afirmação e então sorriu encarando seus próprios pés e não controlou as palavras quando tornou a falar.

- Sasuke-san, você ouviu o que disse? Salvar a Vila da Folha... Isso é muito parecido com Naruto-kun.

O que aquela garota estava insinuando? Que a sua mudança tivera muito a ver com Naruto isso era fato, fora a loiro que o convencera a voltar para a Vila depois de tudo, mas ele tinha mudado tanto assim?

- Minha ficha... Dizia... Mais alguma coisa? - de novo seu tom de voz mudou, era a voz musicada e límpida, com um tom dissimulado de preocupação que Hinata esperava que Sasuke não percebesse. Ele percebeu e estreitou os olhos ao responder, querendo adivinhar o sentido daquela preocupação.

- Não, mais nada.

- Certo, vou me esforçar nesta missão – o peito da Hyuuga inflou quando se encheu de ar aliviado – Mais alguma coisa, Sasuke-san?

Ele negou com a cabeça e, sem dizer nada nem esperar por Hinata, ele desapareceu numa nuvem de fumaça branca que se dissolveu mais rápido que a neblina que engrossava. A moça inspirou fundo a bruma gélida e colocou-se a andar, não para a direção do feudo, para a direção paralela a ele. Pulou para um galho alto e ativou sua linhagem. Verificou os arredores procurando guardas e pessoas indesejadas, depois focou seu destino e saltou para uma árvore mais baixa e outra e outra. Não demorou muito para chegar a uma cascata enorme que caia em um lago irregular a qual o leito, alguns quilômetros depois, passava por dentro do feudo.

Saltou da árvore para o chão e checou mais uma vez a sua volta antes de começar a desatar o quimono daokia. Dobrou-o e colocou embaixo de uma árvore. Retirou a atadura de cima do braço esquerdo e, com um pouco de água, retirou a pintura da cor de sua pele que a ocultava a marca ali. Pisou na água com cuidado e tentou se manter firme mesmo sentindo frio. Posicionou-se no centro do lago e fechou os olhos, concentrou o chakra. Quando os abriu de novo, com sua linhagem ativada, começou seu treino.

Ren admitiu cedo que sentia grande apreço pela companhia de Sasuke, que sentia que poderia confiar nele muito em breve. O Uchiha, porém, com seu jeito reservado e sério, não compartilhava dos mesmos pensamentos e não respondia nada. O senhor feudal chamou Sasuke, logo depois do café, para caminharem pelo seu feudo, queria mostrar ao rapaz toda a prosperidade que conseguira e, o moreno tinha que admitir, era uma prosperidade harmoniosa e arguta. Quando atravessaram, de volta para a mansão, o campo de arroz, uma garota chamou-lhes a atenção.

- Ren-sama? Hae-san pediu para avisar que já está tudo pronto na casa de chá.

- Certo, avise-a que já estou indo, Mizuno-chan – o homem lhe sorriu e muito ruborizada a garota se afastou com uma mesura desajeitada. Voltou-se para Sasuke, então – Preciso resolver uns assuntos na casa de chá, se importa em ficar sozinho ou prefere que eu arranje alguém para lhe fazer companhia, Sasuke-san?

- Vou ficar sozinho.

- Como queira.

Hinata estava em seu quarto. Fez uma careta de dor quando Hae-san puxou seu cabelo com o pente pela terceira vez seguida com muita força, então prendeu com um enfeite prateado e cheio de pequenas ametistas. Não combinavam muito com o quimono lilás que a moça vestia, um dos muitos quimonos daokia, mas as jóias também foram escolhidas por okaa-san. A Hyuuga, quando a matriarca terminou de arrumar seu cabelo, sem conseguir prender a franja farta, começou a passar o pó de arroz na face, sem pressa. Depois o carvão nas sobrancelhas e em volta dos olhos. Por último, o carmim.

- Mostre a Ren-sama o que sabe e fiquei de cabeça baixa, a menos que ele peça para vê-la – Hinata levantou-se e a mulher com olhos de mosca rodou em volta dela checando mínimos detalhes enquanto falava – Não faça gracinhas!

- Sim, okaa-san.

- Bom – finalizou a mulher ajudando Hinata a descer a escada. As suas costas, gueixas abriram as portas de deslizar de seus quartos para espiarem a Hyuuga passar, depois as fecharam com raiva. A novata era mesmo bonita.

Uma das salas fora preparada especialmente para aquela ocasião, o sol que iluminava o corredor vinha das outras salas que estavam sendo limpas. A sala onde Masaru Ren se encontrava estava com as portas fechadas e nelas haviam ninfas de vento desenhadas. Antes de chegarem à porta, Hae pegou duas pedras e chocou-as produzindo faíscas duas vezes as costas de Hinata. Para dar sorte e ela ter uma nova gueixa a lhe trazer dinheiro. Depois, se afastou.

Hyuuga Hinata respirou fundo e viu a cabeleira rosada de Sakura sair de uma das outras salas de chá, uma em que estava limpando e lhe fazer um sinal de jóia. A morena sorriu e encarou a porta tentando ver através dela sem seu Byakugan. Impossível, chamou:

- Co-com licença, Ren-sama?

- Entre – seu coração acelerou e seu estômago esmagou-se em nervosismo. Abriu a porta com ambas as mãos, não encarou o homem sentado ereto no outro extremo, adentrou a sala, voltou a se ajoelhar e fechar a porta, de novo com ambas as mãos em movimentos delicados. Voltou os joelhos para a direção dele e apoiou a ponta dos dedos no chão em uma mesura singela – Como se chama? – mesmo que ele já soubesse, queria ouvir dos lábios dela.

- Hinata.

- Muito prazer em conhecê-la, Hinata – de certa forma, a morena fez uma coisa que não podia: gostou do tom de voz dele, pois não parecia nem um pouco com o tom de voz de alguém que quer destruir sua Vila, sua casa, a vida de seus amigos e entes queridos. A voz dele, na verdade, lhe lembrava uma carícia – Como uma gueixa pode ter um nome tão iluminado?

- Este é... Meu nome de nascença. Nã-não quis trocá-lo.

- Sim, entendo – ele sorriu – É muito bonito.

A Hyuuga corou e fez uma mesura de agradecimento.

- Levante seu rosto e dance para mim, Hinata-chan.

E ela obedeceu.

"- Quando você dançar, Hinata-chan, não pense, apenas sinta. Sinta a maciez da seda acariciando seus braços, sinta o vento produzido pelos leques, sinta os olhos de quem assiste seus movimentos. Dance, somente."

Focou em sua mente as palavras suaves de sua mãe, retirou os leques da cintura e deixou a franja cobrindo seus olhos até estar completamente em pé. Não havia música para que pudesse se guiar, não se importou, tampouco. De seus lábios fechados começou uma melodia cantarolada e Ren-sama sorriu quando ela levantou o queixo e deixou-o ver seus olhos. Os movimentos começaram.

A sala desapareceu e ela estava sobre o lago, o som da cachoeira ao fundo. De seus lábios fechados, a melodia antiga. Havia vento e com seus leques ela devia conduzi-lo para lugar nenhum. Rodou em movimentos controlados e fluídos, ficou com os braços esticados, tacou um leque para a outra mão, bateu no leque e voltou. Rodou novamente e agachou-se, trazendo um leque para frente de seu rosto. Fechou-os com brusquidão ao batê-los nas coxas. Equilibrou um no outro e o que estava em cima abriu sozinho e caiu. Hinata o pegou quase rente ao chão e o fez subir. Deu uma volta em si mesma e o pegou com a mão nas costas. Uma mecha de seus cabelos soltou e caiu sobre a têmpora, a mesma mecha que Neji tinha-lhe segurado antes de parti. Girou nos pés e cometeu o erro que disse milhões de vezes para Sakura tomar cuidado e que, antes disso, sua mãe também lhe dissera milhões de vezes. Tropeçou na barra do quimono e soltou uma exclamação antes de cair, interrompendo a melodia cantarolada. Suas mãos espalmaram no chão com o tombo, os leques caíram mais longe e o prendedor em seus cabelos quicou duas vezes com um som metálico no tatame. Por suas costas, ombros e nas laterais do rosto envergonhado ficou espalhado o contraste negro-azulado.

"Seu erro pode destruir a Vila, esteja ciente" as palavras de Sasuke voltaram.

Seus olhos marejaram quando, a sua frente, Masaru se levantou. As mãos espalmadas no chão fecharam-se em punho e as unhas curtas se cravaram na pele marcando a alvura nas palmas. Não iria chorar, era admitir derrota. Nem conseguiu se levantar e apresentar uma mesura como desculpa apropriada quando o senhor feudal ajoelhou-se a sua frente, pronto para lhe estapear, era o que ela pensava. Não houve tapa, nem reprimenda. Pela terceira vez em pouco tempo o seu queixo foi segurado e levantado. Os olhos verdes e aquosos fixaram-se nos perolados vítreos. O carmim das faces de Hinata foi disfarçado pela maquiagem muito branca, mas ela não pode deixar de ficar nervosa em constatar que a beleza e juventude da foto de Masaru Ren também se faziam presentes na realidade.

- Você se machucou, Hinata-chan? – ela negou com a cabeça – Que bom, agora me deixe ajudá-la.

Mesmo em pé, Hinata não pronunciou palavra nem se moveu. Ele colocou o enfeite de prata e ametistas sobre a palma marcada pelas unhas e fechou os dedos alvos sobre ele. As mãos da primogênita Hyuuga tremiam.

- É uma ótima dançarina, Hinata-chan – ele não cansava de repetir seu nome, de saborear as letras todas – Preciso que Hae-san cuide muito bem de você. Diga-me, posso chamá-la de Princesa da Lua?

- Nã... Não, por favor – seus olhos suplicantes só fizeram o sorriso do homem aumentar. Ele lhe soltou as mãos pequenas que foram se encontrar a frente das pernas. Receber um apelido do homem mais poderoso e o cobiçado naokianão era bom sinal, especialmente se isso fosse causar brigas entre as outras gueixas, coisa que Hinata menos queria.

- Muito bem, então – a kunoichi se ajoelhou e abriu a porta de correr mantendo a reverência até ele se afastar pelo corredor. Hae e seus olhos de mosca esperavam pelo senhor feudal quando ele chegou à porta da frente da casa de chá.

- O que achou, meu senhor?

- Ela é perfeita, cuide dela, Hae, vou querer essa.

- Sim, Ren-sama – sorriu a mulher.

Chapter 5: Vinte Açoitadas em Você e em Mim

Chapter Text

- Maldição! – gritou um dos homens depois de espirrar pela quarta vez – Que lugar frio!

Seus capangas nada disseram. O líder continuou andando depois de apertar um pouco mais a capa contra o corpo. Os guardas riram discretamente. Para eles, que já estavam acostumados, aquelas noites frias de inverno não era absolutamente um problema. Para aqueles sulistas, era. Mas eles eram convidados de Ren-sama, não podiam ter a liberdade de fazer piadas e brincadeiras, então mantinham silêncio.

A neblina de sempre se espalhava pelo feudo. O frio parecia estar junto com ela. Por causa do rio que passava na cidade as casas mais próximas a ele sempre eram mais afetadas pela friagem, por isso os moradores dali tinham que colocar mais lenha no fogareiro para se manterem aquecidos durante toda a noite. Ali não era raro casas pegarem fogo. Os homens de Masaru Ren andavam por entre a névoa completamente familiarizados com o lugar, já os estranhos muitas vezes se perdiam e acabavam pegos pelos guardas.

- Esse frio vai durar quanto tempo? – perguntou o líder para os guardas.

- Todo o tempo que passarem aqui. Talvez neve em alguns dias – respondeu um dos guardas.

- Merda! – o homem voltara a espirrar.

- Que bom que veio rápido, Chiren – Ren esperava por eles na escada de sua mansão. Tinha um sorriso no rosto e seus olhos aquosos brilhavam. Aproximou-se do homem que era o líder dos escoltados e fez-lhe uma reverência que foi retribuída.

- Estou a seu dispor, Ren-sama – respondeu o homem. Chiren tinha ombros largos e era um homem muito grande. Seus olhos escuros não tinham uma cor definida, uma estranha cicatriz em forma de pena marcava de sua garganta até o queixo – Mas detesto todo esse frio.

- Então vamos nos aquecer – Ren apontou para a casa, como um bom anfitrião – Entre, por favor.

O líder entrou e os seus homens foram conduzidos pelos guardas até a casa de chá. Eles poderiam desfrutar da companhia de algumas gueixas antes de irem para os alojamentos destinados a eles. Não eram muitos, apenas uma pequena escolta para a viajem de seu líder ao encontro de Masaru Ren.

- Vamos tomar chá, quero que me conte como vão as coisas.

- Perfeitamente, Ren-sama – o homem o seguia, mas ficou sério e suas sobrancelhas franziram-se de desagrado – Ren-sama, posso perguntar uma coisa?

- Claro, Chiren.

- É verdade que ele está aqui? Aquele Uchiha Sasuke está do seu lado?

- Sim, é verdade – Ren sorriu. Estava satisfeito pelos boatos estarem se espelhando. Gostaria muito de ver a cara do heroi da Vila Oculta da Folha, Uzumaki Naruto, quando soubesse que Uchiha Sasuke iria atacar a Vila que ele lutava para proteger – Ele já se retirou, amanhã você pode conhecê-lo.

- Ele é um demônio, Ren-sama! – alertou o homem.

- Ah, sim, realmente espero que seja.

"Onde que essa garota se enfiou?" pensou Sasuke pulando para outra árvore. Infelizmente, num momento de descuido, perdera Hinata de vista.

No chão a névoa cobria o solo e seus pés ficavam perdidos em meio a ela, por isso ele fora para cima, assim não teria perigo de não ver alguma armadilha. Não que fosse difícil enxergar qualquer coisa com olhos como os dele. Seguira Hinata para fora do feudo por pura curiosidade, tão intensa que se espalhava por seu corpo através de seu sangue que pareciam em chamas ao passar por suas veias.

O som da água corrente ficava cada vez mais forte e Sasuke imaginava estar chegando a alguma cascata do rio que passa pelo feudo de Masaru Ren. Pulou para mais um árvore e não notou o quimono dobrado abandonado entre suas raízes grossas, estava ocupado olhando para o lago onde a lua reluzia na água e na pele de Hinata. Os olhos de Sasuke não conseguiam se desviar dela, de seus movimentos parecidos com uma dança que o Uchiha não sabia definir qual era.

"O que ela está fazendo?" pensava ele, mas a pergunta foi morrendo em sua mente. Daquela distância e com a pouca iluminação que a uma lua crescente proporcionava Sasuke só conseguia ver os contornos do corpo dela e naquele momento esquecera-se completamente que o Sharingan existia e ele o possuía.

Hinata chegara à clareira como todas as noites. Retirou o quimono, dobrou-o e colocou sob a árvore depois de ver com o Byakugan se não tinha ninguém por perto. Não vira Sasuke por um triz, ele tinha se desviado um pouco do caminho quando a perdera de vista. Com cuidado retirou a bandagem de cima do braço esquerdo deixando a pele à mostra. Respirou fundo sentindo a boca de seu estômago protestar quanto a entrar na água com aquele frio, mas Hinata ignorou seu corpo e prosseguiu um passo depois do outro para o centro do lago. A água fria a fez se arrepiar inteira, então respirou fundo de novo e colocou-se em posição começando a liberar uma pequena quantidade de chakra e iniciando os movimentos do seu treinamento.

Sasuke podia sentir a emanação de chakra que vinha dela. Era pouca, mas o suficiente para alguém que estava perto, assim como ele, sentir. Desceu da árvore para o chão pousando bem ao lado das roupas de Hinata. Concentrada como estava ela não tinha percebido sua presença. Sentia a curiosidade em suas veias quente como estava começar a se aquecer anda mais. Mas ele não podia ignorar a situação, não podia ignorar a marca no braço esquerdo da Hyuuga. Tinha que se mostrar e tirar algumas satisfações com a moça e o faria se seu corpo se movesse. O seu par ônix observava os movimentos dela sem se desviarem e, por mais que tentasse, não conseguia prever o que ela faria em seguida depois de um giro. Sua imaginação entrou em ação e começou a passar imagens que ele não conseguia – e nem sabia se queria – impedir. Quando uma pulsação fraca começou entre suas pernas ele se mexeu.

Saiu de perto da árvore, das sombras, e colocou-se visível. Cruzou os braços e com o movimentou pareceu chamar a atenção de Hinata para alguma coisa que estava na margem. A morena parou e focou seus olhos nos olhos de Sasuke. Sentiu-se gelar, mesmo com o corpo quente e começando a ficar coberto de suor pelos movimentos incessantes. Arfava, seu corpo paralisou ao ver Sasuke parado ali, os olhos dele não saiam dos dela e ela acreditava ser isto que a impedia de se mexer. Os braços caíram dos lados de seu corpo, suas pernas começaram a tremer levemente. Estava nua no meio de um lago tendo os olhos de Uchiha Sasuke pregados nela, seu segredo revelado, mas não era isso que mais a deixava surpresa e meio assustada. Era aquele desejo que via no brilho dos ônix, um desejo que por algum motivo não estava incomodada dele sentir por ela.

Com a voz rouca Sasuke perguntou:

- Você tem alguma coisa para me contar, Hinata?

"O que aquela baratinha está fazendo no meio da floresta?" era a pergunta que Tsubaki estava se fazendo enquanto entrava na floresta atrás de Hinata. Vira-a saindo daokiapor acaso, mas não perderia a oportunidade de arruinar a "nova favorita de Ren-sama", como ela estava sendo chamada.

Antes, há uns três anos, Tsubaki era a favorita de Ren-sama, era ela quem ele gostava de ver dançar, de ter sua companhia fora dos horários de funcionamento daokia, era com ela que gostava de se deitar para acariciar seu corpo, para fazer coisas de homem e mulher. Até que ele enjoou, até que disse que ela tinha perdido a preciosidade que ele apreciava e que podia continuar sendo uma gueixa como as outras, se quisesse. Ela ficara no feudo porque admirava Ren-sama e tentava, a todo o tempo, reconquistar sua confiança, sua apreciação. Agora aquela baratinha tinha chamado toda a atenção de Ren-sama para si mesma deixando Tsubaki sem nada, sem nem mesmo um olhar de esguelha.

Quando avistou o lago ficou escondida atrás de um arbusto. Lá no meio Hinata estava em pé executando uma espécie de dança. Tsubaki já vira ninjas ficarem sobre a água sem afundarem, então o que Hinata fazia não lhe era tão estranho. De repente ela viu alguém sair das sombras na margem do rio, alguns metros afastado dela. Encolheu-se ainda mais e reconheceu quem era. Uchiha Sasuke, o mercenário possuidor do Sharingan e convidado de Ren-sama. Ele ficou olhando para Hinata até que ela parou e também o encarou. Ele disse alguma coisa, mas Tsubaki não ouviu. Abriu um sorriso malicioso e maligno que somente se alargou quando o Uchiha descruzou os braços e pisou na água começando a andar em direção a Hinata.

Ele começou a andar na direção da morena, seus olhos não desviaram dos dela, não queria deixá-la ainda mais constrangida. Não adiantava, porém, ele já havia notado os seios fartos, a cintura fina que terminava numa barriga lisinha e quadris proporcionais ao busto, as pernas não se juntavam no meio das virilhas indicando coxas finas em que ele adoraria passar as mãos, assim como ter seus seios na boca. Enquanto andava tentou ao máximo não pensar em possuí-la, mas as imagens vinham sem conseguir detê-las. Conseguia ver, apesar da fraca luz da lua, o rubor intenso das maçãs de seu rosto. Estava a centímetros dela quando suas pernas resolveram parar. Hinata não tinha feito nenhum movimento para esconder sua nudez, pois não tinha controle sobre seus membros. Parecia que seus braços haviam virado gelatina, suas pernas tremiam como bambu exposto a uma ventania e uma dor leve que não achou nem um pouco ruim latejava em sua intimidade.

Quando Sasuke se moveu deixou o quimono branco que vestia escorregar por seus ombros. O vento balançou os cabelos negros de ambos quando passou fazendo Hinata se arrepiar de novo, mas continuar imóvel observando os movimentos do Uchiha de retirar o quimono de dentro da calça e colocar sobre seus ombros pequenos, envolvendo-a. O tecido era leve, quente e tinha o cheiro amadeirado dele – cheiro de madeira de dojo com maçã verde -, descia até suas coxas. Hinata levantou os braços e agarrou a abertura do quimono pressionando uma por cima da outra para esconder seu corpo. Desviou os olhos dos dele para olhar seus pés, envergonhada.

A mão de Sasuke subiu para seu cabelo e sua intimidade latejou com mais força. Queria que ele a tocasse, mais que qualquer um antes, mais que Naruto, queria que Sasuke a tocasse, queria os olhos dele brilhando de desejo para si. E eles estavam. Quando a mão de Sasuke passou de seu cabelo para seu rosto levantou de novo a cabeça e encontrou os olhos ônix. Uma nuvenzinha de fumaça saia dos lábios entreabertos do Uchiha. Curiosidade, Sasuke insistia em dizer para si mesmo enquanto seus dedos percorriam a pele dela. Não podia explicar os choques deliciosos que percorriam seus dedos, seu braço e espalhavam-se por seu corpo, mas tinha que achar alguma desculpa para isso, para o desejo que sentiu ao vê-la, para o ciúme quase doentio que sentiu ao pensar que poderia ter sido outra pessoa a vê-la naquele estado, a inveja que sentiu de Naruto por um dia tê-la tocado e desperdiçado.

Seus dedos deslizaram pelo pescoço dela levando alguns fios de cabelo no percurso. Infiltrou a mão pelo quimono recebendo as cargas elétricas enquanto descia pelo ombro de Hinata até o seu braço esquerdo. Agarrou com a mão inteira e deixou a pequena tatuagem negra exposta.

- Porque não nos disse que é uma ninja ANBU, Hinata? – perguntou Sasuke, a voz rouca saia baixa como a voz de adagas de gelo que usava para ameaçar.

- N-não é... – ela engoliu para limpar a garganta e mordeu o lábio inferior antes de continuar – Permitido.

- Se outra pessoa tivesse te visto poderia colocar a missão em risco – ele balbuciou, os olhos se estreitando conforme os seus lábios finos se aproximavam mais dela. Tinha que levantar a cabeça para ver seus olhos e a fumaça que saia de sua boca batia quente em seu queixo - Quem mais sabe sobre essa sua patente?

- Apenas... Tsunade-sama e poucos outros ANBUs.

- Você deixou alguém ver essa tatuagem?

- Não.

- Tem certeza?

- Eu colo um adesivo de camuflagem por cima dela, mas ele sai na água, então tenho usado bandagens para cobri-la – somente neste instante que os olhos de Hinata se desviaram um pouco dos olhos dele para olhar de esguelha para o montinho de suas roupas sob as raízes da árvore, mas logo voltou para o rosto dele agora tão próximo ao seu que podia notar os poros de Sasuke – Por favor, Sasuke-san, eu peço que não diga nada sobre mim para mais ninguém.

Ele acenou com a cabeça e olhou de novo seu braço.

- Isso explica sua ficha de missões.

- Depois de me tornar uma kunoichi da ANBU, as missões são arquivadas em outro lugar onde ninguém pode encontrar a menos que saiba onde procurar – ela respondeu a pergunta que ele não fez.

Ele ficou olhando para ela, para os seus lábios se movendo, para ser exato. Curioso. De certa forma podia entender a fascinação que Ren tinha demonstrado por Hinata. Ela era uma pessoa cheia de surpresas, coisas que jamais poderia ter imaginado. Sorriu por dentro, porque as pessoas ainda achavam que Naruto era um ninja imprevisível.

- Como é possível? – ela disse, de cabeça baixa. O seu braço ainda era segurado por Sasuke quando voltou a olhar para seus olhos. Suas pérolas estavam mescladas com sentimentos de desapontamento, vergonha e zanga. Sasuke ficou esperando-a continuar sem entender. Ela soltou seu braço das mãos dele e se afastou dois passos com o quimono ainda caído deixando seus ombros expostos – "Como é possível que eu tenha me tornado uma ANBU?", é isso que está pensando.

- Não.

Ela olhou-o por algum tempo muito profundamente. Mentira ou dissimulação foi a última coisa que encontrou na fala do Uchiha.

- Eu não tenho o direito que julgar você, da mesma forma como as pessoas não têm o direito de me julgar.

"Traidor" foi o que Hinata pensou "É assim que as pessoas o chamam pelas costas".

Mesmo tendo voltado, se redimido e recebido o perdão da Hokage, as pessoas não eram tão facilmente coagidas. Sasuke havia fugido da Vila, se aliado a um traidor procurado e a uma organização mercenária, além de muitos outros crimes. É difícil para as pessoas voltarem a acreditar em alguém com esse passado.

- Se vista e volte para o feudo – ele disse e deu-lhe as costas. Antes que pudesse começar a andar a mão de Hinata alcançou seu ombro. Mais cargas elétricas, mais sensação de fogo nas veias.

- Obrigada – ela disse, contudo Sasuke não viu seu sorriso.

- Porque está me agradecendo? – sua pergunta não havia sentido, pois já sabia a resposta, apenas queria ouvir aquilo dos lábios dela.

- Também acredito em você, Sasuke – sem sufixos de respeito ou de carinho, sem adjetivos encorajadores e palavras efêmeras que as pessoas acreditavam que ele queria ouvir.

O que Hinata dizia era apenas a verdade de ambos que ela tivera a coragem de verbalizar, enquanto ele apenas disse:

- Certifique-se realmente que não haja ninguém por perto enquanto estiver treinando - era aquilo que queria dizer? Não, mas não conseguiria dizer outra coisa se tentasse. Não iria dizer palavras doces e ternas, nem rudes e cortantes. Queria dizer-lhe a mesma verdade que ela lhe dissera, mas não sabia como fazê-lo direito.

O Uchiha começou a se afastar com dificuldade assim que ela largou seu ombro – seu desejo era voltar e tê-la - e sumiu por entre a neblina e as árvores de volta para o feudo. Ficou mirando suas costas até se lembrar que estava envolvida com o quimono dele. Corou mais naquele momento do que durante todo o episódio. Sasuke a havia visto nua, a havia coberto e, ela sabia, ela percebera, ele a havia desejado. Com esse pensamento quis sorrir, mas não o fez. Não era certo que ela se sentisse feliz por isso. Sakura. Havia Sakura que o amava, que dizia amá-lo e não podia trair a confiança que a rósea depositava em si. E o que era ainda pior que a fez sentir-me mal, suja, com a bile subindo a garganta é que ela havia gostado de ter os olhos dele sobre si, porque – talvez fosse obra da sua imaginação, provavelmente era – notara outra luminosidade no semblante dele.

Deixou esses pensamentos de lado, devia estar ficando louca e delirando. Podia ter pegado uma gripe ao insistir em treinar mesmo com o frio intenso que se fazia nas noites do feudo de Masaru Ren. Uchiha Sasuke era o tipo de homem que não olharia para o seu tipo de mulher, porque até aquela noite ele também, como os outros, acreditava que ela não passava de uma kunoichi fraca. Uma tatuagem o fizera mudar de idéia e a última coisa que queria era ter que ficar mostrando seu braço esquerdo para as pessoas acreditarem que ela podia fazer as coisas sozinha. Passou a bandagem pelo braço, vestiu suas roupas e dobrou o quimono de Sasuke, devolveria a ele assim que possível. Alisou o pequeno símbolo do Clã Uchiha nas costas e, sem conseguir evitar, levou o tecido a face sentindo seu cheiro junto com o dele ali. Poderia lavá-lo, mas não haveria como fazê-lo e evitar perguntas. Ignorou toda a situação e resolveu esquecer o que se passara ali.

Já era quase de manhã. A neblina ia embora conforme o sol se levantada por trás das casas do feudo. O moreno Uchiha estava sentado na janela de seu quarto na mansão do senhor feudal, não conseguira dormir aquela noite. Um motivo era Naruto estar roncando em sua cama, o outro era seus pensamentos que não conseguia, de jeito algum, desviar de Hinata.

De um jeito tão repentino aquela garota conseguira impressioná-lo. Uma ninja forte como ela que não era reconhecida, que nãoqueriaser reconhecida, absolutamente, ou teria ficado feliz e contado ao menos para seus familiares que era uma ninja da ANBU. Conhecia a fama de Hyuuga Hiashi e o que fazia sua filha mais velha passar. Ela poderia ter recebido as boas graças e o orgulho do pai, mas não o fizera. E sabia por quê. Ela não fora nunca muito reconhecida por ser apenas ela, então porque deveria ser reconhecida depois de se tornar uma ANBU?

"Alguém para acreditar nela pelo que é" pensou Sasuke. Era exatamente o pensamento que ele tinha, mas o Uchiha também tinha outra coisa.

Olhou para a cama onde o loiro dormia, a peruca castanha meio torta em seu sono agitado. Sorriu de canto e fechou os olhos. Aquele ali – e Sakura e Kakashi – nunca tinham desistido de acreditar nele. Com Hinata as coisas pareciam ser um pouco diferentes.

"É bom tomar conta dela, Naruto!"foram às palavras de Kiba e mesmo com o que Shino retrucou a ele, parecia que o Aburame também não estava totalmente convencido do que dizia"O melhor jeito de protegê-la é confiar nela".Não, as palavras dele também tinham preocupação com ela não conseguir sozinha.

O mais irônico é que antes de qualquer um de seus companheiros, a pessoa que tinha confiado nela cegamente, sem nem a conhecer direito, fora o inimigo.

"Porque euacreditoque há mais nela do que uma queda pode mostrar, Sasuke-san".

As palavras de Masaru Ren não poderiam ser mais verdadeiras e ele havia sido cético quanto a elas. Como fora estúpido!

Uma batida na porta o impediu de bater com sua cabeça na parede como planejava fazer e desceu do beiral da janela. Pegou um quimono negro que estava por ali e o vestiu de improviso.

- Sasuke-san, Ren-sama o espera para o café da manhã – e, de novo, quando ele abriu a porta só teve tempo de ver a sombra se afastando na esquina do corredor.

Andou pelo labirinto da mansão até encontrar o salão principal. Ren e um homem que não conhecia estavam conversando por ali, mas pararam quando ele entrou e se aproximou. Ren deu um sorriso e serviu de perfeito anfitrião:

- Sasuke-san, deixe-me apresentá-lo Chiren, um dos meus aliados – disse e se voltou para o homem – Chiren, este é Uchiha Sasuke-san.

- Uchiha Sasuke, o Vingador do Clã Uchiha – Chiren sorria de canto, meio desdenhoso. O olhar de Sasuke não se abalou nem um cílio – Ouvi muito sobre você.

- E eu nunca ouvi nada sobre você – Sasuke respondeu para ver os punhos do homem se apertar numa raiva mal contida. Jurava poder ter ouvido seus dentes rangerem.

- Vamos para o café da manhã – mas uma criada surgiu correndo pelo corredor – Mizuno, o que aconteceu?

- Ren-sama, por favor, venha rápido! – ela exclamou – Tsubaki-san está acusando Hinata-san de ter se deixado ver por um homem!

Naquele momento todo o interior de Sasuke pareceu se desfazer.

Sonhou vários sonhos confusos a noite toda em que em muitos deles havia Sasuke ou alguém muito parecido com ele. Um ser parecido com Sasuke que a tocava como ninguém jamais havia feito. Agora escutava passos e vozes pelos corredores. Abriu os olhos e todos os sonhos de que se lembrava pareceram ir embora para um lugar de sua mente que não conseguia alcançar consciente. Sentou-se, arrumou seufutóne suas roupas. Pegou o quimono de Sasuke e o escondeu com cuidado em uma taboa solta do teto perto da janela. Teria que devolvê-lo em outro momento. Quando estava prestes a abrir a porta e ir tomar seu café da manhã, ela se escancarou. Hinata se assustou ao ver Hae-san com um olhar tão terrível, atrás dela estava Tsubaki-san, uma das gueixas daokiae, mais afastada, vinha Sakura. Ela olhou confusa para todos os rostos ali e viu mais e mais moças colocarem os pescoços para fora das portas se seus quartos para observarem a cena.

- Hinata, venha comigo – ordenou Hae puxando-a pelo braço, apertando-o a ponto de machucar.

- Qu-Qual é o problema, Hae-san? – a morena perguntou meio aflita.

- Quieta! – rosnou a mulher e continuou puxando-a até chegaram ao pátio com a cerejeira retorcida. A okaa-san tacou Hinata em uma faixa mais larga de terra e a moça caiu sobre as pernas, as mãos se atolando na terra – Quero que me diga a verdade, garota, não ouse mentir!

- O q-que...?

- Você se encontrou com um homem ontem à noite? – Hinata arregalou os olhos, Hae-san e seus olhos de mosca a inquiriam com força – Responda!

Ela não sabia o que fazer. Apertou a terra fofa que estava sob seus dedos e sentiu-se sozinha e fraca, sem chakra, sem Byakugan, no meio de um vazio que se fechava sobre ela como uma jaula de vidro. Ali, através do vidro, ela viu os olhos de Sakura e também a face de Tsubaki, risonha, atrás dos olhos de mosca de Hae-san. Imediatamente ela soube quem a tinha visto.

- Responda, garota! – gritou Hae com a raiva emanando dela.

- Hae – foi a voz ouvida imperiosa impondo-se sobre o grito da matriarca daokiaque a fez empalidecer e virar-se – O que está acontecendo?

- Ren-sama – balbuciou a mulher encarando os aquosos olhos verdes do senhor feudal ladeado por um homem que Hinata não conhecia e Sasuke. Ele tinha os olhos duros, mas que não saiam de cima dela – Tsubaki diz que viu Hinata com um homem.

- Eu a vi no lago, Ren-sama! – Tsubaki se adiantou para ele – Eu a vi nua e ele chegou até a tocá-la. Ficou olhando para o seu corpo como um lobo faminto e ela não fez nada!

Os olhos do senhor feudal estudaram a gueixa com cuidado tentando encontrar mentira em suas palavras, mas isso não aconteceu. Ren olhou para Hinata e depois para outra gueixa entre tantas delas e empregadas que tinham se reunido por ali para assistir ao que aconteceria a moça.

- Kazehime, venha aqui – chamou o senhor feudal e uma gueixa pequena, razoavelmente jovem, aproximou-se. Os cabelos azulados dela e os olhos da mesma cor tinham fascinado Masaru – Você não trabalhou ontem à noite, viu Hinata?

- Não, Ren-sama, eu só a vi entrar no quarto e apagar a chama, achei que estivesse dormindo.

- Não pergunte a ela, Ren-sama, Kazehime não sabe de nada! – Tsubaki se embrenhou por meio as gueixas e trouxe uma loira sendo puxada pelo braço, os cabelos presos se desfazendo com o protesto de não ir – Pergunte a Raika, ela estava comigo e também viu ela indo pelo beco.

- É verdade, Raika? – Masaru foi direto.

- Eu... – Raika titubeou e arriscou um olhar de esguelha para Hinata caída no chão – Eu estava com Tsubaki e a vi saindo, mas não sabia para onde ela ia, então Tsubaki foi atrás, mas eu não, eu fiquei naokia.

- E eu a vi com um homem, Ren-sama!

- Que homem?

Tsubaki pareceu engolir sua língua com aquela pergunta. Era fácil para ela acusar Hinata de estar com um homem, mas isso a dizer que esse homem era Uchiha Sasuke, um dos convidados de Ren, já era ousadia demais. Gaguejou por um momento antes de responder evasivamente que não vira seu rosto e nem ouviu o que eles tinham tido.

Quando Masaru desceu do corredor de madeira e aproximou-se da Hyuuga no pedaço de terra em que ela estava caída Sasuke reprimiu seu impulso de dar alguns passos à frente para impedi-lo de pegar o rosto fino da moça entre suas mãos e fazê-la olhar para ele, dentro e bem fundo de seus olhos aquosos em que ele nunca confiou. Sabia que alguma coisa estranha rondava aquele homem, não é nenhum idiota ou incapaz que vira de uma hora para a outra e lança pequenos boatos sobre atacar a Vila da Folha, o maior dos Países Shinobi.

- Isso é verdade, Hinata? – sua voz era mansa enquanto se dirigia a moça, era a mesa voz macia que usava para persuadir – Se você mentir eu vou saber.

Os olhos perolados queriam mirar os ônix, queria dizer para ele apenas ficar quieto, pois ela sabia o que aconteceria no momento em que dissesse a verdade. As punições foram parte dos seus ensinamentos de gueixa.

- Sim, Ren-sama – ela respondeu, por fim – Sa-sai do feudo ontem a noite para ir até o lago e e-esse homem me viu lá.

- Quem era esse homem?

- Não o c-conheço, não deve ser daqui.

- O que vocês fizeram? – Hinata o encarou, horrorizada, e conseguiu ver Sasuke atrás dele. Mandou-lhe um pensamento para que ficasse parado, para que nada fizesse, mas realmente duvidava que Sasuke tentasse qualquer coisa em prol dela ali que arruinasse a missão – O que fizeram, Hinata? – ele repetiu impaciente.

- Na-nada, Ren-sama, ele só segurou meu braço e me disse p-para ir com ele, mas quando eu lhe disse seu nome ele foi embora – podia mentir um pouco, percebera que Tsubaki não arriscaria dizer que Sasuke lhe dera o quimono para se cobrir, já que ele tinha o símbolo do Clã Uchiha nas costas a qual nem a gueixa podia ignorar.

- Tsubaki?

- Sim, Ren-sama, eu os vi conversando e depois ele foi embora.

Masaru deu as costas a Hinata e voltou para o tablado de madeira do corredor ladeado por Chiren e Sasuke.

- Uma pena, realmente bonita essa garota, Ren-sama – desdenhou o homem recém-chegado. Sasuke lançou-lhe um olhar de canto que o homem não percebeu, mas havia um brilho rubro que teria sido fatal se Chiren o tivesse encarado de volta.

- Hae, acoite Hinata vinte vezes com a varinha de bambu – foi à ordem de Ren.

As gueixas começaram um burburinho, as empregadas ficaram preocupadas e Sasuke viu o movimento da nin-médica do outro lado para se aproximar, as sobrancelhas rosadas apertadas em preocupação e espanto. Ele fez um sinal com a cabeça e ela se manteve no lugar. Naquele momento o Uchiha agradeceu por Naruto ter o sono pesado e não estar ali, ao loiro seria difícil segurar perante aquilo. A si mesmo estava sendo difícil segurar por saber que era o responsável, mas não poder colocar a cara a tapa para não estragar a missão e o destino da Vila Oculta da Folha.

Ele havia notado o olhar de Hinata para ele. Não era de súplica, não era de alguém que pedia misericórdia ou para ser salva, era um olhar para que não interferisse. Ela sabia o que iria acontecer antes de Ren falar e estava tentando alertar o portador do Sharingan, mas Sasuke só se deu conta do que ela queria dizer quando o senhor feudal anunciou o castigo.

Chiren estava se virando para ir embora enquanto Hae pegava uma comprida vara de bambu e descia para a terra, Hinata tinha os joelhos juntos e a cabeça quase se encostava ao chão. Água foi jogada em suas costas fazendo o quimono grudar ao corpo.

- Não – chamou Ren – Vamos ficar e ver isso.

Apanhar somente não é o castigo, mas saber que há pessoas envolta ouvindo seus gritos e sua humilhação é que tornam o show emocionante. A Hyuuga só se lembrava de um momento de tamanha impotência: quando fora ferida por Neji frente à Naruto. O loiro não estava ali para encorajá-la e ela achou melhor assim, ele não conseguiria ficar parado só assistindo, mas Sasuke estava e ela podia sentir claramente os olhos dele em si. Ele iria fazer mais que olhar, ele iria pegar cada golpe que ela receberia e aplicaria em si mesmo.

E o pensamento de Hinata não podia estar mais certo. O Uchiha não teria suportado ir embora, não poderia abandoná-la. Quando Hae levantou a vara e ela zuniu de encontro às costas de Hinata ele também sentiu. O grito que ela não soltou para as pessoas ecoou em sua cabeça. Ele queria trocar de lugar com ela, ele queria poder pegá-la e tirá-la dali, correr para longe sem se importar com a missão. O moreno assistiu a Hinata suportar sem gritar e sem abrir os olhos a todos os vinte golpes e ele sentiu-os ampliados em sua própria pele. Poderia jurar que se tirasse o quimono veria os vergões vermelhos na pele muito branca, tanto do corpo de Hinata quanto no seu próprio.

- Menina burra! – gritou Hae, ofegante com os golpes. Subiu de novo para o corredor de madeira e deixou Hinata na terra. Sem conseguir se conter, Sakura avançou para Hinata e chamou seu nome várias vezes, mas a Hyuuga ficou na posição de cócoras, tremia um pouco, mas não se movia.

- Eu tenho uma casa de chá para gueixas, Hinata, não para prostitutas – Masaru cuspiu a palavra nela e Sasuke sentiu mais dor por aquilo do que todas as açoitadas. Se ele dissesse mais alguma coisa não tinha dúvidas que mandaria aquela missão para o inferno e resolveria aquilo naquele momento mesmo ao matar Masaru Ren com suas mãos.

De onde vinha toda aquela revolta? Não sabia explicar, mas mais que qualquer outra raiva que sentia só se comparava ao tempo que queria matar seu irmão por vingança. Sentia-se responsável por Hinata, mais que isso, era aquela sensação de carga elétrica e fogo nas veias que ela despertava e a voz dela que queria ouvir de novo com toda a liberdade que ouvira na noite passada quando ela dissera que acreditava nele.

"Acredito em você" o pensamento saltou em sua cabeça, em frente a seus olhos, e ficou repetindo mais vezes do que o Mangekyou Sharingan poderia fazer. Queria dizer a ela, subitamente.Precisavadizer.

- Você fez a coisa certa, Tsubaki – Ren disse e os olhos negros do Uchiha fixaram-se nela. Notou como quando a moça começou a tremer, morrendo de medo. Ren virou-se e chamou-os – Por favor, Chiren, Sasuke-san, vamos tomar nosso café da manhã.

- Estou morto de fome depois desse espetáculo – Chiren riu e seguiu Ren.

O shinobi virou-se por último depois de lançar um olhar para Sakura que ela entenderia. Para a gueixa o seu olhar foi muito mais gélido que o olhar de adaga, algo impossível de descrever. Junto com Masaru Ren ele tinha certeza que mataria aquela mulher. Quando ele passou por ela, Tsubaki desabou sobre os joelhos e teve de ser socorrida por Raika.

- Eu vou matar ele! Não importa o que Tsunade-obaa-chan disse,eu vou matar ele!– vociferava Naruto, já ao crepúsculo, andando de um lado para o outro do quarto de Sasuke, furioso por acabar de saber o que tinha acontecido com Hinata – Porque você não fez alguma coisa, teme?

- Você acha que eu não quis fazer, Naruto? – Sasuke se levantou da janela tão rápido que Naruto se assustou com a reação do amigo – Eu queria ter quebrado o pescoço de Masaru Ren naquele momento.

A voz dele estava baixa, mas não para ser discreto, porque o ódio não o permitia levantá-la. Naruto se calou. Fora Sakura quem contou a ele sobre o que tinha acontecido a Hinata e ela teve que segurá-lo bem para que não saísse correndo a procura do idiota do senhor feudal para acertar-lhe a cara. Ela contou que Hinata dissera que mandara inúmeros olhares para Sasuke não agir e que foi bom Naruto não estar presente, a qual o loiro se indignou, mas Sakura apresentou-lhe a lógica. Impulsividade não seria a resposta.

Hinata não contou quem era o homem e Sakura repassou a mentira que era um estranho. Sasuke, porém, contou a verdade para o amigo. Ele a seguira, dissera, para saber o que ela fazia, se estava colocando em risco a missão, e ele mesmo o fizera. Pior, colocara a vida de Hinata em risco. A punição podia ter sido a morte.

- Você só estava tentando agir como capitão, Sasuke.

- Que tipo de capitão tenta proteger seus soldados os colocando em perigo maior? – ele rosnou.

- Todos os capitães se perguntam alguma vez se são bons capitães, mas ás vezes não dá pra salvar todos os soldados, dattebayo – Naruto olhou para ele, bem nos olhos, e sorria ao completar a frase – Mas o que importa é dar tudo de si para fazer o melhor!

E Sasuke ainda ficava se perguntando que Tsunade estava esperando para passar o chapéu de Hokage para Naruto.

- Naruto – o loiro tinha se sentado, a crise de raiva, melhorado – Você ama Sakura?

- Ah, porque é que você tá me perguntando isso tão de repente, dattebayo? – ele balbuciou, corado até a alma.

- Porque não diz a ela?

- Eu acho que você sabe bem o porquê.

- Você devia dizer a ela, assim Sakura me esqueceria.

- Não seria tão fácil depois de vocês dormirem juntos.

Sasuke gelou e encarou os olhos tristonhos de Naruto sentado na cama.

- Ela chegou pra mim toda sorridente no dia seguinte, somos os melhores amigos dela, pra quem mais ela contaria? Não pra Ino, seria contar vantagem, apesar de que aquela lá parece bem feliz com o Shino agora – Naruto levantou-se e colocou as mãos atrás da cabeça se colocando ao lado de Sasuke na janela – E depois, quando você disse que não passava de uma noite, quem enxugou as lágrimas dela?

- Desculpe – foi o que Sasuke disse, depois de um longo silêncio. Não se desculpava por Sakura, por ela ter criado falsas ilusões, mas por ferir seu melhor amigo. Era muito fácil agora dizer que se sentia pior que escória e quem nem cem açoitadas poderiam redimi-lo.

Naruto negou com a cabeça, um sorriso no canto da boca.

"Acho que eu ter namorado a Hinata já foi castigo suficiente, só que você ainda não percebeu isso, Sasuke" pensou o loiro.

- Esquece, dattebayo – Naruto ergueu o punho fechado – Eu não te trouxe de volta pra perder sua amizade por causa disso, teme.

- É por causa desse tipo de coisa que as pessoas da Vila acham que a gente é gay – respondeu o Uchiha tocando com o punho fechado o de Naruto.

O loiro deu de ombros voltando os braços para trás da cabeça.

- Tudo bem, desde que eu fiquei atrás.

- Vai sonhando, dobe.

Chapter 6: A fa*gulha que Atiça a Chama

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- Sentimentos estranhos estão tomando conta de mim – ele sussurrou. A voz rouca, difícil de falar. Tinha os olhos fechados e somente sentia seu cheiro doce, mas não enjoativo. O corpo pressionado ao seu respondia também e ele já começava a sentir o que acontecia consigo quando aquela chama corria por suas veias – Eu deveria tirar você da minha cabeça, mas não quero.

- Sasuke... – a dificuldade de falar era mútua.

Suas mãos procuravam avidamente o obi para desamarrá-lo, mas ele não sabia o que fazer, estava meio perdido entre as camadas de tecido. Queria acariciá-la, toca-la inteira com sua pele, por todas as partes. As mãos pequeninas puxavam o seu quimono para baixo, a parte branca jazia no chão. O penteado já fora desfeito, os enfeites estavam espalhados pelo tatame. Uma de suas mãos delineou o pescoço ainda mais alvo por causa do pó de arroz, fora aquelas duas pontas em sua nuca. O batom carmim de seus lábios já estava espalhado pelo contorno de ambas as bocas.

Então Sasuke parou e ela também. Ofegantes ao extremo, com os corpos juntos, o quimono parcialmente tirado, uma confusão de pernas entrelaçadas e cabelos grudando por rosto e ombros, ambos excitados querendo ir até o fim. Ele a apertou com força contra si olhando seus olhos claros. Ali brilhava desejo, brilhava luxúria e brilhava entendimento e compressão que ele não sabia por que estavam ali, encarando-o e desafiando-o. Tinha certeza que em seus olhos, além de desejo, havia curiosidade. Em outros momentos aquilo tinha sido o suficiente, mas porque sentia que já não era mais?

- Quero você na minha cabeça – ele continuava com os sussurros roucos ao pé de sua orelha, respirando e causando-lhe arrepios – E quero estar na sua.

- Você está.

Ele quebrou o contato visual ao tomar sua boca, gostava de como ela deixava explora-la para depois, timidamente, fazer o mesmo. Gostava de ter o controle, gostava de tê-la para si, mas sabia que ela poderia ser a dominadora, se quisesse, ele deixaria facilmente. A boca pequena passou para seu queixo, pescoço e ficou por ali enquanto as mãos arranhavam os músculos do abdômen. Contraiu a barriga e afastou os longos cabelos de seu pescoço. Mordicou e sugou com alguma força, queria deixar sua marca ali.

- Também quero seus sentimentos pra mim, Hinata.

Acordou de súbito com a menção daquele nome em seu sonho. Arregalou os olhos negros para perceber que eles não estavam negros, mas muito vermelhos. O cabelo grudava na face, o peito estava todo molhado de suor e o volume nas calças era visível. O Uchiha sentou-se na cama, uma mão de cada lado do corpo. Olhou para a janela, já começava a clarear, logo o sol surgiria atrás dos muros do feudo de Masaru Ren.

Levantou-se e foi até a bacia de água no canto que fora deixada lá por alguém e a qual a água era trocada todas as noites. Pegou-a com as mãos em concha e jogou abundantemente por sobre si, nas faces e nas costas, esfregou o pescoço e ficou encarando o reflexo na superfície depois que a água se acalmou. Desativou o Sharingan.

Há três dias Hinata fora espancada, há três dias ele sentira a dor junto com ela. Há três dias ele não conseguia parar de pensar na Hyuuga e há três dias aquele sonho começara e vinha se repetindo. E sempre acordava naquela mesma parte e no mesmo estado, sem saber o que a moça iria lhe responder. Uchiha Sasuke nunca fora o tipo que acreditava que sonho fosse alguma espécie de premonição, mas acreditava que eram desejos do subconsciente, mas há um dia mesmo admitira que ter Hyuuga Hinata não era só um desejo de seu subconsciente, mas de seu consciente também.

Nunca imaginara ficar tão obcecado por alguém depois de matar Itachi, mas aquela era uma obsessão completamente diferente. A morena não saia de seus pensamentos, se pegava pensando nela até quando estava conversando com Masaru ou Naruto sobre um assunto completamente adverso. Já não conseguia controlar, ficava pensando em como ela estaria, se Sakura tinha cuidado bem de seus machucados, se Ren faria alguma outra coisa contra ela, quando poderia vê-la de novo. E ela conseguira esse feito, de deixar o herdeiro Uchiha submisso a ela, em apenas um dia, um encontro e algumas observações atentas.

E o que mais o intrigava é que queria que acontecesse com ela as mesmas coisas que estavam acontecendo com ele em seu íntimo. Queria poder ficar perto dela para conquistá-la como jamais quisera com outras mulheres, especialmente por achá-las todas deveras irritantes. Hinata gaguejava, era tímida e corava com qualquer coisa, principalmente por olhares mais penetrantes. Ele queria vê-la corar sobseusolhares penetrantes, queria-a gaguejando emseuouvido. Como no sonho, queria-a. Além do desejo, além do corpo. E queria descobrir o que era aquilo, acima de tudo. Hinata era forte, mas não demonstrava e Sasuke sabia exatamente qual era a sua opinião sobre tal. Se as pessoas começassem a elogiá-la por sua força – apesar de não gostar de as pessoas verem-na como fraca – qual seria sua motivação para continuar crescendo?

Sozinho em seu quarto, Sasuke sorriu. Aquela garota de olhos insossos o estava deixando louco com aqueles pensamentos filosóficos e sentimentais, mas a única coisa que almejava era continuar pensando! Quanto mais pensamentos tinha sobre ela, melhor se sentia.

Quando pegou o seu quimono negro e deixou o quarto, o sol já despontava e ele estava decidido que precisava vê-la, nem que tivesse que entrar naokia.

Hinata amara Naruto. Sentira por ele verdadeiro amor, mas diferente de amor. Não era o tipo de amor que uma mulher sente por um homem, era algo mais fraterno – mesmo tendo demorado a percebe-lo –, porém também diferente do amor que ela sente por Neji e Hanabi e até mesmo seu pai. O amor que sentira por Naruto fora crescendo, levara tempo para se desenvolver e, no fim, resultou que ela estava apenas equivocada com os próprios sentimentos.

Sentira alguma coisa por Sasuke, também. Não era amor, porque era muito diferente do que achara que era amor ao sentir por Naruto, mas não sabia dizer ao certo. Com Sasuke fora diferente, não tivera tempo de germinar. Fora súbito e devastador, mais forte que só paixão. Tinha começado quando? Há três dias, no lago? No dia seguinte aquilo, quando olhara em seus olhos de abismo enquanto era açoitada? Talvez quando ele entrou na sala de Tsunade-sama, antes de aquela missão começar, talvez no dia do Exame Chunnin, muito tempo atrás, quando seus olhos se encontraram de esguelha por mero meio segundo, talvez quando fora visita-lo no hospital antes de ir embora, um dia em que Naruto e Sakura não estavam no quarto e ela pôde analisá-lo pela primeira vez? Havia muitos talvez, nenhuma certeza.

E aquele toque. Corava ao lembrar da cena do lago, corava ao sentir o cheiro dele no quimono que ainda não devolvera. Ficava passando a ponta dos dedos por sobre o braço esquerdo onde ele a segurara. Aquele toque deveria ter significado nada para ele, mas para ela significara tanto. E queria chorar ao pensar que ela estava sendo estúpida novamente ao criar expectativas de um sentimento que não seria correspondido. Sasuke não se apaixonava, ele não queria isso. Ele iria apenas arranjar uma mulher boa o suficiente para lhe dar filhos de linhagem Uchiha, porque ele ousaria se misturar com uma herdeira do Byakugan e arriscar que seu filho não nascesse com os olhos vermelhos? Ele não faria isso.

- Hinata-san? – a voz sobressaltou Hinata que estava distraída demais em seus pensamentos enquanto olhava-se no espelho. Era a voz de Mizuno do outro lado.

- Entre, Mizuno-chan.

A porta se abriu a garota entrou, fechando-a atrás de si. Ajoelhou-se ao lado de Hinata, trazia uma caixa de quimono consigo. Colocou a caixa no chão e abriu antes de levantar o rosto, sorrindo.

- Este é um de seus quimonos, não é, Hinata-san? – perguntou pegando-o pelo colarinho e erguendo-o – É maravilhoso, uma seda de ótima qualidade. As tecelãs do País da Grama têm ótimas mãos.

- Sim – Hinata concordou sorrindo para a garota. Aquele quimono azul com a silhueta negra do castelo que ela segurava não era, nem de longe, o mais bonito da coleção de sua mãe e fora justamente por isso que o trouxera – Porque o trouxe aqui, Mizuno-chan?

Depois do que aconteceu, as moças daokia– as gueixas, para ser exata – recusavam-se a falar com Hinata, a meramente a olharem. Elas poderiam ser desvirtuadas e humilhadas como Hinata fora se falassem com ela, coisa que não acontecia, mas os exageros eram inevitáveis. Fora as mulheres da cozinha, Mizuno e Hae eram as únicas outras mulheres com quem Hinata conversava. Hae porque não era gueixa e não acreditava naquelas bobagens e Mizuno porque era umamaikoe morria se admiração por Hinata. Ela lhe confidenciara isso quando entrara no quarto dela enquanto Sakura cuidava de suas feridas – do jeito tradicional, não com chakra curativo – e dissera, sorrindo, que queria ser como Hinata quando se tornasse uma gueixa.

- Okaa-san me mandou – ela sorriu – Ren-sama parece que gostou muito de você, Hinata-san, ele quer sua companhia hoje.

- I-isso é verdade? – ela nunca imaginara que fosse continuar como gueixa, ainda mais que Ren iria querer vê-la de novo fora do expediente da casa de chá, apesar de ela ainda não estar trabalhando lá.

- Sim, ele disse isso a okaa-san pessoalmente – os olhos da garota brilhavam de admiração – Eu vou ajudá-la a se vestir, Hinata-san.

A mais velha sorriu-lhe, agradecida.

- Ren-sama? – ela chamou timidamente sem encará-lo. Ou melhor, suas costas, já que ambos andavam, ela seguindo-o pelos corredores da mansão em direção a algum lugar que não fazia questão de saber antes de chegarem lá. Provavelmente ele a faria ficar tocandoshamisendurante o almoço novamente, mas precisava perguntar uma coisa.

- Sim, Hinata-chan? – ele não parou nem se virou, apenas questionou com sua voz macia.

- Porque m-me chamou para... Vir aqui de novo? De certa forma... Eu estou maculada.

- De certa forma – ele parou e Hinata quase se chocou com ele. Ele se virou, os olhos verdes aquosos presos nela de forma intensa o que fez a moça se encolher e buscar a parede – Mas eu não me importo – Ren deu um passo na direção dela a encurralando entre ele e a parede – De fato, saber que outro homem a viu, saber que ele poderia tê-la, mas não o fez...

As mãos dele contornaram o corpo de Hinata antes de subirem para o rosto maquiado levemente. Quando não ia se apresentar oficialmente, a maquiagem não era administrada completamente. Ele passou os dedos por seus lábios e Hinata sentiu nojo quando o hálito dele bateu em sua boca. Quis se encolher até fundir-se a parede, mas não conseguia.

- Saber disso só faz o meu interesse por você aumentar, Hinata-chan – ele levantou a mecha que caia por sua têmpora que ela nunca conseguia prender ao resto do penteado – Meu interesse em te fazer minha.

Hinata continuava encarando-o, mas se ele chegasse um centímetro mais perto ela iria se esquivar. Para baixo, para cima, empurrá-lo, não sabia que opção usaria, mas não deixaria que ele a tocasse.

- Mas tudo há seu tempo, Hinata-chan – não foi preciso nenhuma atitude drástica, ele mesmo se afastou voltando a seguir pelo corredor esperando que a moça o seguisse. Ela o fez com as pernas trêmulas até chegarem a tão familiar sala de refeições. Ao abrir a porta de correr o senhor feudal revelou Chiren que já estava lá, em pé num dos cantos, e Sasuke, sentado no corredor de fora com um pé balançando quase encostando ao gramado abaixo.

- Ren-sama – Chiren fez uma reverência e Sasuke nem o olhou. Continuou indiferente na varanda.

- Estou atrasado para o almoço, peço desculpas – ele saiu de perto da porta revelando Hinata atrás dele – Fui buscar nosso entretenimento – Ren guiou Hinata a Chiren, Sasuke não tinha visto-a – Este é um de meus aliados, Chiren. Esta é Hinata, minha mais nova gueixa.

A menção do nome despertou Sasuke tal qual em seu sonho. Ele virou o rosto tão depressa que teve medo de Ren ter notado sua ansiedade, mas ele estava olhando para Hinata. Um olhar que invocou o ciúme mais profundo do Uchiha, um sentimento que nem acreditava mais possuir.

- Ah, aquela que foi espancada – Chiren disse em sua voz gutural – Doeu muito, Hinata?

Ela não respondeu a pergunta humilhante que o homem lhe fazia. Era apenas para zombar dela, estava claro. A moça fez uma pequena reverência e se dirigiu para o canto ajoelhando-se perto do instrumento. Sasuke seguia seus passos com os olhos, mas não foi retribuído pelos olhos perolados.

Os homens sentaram-se em volta da mesa baixa e Hinata começou a entoar a melodia calma noshamisen, olhando para baixo, o tempo todo para os seus dedos dedilhando as cordas. Os empregados surgiram e trouxeram a comida, ela não os olhou, só ficou atenta quando a conversa começou, uma conversa interessante e pertinente para o motivo de os ninjas da Vila da Folha estarem ali.

- Quando Ryuusuke e Wakusei chegarem eu pretendo fazer uma pequena cerimônia antes de encaminharmos nossos homens para a Vila da Folha – começou Ren – Para dar boa sorte.

- O onde é que você vai atacar,Uchiha-san? – perguntou Chiren desdenhoso sorvendo o saquê disposto ali no lugar do chá.

- Na linha de frente – respondeu Sasuke com seus olhos de adaga. A coisa que mais adorava fazer nos últimos dias era amedrontar Chiren ameaçando olha-lo por muito tempo e, só pelo tempo de uma piscada, deixa-lo ver seu Sharingan. O homem desviava seus olhos rapidamente.

- Uchiha-san ficará ocupado com Uzumaki Naruto, ele é o grande problema da Vila, o último dos Jinchuuriki – Masaru, enquanto falava, comia sem pressa, tinha um tom afável e gentil, como se estivesse tratando do assunto mais agradável que pudesse conhecer – Ouvi boatos que ele está para ser nomeado Hokage.

- As minhas tropas, junto com Wakusei e Ryuusuke, vão atacar pelas laterais da Vila para que Ren-sama possa ir direto pela frente, para a entrada principal – Chiren abandonou o copo e começou a tomar seu saquê direto da garrafa – São ninjas muito bons esses mercenários que conseguimos, mas seria mais fácil se a Akatsuki ainda existisse, não teríamos nenhum trabalho.

- Não é do meu feitio depender de outras pessoas para fazer meus negócios, Chiren – Ren pousou os hashi – Atrai má sorte.

- Você fala muito em sorte, Ren – Sasuke levantou os olhos pra ele que até aquele momento tinham ficado vagando discretamente entre seu prato de arroz e os movimentos de Hinata, quieta e atenta no canto, tocando.

- Não ouso desafia-la, Uchiha-san – ele respondeu, sorrindo. Chiren se levantou levando a garrafa de saquê consigo e abriu a porta – Já terminou de comer?

- Quero uma mulher, faz tempo que não me deito com uma – ele sorriu, um sorriso que Hinata não viu, mas que a deixaria enojada e fez Sasuke retesar os músculos da mandíbula – Você pode me ceder uma gueixa, Ren-sama?

- Minhas gueixas não são prostitutas, Chiren, a menos que você esteja disposto a pagar por um mizuage que será leiloado esta noite.

- Não tenho tanto dinheiro assim – ele virou a garrafa de saquê e um pouco do líquido transparente escorreu de sua boca manchando o quimono – Vou até os fundos do feudo.

Ren apenas concordou com um aceno de cabeça e a porta se fechou. O fim do feudo era como eles chamavam o lugar onde as mulheres da vida ficavam no feudo de Masaru Ren. Nenhum lugar é perfeito e tantos guardas e visitantes que frequentemente estavam no feudo e que não tinham dinheiro para comprar um mizuage de uma linda e delicada gueixa, se contentavam com as mãos ásperas e a pele há muito seca de mulheres que não se importavam com homens grotescos e ninharias de dinheiro.

- Você não deseja uma mulher também, Uchiha-san? – Ren virou-se para ele, os empregados entraram na sala para retirar os utensílios do almoço. Sasuke o mirou, seu olhar duro como qualquer outro, sem se abalar.

Hinata, em seu canto, não esboçou reação, mas por dentro seu estômago se comprimiu esperando a resposta.

- Como eu já disse na primeira vez que nos vimos, Ren – respondeu o moreno – Meu interesse aqui são negócios egueixas.

- Você é um homem de gosto apurado, Uchiha-san – Ren riu um pouco e serviu-se de saquê. Um servo abriu a porta e chamou pelo senhor feudal, um camponês precisava da ajuda do senhor – Sim, já vou atendê-lo – olhou para Sasuke com um sorriso que tinha mais segundas intenções do que Sasuke gostaria – Volto em um instante, Uchiha-san, enquanto isso Hinata-chan pode lhe fazer companhia.

"Você nem faz ideia", pensou Sasuke.

O moreno não respondeu e Ren se foi.

- Hinata – Sasuke se levantou e aproximou-se da morena. Ela errou uma nota e quase quebrou uma corda do instrumento quando suas mãos começaram a tremer com a aproximação dele. Não levantou os olhos, pousou oshamisenao seu lado e colocou ambas as mãos no colo e apertou de leve o tecido de seu quimono – Sinto muito.

Para a Hyuuga aquela foi uma tremenda surpresa. Esperava de Uchiha Sasuke quaisquer palavras, menos aquelas. Ele poderia lhe ofender, poderia lhe fazer perguntas sobre o que estavam comentando na casa de chá sobre o seu açoitamento – que para ele fora duplo –, poderia ter lhe dado algum ordem referente à missão. Mas se desculpar? Sentir pelo quê?

- O... Q-que disse, Sasuke-san? – seus olhos levantaram-se para mirá-lo, mas os olhos negros não a encaravam de volta. Ele sentara-se na varanda novamente, uma perna flexionada com o braço descansando sobre ela, a outra balançando preguiçosamente na beirada e ele olhava algo mais interessante no quintal.

- Sinto muito – ele respondeu diretamente.

- Por quê?

- Se eu não a tivesse seguido, você não teria esses vergões escondidos sob o quimono.

- Você não poderia ter feito outra coisa, Sasuke-san – ela não conseguia desviar seus olhos do perfil bonito que ele lhe apresentava, o sol batia na pele pálida deixando-a ainda mais branca, a marca negra de Orochimaru ainda remanescente em seu pescoço – Como capitão, seu dever...

- Meu dever é não deixar que nada aconteça a meus subordinados! – ele não gritou, não se exaltou. Na verdade, sua voz estava tão baixa e controlada que a morena sentiu a dor das palavras se chocarem com ela ao mesmo tempo em que o som chegou a seus ouvidos.

- Isso não foi culpa sua – a voz dela tinha o mesmo tom, mas sem a dor.

Sua mão pequena deslizou até o ombro, Sakura tinha feito um ótimo trabalho com unguentos nas feridas, mas algumas formaram cascas e ás vezes a seda do quimono as arranhava. Quando ela levantou seus olhos outra vez, encontrou o abismo em que queria cair dentro dos olhos dele. Sorriu serena e, por ele a estar observando, corou levemente.

- Logo não haverá mais marcas e Sakura-chan disse que não vai restar nem cicatrizes – a kunoichi levantou-se e passou a mão para alisar o pano do quimono antes de sentar-se sobre os joelhos ao lado de Sasuke – Por favor, não se preocupe, Sa...

Se naquela manhã Hyuuga Hinata estava se perguntando se estava apaixonada por Uchiha Sasuke ou qualquer coisa do tipo, naquele momento ela acabara de receber sua confirmação. Quando os lábios dele se colocaram sobre os seus tão repentinamente, tão súbito quanto o sentimento que ela sabia ter, mas não sabia de quando ou onde, viu-se estática, os olhos arregalados e a boca congelada entreaberta enquanto começava a pronunciar o nome dele. O beijo provocou correntes elétricas no seu corpo, muito mais intensas do que o toque dele em sua pele há três dias no lago e enquanto ele tocava o seu rosto com as pontas dos dedos durante o beijo, deslizando para seu pescoço e acariciando-lhe os cabelos.

A corrente elétrica começou nele e percorreu seu corpo trazendo com ela uma ínfima esperança de que poderia ser retribuída. Ela se tornara mais uma das que eram apaixonadas por Uchiha Sasuke e a esperança era de que ela poderia não ser só mais uma na coleção dele. Fechou os olhos evitando pensar no que poderia ser e a língua experiente de Sasuke entrou em sua boca como se fosse a primeira vez que ele fizesse isso. Sentiu-se estranhamente renovado quando Hinata retribuiu o beijo e não queria mais parar, apesar do que estava fazendo, num impulso, era extremamente arriscado. Quando teve o intuito de se separar dela, a mão agarrou a barra de seu quimono e ele ficou, prolongando o beijo um pouco mais, e percebeu, com esse movimento de retribuição, que toda a chama percorrendo seu sangue só era acesa pela fa*gulha que vinha dela.

- Po... Por que f-fez isso? – ela perguntou e Sasuke sorriu sem que ela percebesse ao vê-la corada, ofegante, os lábios molhados com sua saliva.

- Pelo mesmo motivo que você teve para retribuir – aquela frase foi o suficiente para fazê-la estremecer e deixar a esperançazinha que veio com o beijo crescer um pouquinho. Ela deixou a franja farta cobrir seus olhos e se levantou, envergonhada e indecisa e até feliz demais para continuar ali, precisava ficar um pouco sozinha.

Sasuke quis pará-la quando ela se levantou, mas a porta abriu e ele continuou de costas, impassível, apenas ouvindo a breve conversa.

- Hinata-chan, você está bem?

- N-não, Ren-sama. Será que posso me retirar por hoje? – para Ren a voz de Hinata pareceria doente, apática. Para Sasuke, havia uma nota ali que até aquele momento não percebera. Será que não a percebera, porque surgira com seu beijo? Sorriu mais uma vez ao identificar o tom feliz na voz melodiosa.

- Sim, pode ir e descanse – Masaru respondeu e a porta se fechou.

Sasuke não via mais motivo para continuar ali e, antes que Ren perguntasse qualquer coisa sobre o que poderia ter acontecido, o moreno levantou-se e sumiu deixando fumaça branca para trás.

Ele disparava soco após soco na água caindo da cascata não muito grande do lago onde vira Hinata. Já estava banhado de suor e água e, atrás de si, o sol se punha. Não demonstrava que iria parar. O quimono negro que estava usando e Kusanagi jaziam sob a mesma árvore que as roupas da morena Hyuuga no outro dia. Porque queria se cansar? Porque ficava dando socos e treinando ali? Naruto foi quem lhe trouxe a resposta.

- Você tem jeitos bem estranhos de demonstrar que está feliz, teme – Sasuke parou quando ouviu a voz do melhor amigo. Virou o rosto para vê-lo sorrindo largamente, as mãos atrás da cabeça, apoiado preguiçoso em uma árvore – Seria mais fácil só sorrir, dattebayo.

- Do que está falando, dobe?

- Nem tenta desviar o assunto, Sasuke, eu vi! – o Uchiha só continuou encarando-o enquanto o loiro se desencostava da árvore e andava sobre a água em sua direção com um olhar semi-cerrado e um sorriso malicioso de quem sabia alguma coisa realmente interessante. Ele se aproximou e, cobrindo um lado da boca com a mão, disse – Você e a Hinata e aquele beijão, dattebayo.

Sasuke continuou olhando-o.

- Não sei do que você está falando, Naruto.

- Ah, qual é? – o loiro gritou, mas depois desistiu, com Sasuke aquilo de jogar na cara simplesmente não funcionava, era capaz de o Uchiha negar até a morte do que simplesmente admitir que Naruto estivesse certo de bom grado. Ele já tinha feito muito quando pediu desculpas por ter ido embora. Ficou sério, então – Não faça aquilo de novo com ela.

A sobrancelha de Sasuke se levantou, sem entender o que Naruto queria dizer. Primeiro ele vinha gritando que ele estava feliz, agora ele queria mandar sua felicidade embora?

- Você não está fazendo sentido, dobe.

- Eu não vou deixar você magoar a Hinata-chan, dattebayo! – aquilo Naruto gritou virando-se para Sasuke. O pegaria pelo colarinho se ele estivesse usando alguma camisa, mas o dorso estava nu – Já basta a Sakura-chan ferida por você, Sasuke.

Aquilo, para Sasuke, vindo de Naruto, foi pior que um soco.

- Só a beije de novo quando tiver certeza do que sente por ela, assim o motivo da felicidade que você está sentindo agora será verdadeiro – finalizou Naruto deixando o seu semblante se suavizar – E mútuo.

O capitão fez uma cara azeda e pensativa, mas depois deu um de seus meio sorrisos e encarou Naruto, cruzou os braços sobre o peito, as sobrancelhas franzidas juntas.

- Porque é que você está sempre me dando lição de moral?

- Porque todo mundo fica muito burro quando o assunto são os próprios sentimentos – o Uzumaki riu – E você sempre foi péssimo pra lidar com eles!

- E você pra lidar com mulheres.

- É porissoque nós somos amigos, dattebayo.

Chapter 7: Duzentas Peças de Ouro

Chapter Text

Nas minhas memórias de luz eu via Neji-nii-san meio difuso ao longe e por mais que eu tente não consigo me lembrar de seu cheiro na infância, fora o cheiro de madeira do dojo. Ele treinava sempre com seu pai, muito sério e empenhado, com a eterna missão de ficar forte para me proteger. Ás vezes eu ficava escondida atrás da porta do dojo para espiá-lo e era minha mãe quem sempre me pegava no flagra e me fazia corar, ficar encolhida em mim mesma, rodando dos dedos e sem encarar o sorriso divertido que ela me lançava.

- Você gosta do Neji-kun, Hinata-chan? – ela me perguntou depois que nos afastamos, enquanto eu servia o chá. Quase derrubei o bule e olhei pra ela depressa com medo que tivesse visto meu deslize – Está apaixonada por ele?

- Não, o-okaa-san! – eu exclamei, corando mais e mais diante de seus olhos bondosos, risonhos, felizes. Olhos que eu nunca esquecerei – Só gosto... Gosto de ver Neji-nii-san treinando, ele... É tão forte.

Minha mãe me olhou longamente e assentiu depois. Pegou sua xícara de chá com o movimento floreado do pulso, involuntário, que fazia a bainha de seu quimono levantar minimamente, mas o suficiente para que meu pai sorrisse de canto, pegasse-lhe a mão e a beijasse ternamente, como eu o via fazer quanto ele e okaa-san estavam sozinhos.

- E você gosta de outro alguém, Hinata-chan? – eu a olhei, mas não corei. Não havia o que responder, não havia um outro alguém. Balancei a cabeça em negativa, mas minha mãe não viu. Uma criada chegou apressada até nós dizendo que Hiashi-sama nos queria ver imediatamente na entrada do Clã – Se é tão urgente, temos que nos apressar, não é?

Mas pressa não era algo comum na personalidade de mamãe. Ela era como o rio que flui em seu próprio ritmo, não importa que alguém o apresse, ele não vai mais rápido do que o tempo que a natureza determinou para que ele flua. Quando chegamos à entrada do Clã papai não estava só. Uma família de quatro pessoas morenas que, de costas, poderia se passar por perfeitos Hyuuga com suas poses austeras, imperativas, mas a diferença marcante eram suas roupas escuras e olhos também. Os Hyuuga usam roupas predominantemente claras, assim como nossos olhos.

- Hikari, estes são os Uchiha – disse meu pai assim que nos aproximamos – Uchiha Mikoto e Fugaku-san, este é minha esposa, Hikari – minha mãe lhes fez uma reverência e sorriu radiante. Colocou-me a sua frente, as mãos em meus ombros – Esta é Hinata, minha filha.

- Estes são Itachi e Sasuke, meus filhos – Fugaku-san indicou dois meninos parados perto da mãe.

Itachi era sério, alto, com olhos duros de um negro infinito. Era como uma miniatura do pai, de ar preciso, astuto e a beleza inata dos Uchiha. Sasuke ainda era apenas um garotinho, tão pequeno como eu quando garotinha. Os cabelos arrepiados, rebeldes, diferente dos do irmão, presos e contidos. Mais pálido que o resto da família, com as sobrancelhas franzidas querendo meter um medo que as pessoas insistiam em não sentir dele, um bico nos lábios finos. Os olhos diferentes de Itachi, mais brilhantes de curiosidade, admiração, sonhos.

- Uchiha Itachi-san – repetiu meu pai com tom de elogio para Fugaku – É um verdadeiro prodígio o seu primogênito, logo será admitido na ANBU, se não me engano.

- Sim, é o que eu pretendo – respondeu Fugaku.

Daquele encontro, do primeiro encontro que eu tive com pessoas de um Clã diferente, o que eu mais me lembro era a acentuada negritude da família Uchiha. Fugaku falava como meu pai, como eu acreditava que todos os pais deviam falar com seus filhos naquela época: sério, grosso, direto. Mikoto-san era parecida com minha mãe – e eu também achava que todas as mães deveriam ser daquele jeito – era amável, com um sorriso cálido, palavras mansas. Itachi ficou parado e quieto o tempo todo, menos quando lhe perguntavam alguma coisa que ele respondia sucintamente. Os olhos de Sasuke não paravam, moviam-se com velocidade para todos os presentes, observando gestos, palavras, entonações, as criadas que às vezes passavam no fundo, os outros membros do Clã que saiam, os gritos das lutas que aconteciam no dojo.

E eu, perdida em um mundo que eudeviaconhecer, que eu era ensinada a conhecer, a compreender e a interagir, me sentia invisível. Invisível do jeito que eu sempre me senti em toda a minha vida. Não era incômodo, angustiante, doloroso. Fazia-me sentir protegida, abrigada num lugar onde as pessoas não me poderiam encontrar. O melhor esconderijo para brincar o meu esconde-esconde imaginário comigo mesma.

- Já que nossos maridos irão cuidar dos negócios, o que acha de tomarmos chá, Mikoto-san? – arte da conversa, do entretenimento, da boa companhia. Ensinamentos de gueixa. Okaa-san levou os Uchiha, menos Fugaku e Itachi – que tinha ido ao nosso Clã justamente para começar a se familiarizar com os negócios-, a uma de nossas salas de chá. Eu os seguia, invisível, logo atrás de minha mãe.

- Trouxemos esse presente de cortesia para você, Hikari-san – Mikoto trazia uma caixa em seus braços, mas ela só teve utilidade quando foi passada para as mãos de minha mãe que a colocou a sua frente e abriu-a.

- Mikoto-san, isso não é necessário – ela disse espantada com o presente, tirando um quimono negro de dentro da caixa – É um dos lindos quimonos do seu Clã.

- Sim, sim, é por isso que eu lhe trouxe ele e quero que aceite.

Minha mãe encarou maravilhada o quimono. Em suas costas havia o desenho lindo de uma garça branca com as pontas das penas das asas pintadas de vermelho sangue.

- Não tenho como lhe agradecer, Mikoto-san – respondeu minha mãe fazendo uma de suas reverência e eu me aproximei depois de ficar tão estarrecida quando mamãe ao ver aquela peça de seda.

- Você é uma garotinha muito encantadora, sabia, Hinata-chan? – disse Mikoto para mim quando lhe servi um prato com doces de feijão. Ela sorriu, mas retomou a conversa com mamãe logo depois enquanto eu só corei e passei a oferecer os doces a Sasuke.

Ele me encarou por um segundo antes de voltar seus olhos ávidos ao prato que eu lhe estendia sem encará-lo. Eu tinha medo que ele me olhasse e me encontrasse através da minha invisibilidade. O caçula dos Uchiha apenas estendeu a mão para o doce e, antes de eu me retirar de sua frente, estendeu a outra pegando mais um. Não pude evitar e sorri, saindo de minha invisibilidade. E acho que eu ofendi Sasuke naquele momento, pois ele fez menção de colocar o doce de volta no prato, mas só deu uma mordida no doce e corou, virando o rosto. E eu ri baixinho, mas o suficiente para atrair olhares de okaa-san e Mitoko-san.

- O que é que você fez, Sasuke-kun?

- Não, por favor, Mikoto-san – disse minha mãe – Coma quantos quiser, Sasuke-kun.

Ele olhou para as mulheres meio emburrado, depois olhou pra mim e eu abaixei a cabeça depressa, as bochechas ardendo sentindo os olhos negros em mim e querendo que ele desviasse o olhar o mais depressa possível, que ele não me enxergasse no meu esconderijo, e estendi-lhe a bandeja com os doces. Senti-o pegar mais um e levantei a cabeça. Sasuke colocou o doce de feijão na boca, mas tinha os seus olhos em mim. Engoli seco, tão envergonhada quanto quando minha mãe me pegou espionando o nii-san.

O encarei pela última vez naquele dia e vi meu mundo muito bem construído para me esconder simplesmente sumir. O mundo foi invadido por luz branca e fumaça e nunca mais foi o mesmo, porque os olhos negros de Uchiha Sasuke destruíram meu mundo. Ele conseguiu me enxergar na minha invisibilidade protetora naquele dia, no único dia em que ele verdadeiramente se interessou em colocar seus olhos em mim. Primeiro eu o odiei por descobrir meu esconderijo, depois eu apenas esqueci.

Mais tarde, quando a família Uchiha já tinha ido embora e eu estava com minha mãe nas termas. Eu nadando e ela lavando os cabelos com jasmim, eu lhe perguntei:

- Okaa-san – ela se virou para mim e parou o cantarolar que saía de seus lábios – Gueixas se apaixonam?

- Claro que sim, Hinata-chan – ela riu – Todo mundo se apaixona – depois ela adquiriu um semblante triste – Mas nem todas as pessoas são permitidas de expressar isso.

- Como assim?

- Gueixas podem se apaixonar, querida, mas precisam abandonar tudo para isso e sair do mundo fantástico, envolto em brumas e mistérios, que é o mundo das gueixas, não é tão fácil quanto apenas... – mamãe colocou as duas mãos sobre o meu rosto e alisou-o com carinho apertando minha bochecha de leve - Tirar a maquiagem.

Os preparativos começaram cedo e ao pôr-do-sol ainda não tinha findado. O último aliado de Ren-sama chegara, ele era o que trazia os exércitos que atacariam a entrada da Vila da Folha, enquanto Chiren, Ryuusuke e Wakusei, ficariam encarregados das outras posições. A marcha teria início em três dias e, naquele dia, haveria uma comemoração especial.

Sakura estava sentada lá fora, como a mais nova ajudante da cozinha os piores trabalhos eram deixados por sua conta. Enxugou os olhos pela milésima vez desde que começara o árduo trabalho de descascar todo aquele saco de cebolas. Para que eles iriam usar tantas cebolas? Ninguém lhe soube responder quando perguntou. Diziam apenas para fazer seu trabalho sem reclamar e era o que ela estava fazendo. O seu trabalho reclamando sempre que podia.

- Rápido, Sakura! – gritou uma voz de dentro da cozinha – Quanto tempo mais você vai demorar pra descascar umas míseras cebolas?

- Já estou terminando! – gritou de volta, mas o que realmente queria fazer era tacar as cebolas de volta. Bem na testa de quem a estava apressando!

Terminou de descascar mais uma e largou a faca. Enxugou os olhos com as costas das mãos e fungou profundamente. Ergueu os olhos pra cima, depois por cima do ombro para olhar o sol poente, a beleza das nuvens alaranjadas, rosadas, arroxeadas.

E Naruto. Naruto andando até ela com um olhar melancólico fixamente pregado em seu rosto vermelho, manchado pelas lágrimas e pelas passadas agressivas de suas mãos para secá-las. Levantou-se rapidamente quando o viu chegando e ficou preocupada.

- Naruto... – mas sua voz saiu embargada, baixa e debilitada.

- Sakura-chan – ele respondeu. Ele tentou dar-lhe um sorriso triste, mas não conseguiu e quando se aproximou o suficiente apenas a abraçou.

A Haruno não entendeu o que estava acontecendo, o que Naruto estava fazendo e, em seu espanto, apenas o abraçou de volta. Não sabia o que fazer quando via o amigo naquelas condições, porque eram tão raras as vezes que o loiro se mostrava o mais minimamente possível triste, que eram praticamente inexistentes. Abraçou-o e apertou seus dedos em seu quimono curto, agradeceu por todas as pessoas estarem ocupadas demais para presenciarem aquilo.

- Não precisa chorar, eu vou ficar com você – ele disse assustando-a de novo. Sua voz saia baixa, consoladora. Mas consolar o quê? – Parece que a Hinata-chan faz mesmo o teme feliz – Naruto sorriu ainda abraçado a ela. Ele notara a mudança de Sasuke, algo que quem não o conhecia não conseguiria notar, mas para Naruto aquilo era missão Rank-D – Sasuke tá mesmo feliz, Sakura-chan.

Congelou, suas mãos apertaram o quimono de Naruto e as lágrimas recomeçaram a descer, dessa vez realmente lágrimas e não apenas o afeito de descascar as cebolas. O que Naruto estava dizendo? O que Hinata tinha a ver com Sasuke? Como assim ela o deixava feliz? Não conseguia falar e o loiro continuou.

- Ainda bem que o Sasuke veio falar logo com você, eu não quero ele magoando mais ninguém, nem a Hinata-chan e muito menos a você – Sakura já não o ouvia, só ficava parada na mesma posição sem se mover, com as lágrimas escorrendo-lhe dos olhos e as palavras começando a fazer sentido ao juntarem-se em sua cabeça.

As frases de Naruto repetiam-se infinitamente até ela reencontrar sua voz, se afastou dele com delicadeza.

- Sasuke-k... – engoliu o sufixo e perguntou-se se deveria continuar a usá-lo. Decidiu que sim, porque com a sua voz o nome dele sem o sufixo lhe soava muito estranho – Sasuke-kun não veio falar nada comigo, Naruto – deu-lhe as costas e pegou o cesto de cebolas descascadas – Mas obrigada por me avisar.

- Sakura-chan, não, espera aí! = ele agarrou a mão dela – Você... Estava chorando, por que... Ele, o teme, não... Não falou...

- Eu estava descascando cebolas – ela não o encarou e Naruto viu o cesto – Preciso ir.

Puxou seu braço do aperto do Uzumaki e deu-lhe as costas de vez. Naruto não insistiu, sentia-se o pior dos homens. Não se sentia deveras um homem! Levou a mão aos fios castanhos que não lhe causavam dor por mais que puxasse. Ele tinha feito a pior de todas as burradas de toda a sua vida recheada delas.

É difícil descrever a sensação de perder o seu amor platônico para alguém em quem confia. É difícil, porque não há como culpar nem um nem outro. Nem o seu amor platônico nem a pessoa em quem confia. Amar é melhor que ser amado, pois com o seu próprio amor é possível lidar, mas não com o amor que alguém dedica a você. Não é possível moldar o amor alheio para se encaixar ao seu, grudar ao seu, ficar junto do seu amor para sempre. Não é possível moldar o amor de alguém para deixar de amar outra pessoa e passar a amar você. O que se pode fazer é apenas amar e esperar amar um alguém que também te ame.

Seguia pelos corredores daokiamovimentada. Ninguém reparava nela, ninguém perguntava por que estava tão apática, sem se dar conta, sem se importar com nada que estava acontecendo ao seu redor, porque as pessoas não se importavam absolutamente com ela. Então ela só andava com os sentimentos brincando nas montanhas-russas de suas entranhas em direção a única pessoa que se importa com ela naquele lugar, a pessoa que fez seus sentimentos brincar nas montanhas-russas de seu interior.

Não sentia raiva de Hinata nem de Sasuke nem de si mesma, mas tampouco podia dizer que o seu estado de espírito era o mais neutro e relaxado possível. Haruno Sakura apenas parou em frente à porta do quarto de Hinata sem saber o que fazer, o que pensar, o que dizer, o que sentir.

Abriu a porta.

- Sakura-chan – a voz de Hinata a atingiu. Preocupada, delicada, como um sopro de ar fresco em um penduricalho de sinos – Está tudo bem?

Os olhos esmeraldinos esquadrinharam a cena. Hinata estava se vestindo, Mizuno ao seu lado parou o serviço quando a gueixa se levantou para aproximar-se da rósea. As pérolas da Hyuuga brilhavam tão belas quanto Sakura jamais vira antes. E começou a chorar de novo.

- Sakura-chan! – ela caiu sobre os joelhos quando Hinata se aproximou e a morena a amparou. O quimono bonito que vestia foi molhado pelas lágrimas salgadas de Sakura, mas Hinata não se importava – O que aconteceu?

A nin-médica não respondeu. Ela trouxe o rosto maquiado de Hinata para entre suas mãos e sorriu deixando a Hyuuga completamente sem entender o que Sakura tinha. Depois lançou seus braços de encontro à morena e a abraçou apertado dizendo em seu ouvido apenas para ela ouvir:

- Eu amo Sasuke-kun, Hinata-chan.

Hinata não podia dizer que não entendera o que Sakura tinha depois dessas palavras óbvias. Sentiu-se mal quando retribuiu o abraço, sentiu-se suja e escrota. Mas Sakura não a deixou de afastar.

- Mas ele não me ama – completou – Nunca amou e nunca vai amar, ele mesmo me disse isso.

Hinata mordeu o lábio inferior e também chorou. A tintura negra em seus olhos escorreu por sobre a pele pálida pela maquiagem.

- Eu quero que ele seja feliz e você o faz feliz – a Hyuuga soluçou e quando o seu choro se intensificou, o da rósea cessou para dar lugar a um sorriso agradecido – Obrigada por fazê-lo feliz.

E tencionou se afastar, mas dessa vez foi Hinata a prendê-la no abraço.

- Não – respondeu – Só vou... Só vou deixá-la me agradecer qu-quando também o fizer feliz...

- Quem? – indagou Sakura.

- Naruto-kun.

Sakura ficou muda entre os braços de Hinata.

- Ele te ama, Sakura-chan – continuou – Mas para fazê-lo feliz não é preciso muito, tenho certeza que Naruto-kun sempre estará feliz enquanto você estiver.

Sakura não respondeu mais uma vez e abraçou a kunoichi com mais força.

O sol colocou-se atrás dos muros mais afastados do feudo de Masaru Ren e Uchiha Sasuke estava olhando-o pela janela quando o fez. Não saíra do quarto naquele dia, não queria ouvir as conversas, não queria ver os preparativos sendo feitos. Não queria saber quanto àqueles imbecis pretendiam pagar para ter Hinata. Não importava, ele não deixaria isso acontecer. Ninguém, além dele, iria tocá-la.

- Sasuke-sama – chamou uma voz da porta – Ren-sama pediu para todos se reunirem no saguão para a ida à casa de chá.

Ele ouviu, mas nem se deu ao trabalho de querer abrir a porta. Era outro criado que desaparecia no corredor assim que ele tencionava sair. Para sua surpresa, a porta deslizou e abriu-se. Quando se virou ele viu Mizuno, a garota da casa de chá, olhando-o da maneira submissa que os criados usam. Carregava algo familiar em seus braços.

- Desculpe-me a ousadia, Sasuke-san, mas Hinata-san me pediu para vir – começou a menina. Sasuke se adiantou esperando-a continuar – Hinata-san me pediu para lhe devolver isso.

Estendeu a ele o quimono branco com o símbolo do Clã Uchiha.

Sasuke pegou-o de suas mãos e a garota se retirou com pressa fechando a porta em sua passagem. O Uchiha segurou o quimono com as duas mãos para sentir o cheiro de Hinata, coisa que para ele não era difícil reconhecer. Retirou o quimono negro que vinha usando e recolocou o branco. Girou Kusanagi nas mãos entes de enfiá-la no cinto. Saiu.

Os outros aliados e Ren se encontravam no saguão quando Sasuke juntou-se a eles. Recebeu um olhar irritado de Chiren por ser o último e atrasá-los a qual Sasuke ignorou completamente. Ren fez sinal para que eles saíssem e sorriu enquanto falava sobre as belezas que eles iam ver naquela noite. A casa de chá fora fechada apenas para comportar os aliados de Ren e os homens mais importantes do feudo e arredores que foram convidados para aquela ocasião.

Lanternas brancas com pinturas de cerejeiras foram espalhadas pela entrada e por dentro dos caminhos que as pessoas deveriam seguir na casa de chá. As gueixas estavam circulando, misteriosas e belas. O cheiro de incenso e outras essências em óleo eram marcantes e Sasuke sentiu-se meio enjoado naquele ambiente. Os homens foram indicados a se sentarem em almofadas de um único lado da sala formando um meio círculo. Ren sentou-se no centro com Sasuke de um lado e Chiren de outro. As gueixas se aproximaram com o chá, o saquê e alguns doces para oferecer e, quando todos os homens já estavam acomodados, as luzes diminuíram. O espetáculo começaria.

- Agora é o momento certo para aprender a apreciar uma raridade, Sasuke-san – Ren inclinou-se um pouco para sussurrar essas palavras ao moreno – Preste muita atenção.

Pétalas de cerejeiras começaram a cair quando Hinata entrou. A maquiagem fora reconstruída em seu rosto, o quimono fora trocado. Ela vestia um de seus próprios quimonos, o negro com a garça branca e vermelha. Ela segurava a abertura do quimono na altura do peito, os ombros desnudos, os cabelos soltos e longos caindo-lhe pelos ombros e costas até o quadril, um dos lados da saia do quimono estava preso aoobideixando as pernas de Hinata suficientemente a mostra. Oshamisene ashukahachicomeçaram a tocar em algum lugar atrás dos espectadores.

A dança de Hinata tinha como tema uma moça que todos os dias passeava perto de um lago. Ela se sentava na margem do lago e ficava olhando para as carpas e para o seu reflexo na superfície. Era a mais bela moça da aldeia onde morava e todos os homens queriam casar com ela, mas nenhum era de seu agrado. Depois de ter dispensado mais um de seus pretendentes ela foi passear perto de seu lago. O pretendente recusado, com muita raiva da bela moça, empurrou-a no lago, mas ela não sabia nadar. A moça gritou desesperadamente por socorro, para que ele a ajudasse. O homem não fez nada. Ele riu e deu-lhe as costas deixando-a morrer.

Hinata jazeu no chão ao terminar a dança e as pétalas de cerejeiras pararam de cair sobre seu corpo inerte ao mesmo tempo em que cessaram os instrumentos. Da platéia de homens que a assistiam ficaram parados, todos impressionados com o desempenho magnífico. Puderam realmente ver a moça, sua agonia enquanto a água lhe penetrava os pulmões e o ar e a vida abandonava-lhe. Ren foi o primeiro a unir as mãos e bater palmas para Hinata.

- Você tinha razão, Ren – sussurrou-lhe Sasuke depois ele se sentou. Pegou sua xícara de chá e sorveu um gole dando um sorriso de canto – Eu aprendi mesmo a apreciar uma raridade.

Quando Hinata voltou da apresentação, já devidamente arrumada com todas as camadas do quimono, com o cabelo preso e a maquiagem retocada, o salão com os aliados de Ren, os convidados e o próprio Masaru Ren explodiu em outra salva de palmas a qual a morena agradeceu com uma reverência singela antes de colocar-se em serviço. Ela pegou uma bandeja contendo saquê e chá e aproximou-se do senhor feudal, ajoelhou-se a sua frente e sorriu levemente.

- Você dançou lindamente, Hinata-chan – ele respondeu.

- É muito gentil, Ren-sama – ela respondeu e serviu-lhe de saquê.

- Está preparada para o que vem a seguir?

A Hyuuga sentiu uma pedra de gelo descer por seu esôfa*go e se alojar em seu estômago. Balançou a cabeça afirmativamente em resposta antes de se voltar para Sasuke.

- Prefere chá ou saquê, Uchiha-san? – ela levantou os olhos para ele e viu o seu mundo que construíra para se esconder ser destruído de novo pelos olhos dele. Mas dessa vez não o odiou, porque era exatamente o que queria. Que ele a encontrasse e a tomasse para si.

- Chá.

Apertou o punho que estava sobre a perna dobrada para reprimir seus desejos de tocá-la, de acabar com todo o plano de salvar o destino da Vila da Folha por um impulso insano. Ele nunca fora um ser irracional, ainda mais se tratando de uma missão importante, mas aquela chama que Hinata conseguia atiçar com um simples olhar e que percorria seu corpo todo com a velocidade do sangue nas veias o fazia perder o controle.

- Sabe,Hinata-chan– a voz de Chiren veio do outro lado e Hinata virou sua atenção para ele – Acho que até eu vou dar um lance por você. Aquilo que você fez ali... – e apontou precariamente para o salão – Foi muito impressionante.

- Obrigada – agradeceu-lhe com a mesma cortesia e reverência.

A garota serviu-lhe de saquê, mas Chiren simplesmente arrancou a garrafa das mãos da moça. Sasuke se lembrava muito bem das palavras de Tsunade-sama para que não houvesse "vítimas desnecessárias", mas ele podia muito bem falar que matara Chiren por pura autodefesa e deixa-lo bem retalhado, assim ninguém poderia comprovar ou negar nada que ele dissesse.

- Hinata-chan, você precisa se retirar agora – Ren avisou indicando Hae parada perto da porta com um aceno de cabeça. A moça sorriu-lhe uma última vez e fez uma reverência. Masaru Ren segurou-lhe a mão quando ela fez menção de se levantar. Ele não disse uma palavra, apenas alisou sua pele com o dedão em gestos circulares. A Hyuuga puxou sua mão devagar até se ver livre e andou até Hae com passos rápidos.

Ela sabia o que Ren queria, qualquer um podia ver a libido de seu olhar e ela sentia nojo de si por despertar naquele homem asqueroso tal sentimento. Hae-san guiou-a pelos corredores até uma sala nos fundos daokia. Lá dentro havia incenso aceso e um leito preparado. Os seus cabelos foram novamente soltos e presos com apenas um enfeite de uma flor de lótus. Duas pedras produziram faíscas as suas costas para dar-lhe alguma sorte – mas a Hyuuga sentiu-as vazia de superstições – e as instruções que recebera eram apenas para esperar ali, pacientemente, que quem quer que a compre viria em breve. A ela não era permitido assistir o leilão, apenas tinha que entregar-se ao homem que passasse por aquela porta.

De todos os ensinamentos de gueixa que recebera de sua mãe, nenhum lhe era útil naquele momento. Sua okaa-san não lhe ensinara como depreender a alma do corpo para ser capaz de não sentir nada. Nem lhe ensinara o que fazer se a pessoa que a comprasse for quem ela deseja. Ela apenas ensinou-lhe que gueixas são proibidas de amar e de desejar, ensinou-lhe que aquele mundo pode ser um lugar perigoso e ensinou-lhe a dor da perda.

E agora tinha Sasuke ensinando-lhe a se sentir completa.

Mas podia não ser ele a entrar por aquela porta, independente da vontade de Tsunade-sama de que ele deveria comprar seu mizuage. Queria que fosse ele e apenas ele, como uma criança birrenta quer o colo da mãe ou um determinado sabor de sorvete e se receber outro colo ou outro sabor, não será feliz. Eram uns pensamentos infantis para se ter naquele momento, mas qualquer pensamento conta para manter-nos afastados da realidade quando queremos. Mesmo que por alguns poucos momentos.

No fim, quando ouviu passos se aproximando, pensou apenas o quanto aquilo podia ser injusto. Poucos dias depois que descobrira que amava a pessoa mais singular que poderia ter a ousadia de pensar, tinha que sofrer aquilo pelo bem da Vila. O eterno dever de um ninja de se sacrificar pela missão.

Sorriu amargurada e a porta se abriu.

O momento decisivo ia começar. As gueixas e empregadas daokiase empurravam e acotovelavam atrás das portas do salão onde estavam Ren-sama e seus convidados todos querendo comprar Hinata. Todas elas, porém, em completo silêncio. Sakura achou impressionante aquele número de mulheres que conseguiam ficar juntas – considerando que algumas não gostavam das outras – naquele silêncio.

"Se conseguissem fazer isso numa missão seriam muito valorizadas" pensou no momento de uma delas acotovelou suas costelas.

A matriarca da casa colocou-se no centro do salão, os preparativos já tinham sido feitos para o leilão começar. Sasuke estava perfeitamente parado, uma estátua com apenas seus olhos movendo-se, esquadrinhando os presentes. Depois os fechou pensando que não importava ele tentar adivinhar quanto ouro eles podiam ter, ele iria comprar Hinata.

- O leilão vai começar – anunciou Hae – Cada um dos senhores escreva o lance no papel a sua frente, o lance mais alto será escolhido e anunciado, aqueles que quiserem continuar no leilão se apresentem e façam seu lance. Os termos estão claros? – perguntou ela – Muito bem, senhores, podem dar seus lances.

O Uchiha pegou o pincel com a mão frouxa e escreveu uma quantia qualquer em peças de ouro. Nove peças apenas. Para um camponês era uma quantia exorbitante, mas para aqueles homens era até que ínfima. Ele não queria mostrar seu orçamento ali, então apenas iria concordar com o lance mais alto e cobri-lo. Uma gueixa passou recolhendo os papeis e os entregou para Hae que os passou rapidamente por seus dedos.

- Vinte e cinco peças de ouro – disse ela – Quem quer continuar?

- Aposto que ela não vai receber mais – disse Tsubaki em voz baixa, mas o suficiente para as mulheres em volta escutarem – O meu mizuage foi vendido a cinqüenta e cinco peças e só houve um mizuage mais caro que o meu na história dessaokia.

- Mizuage de quem? – perguntou Sakura, mas Tsubaki não respondeu.

- Vejam, Uchiha-san não está ainda mais bonito hoje? – Sakura encarou-o descrente, porque conseguia se ver ali, um dia, quando morria de amores por Sasuke daquele mesmo jeito.

- Mizuno, qual foi o mizuage mais caro daqui? – perguntou a menina ao seu lado.

- Hae-san.

Sakura voltou seus olhos para o salão, elas estavam na parte de cima de onde as pétalas de cerejeira para a dança de Hinata foram lançadas. Não cabiam muitas mulheres ali, mas elas podiam ver, além de apenas ouvir.

- Os que pretendem continuar, por favor, levantem as mãos – pediu Hae.

Ren levantou a mão até a altura do ombro e sorriu, os olhos aquosos brilhavam. Ele estava rodeado por mercenários e nobres de um feudo razoavelmente grande, mas não o suficiente para cobrir as ofertas que ele podia dar. Não haveria muitos aptos a continuar aquela peleja. Quando voltou seus olhos para os lados apenas um nobre tinha levantado à mão. E Uchiha Sasuke.

- Aquela baratinha... – sibilou a gueixa – O que ela tem que interessou Uchiha-san?

Sem admitir e sem conseguir evitar esse fragmento de maldade e ciúme em seu coração, Sakura pensou a mesma coisa.

- O lance foi de vinte e cinco peças de ouro – repetiu Hae – Quem oferece mais.

- Cinqüenta e seis peças de outro – disse o nobre.

Um burburinho passou entre as gueixas e os convidados, mesclando-se.

- Parece que você perdeu seu posto, Tsubaki – sorriu a nin-médica para o semblante raivoso da gueixa.

- Sessenta e oito peças de ouro – disse Sasuke.

Sakura encarou Mizuno que encarava a cena sem piscar.

- Por quanto foi vendido o mizuage de Hae-san?

- Setenta peças de ouro.

- E quem o comprou?

- Quem mais poderia comprar um mizuage por esse preço, garota estúpida? – Tsubaki agulhou-a – Ren-sama, é claro.

O Uchiha encarou Ren para saber quanto ele iria oferecer. O dinheiro que Tsunade disponibilizara para ele, cinqüenta peças de ouro, já tinha acabado. Não pensou que aquele nobre fosse dar uma quantia tão alta, mas ele não lhe preocupava.

- Setenta e duas peças de ouro – declarou o senhor feudal num tom de confiança de que ninguém poderia cobrir seu lance.

- Oitenta peças – Sasuke cobriu e Tsubaki, junto de várias outras gueixas, cobriu a boca com as mãos para evitar a exclamação alta. Nunca um mizuage tinha sido vendido por preço maior naquelaokia.

Os olhos de Tsubaki não desviavam do semblante sério de Sasuke. Ela ficava lembrando da cena que presenciara no lago, mas sem conseguir definir um significado concreto para ela até agora.

"Será que...", mas o pensamento lhe causou repulsa "Será que ele a ama? Não! Não é permitido amar".

Mas ela não conseguia arranjar outra explicação para alguém oferecer uma quantia tão alta por uma garota sem graça como Hinata. Talvez Sasuke a desejasse tão ardentemente que poderia oferecer aquilo, mas ela descartou aquela hipótese rapidamente. Ela não tinha nada de especial – fora seus olhos daquela cor diferente que apenas a faziam parecer uma pobre ceguinha. Mordeu a mão com força para reprimir a raiva. Quando ousara amar, aquele que lhe jurou tirar dali não conseguira dar um lance grande o suficiente e como ela fora maculada, ele não quis mais olhar para ela.

"Ela... Não tem o direito!".

- Você parece bem disposto a pagar caro por ela, Uchiha-san – os olhos de Ren se estreitaram perigosamente o brilho aquoso aumentou. Então era ali que se encontrava o vilão, por trás do senhor feudal justo e bom que os camponeses aclamavam. Era aquele que queria invadir a Vila da Folha e assumir o poder do País do Fogo. Sasuke ficou satisfeito por pode encontrá-lo.

- Acredito que você se lembra dos meus motivos para vir aqui, Ren – respondeu Sasuke deixando o seu brilho rubro se equiparar a ameaça dos olhos do inimigo – Meus negócios estão resolvidos, agora eu quero uma gueixa.

- Justamente esta gueixa?

- Justamente esta gueixa.

- O que te fez se interessar por Hinata-chan?

- Você.

Ren riu e fechou os olhos enquanto isso.

- Tenho que parar de tentar fazer as pessoas enxergarem as coisas do meu ponto de vista.

- Hum – resmungou Sasuke – Tem, sim.

- Ren-sama – chamou Hae aturdida com a quantia de ouro oferecida por Sasuke, mas satisfeita. O contrato que tinha com Ren é que metade do outro oferecido por um mizuage fica naokiae a outra metade com o senhor feudal – O senhor vai cobrir o lance?

Ren encarou Sasuke novamente com seus olhos de inimigo e virou-se para Hae.

- O lance final – ele anunciou – Cem peças de ouro.

- Hinata.

O sorriso amargurado que esboçava para si mesma morreu quando o estranho pronunciou seu nome. Porém a voz não lhe era estranha e o sorriso mudou quando se voltou para trás, a porta deslizou fechando-se e ela se levantou com pressa. Seu coração acelerou, a adrenalina foi impulsionada por suas veias e os pulsos elétricos começaram antes mesmo de tocá-lo.

- Você... – balbuciou.

- Duzentas peças de ouro – sorriu Sakura e disse para Naruto.

Eles caminhavam juntos fora dos limites do feudo. Não havia grandes problemas dois criados serem vistos juntos, mas eles queriam se sentir a vontade para se chamarem com os próprios nomes. Naruto detestava aquele nome ridículo que Sasuke escolhera para ele.

A floresta estava submergida na bruma rasteira de sempre, seus pés não podiam ser vistos e Sakura se encolhia embrulhada em um xale em volta de seus ombros. O quimono de Naruto fora trocado por um mais comprido. As noites frias do feudo de Masaru Ren eram sempre as mesmas.

- Tsunade-sama deu todo esse dinheiro pra ele, dattebayo? – perguntou o loiro.

- É claro que não! Não é possível que ela disponha dessa quantia para uma missão – a Haruno parou perto de uma árvore – E havia o emblema dos Uchiha na maioria daquelas peças de ouro.

Ela arrancou uma folha de um galho mais baixo e começou a rasgá-la em pedacinhos. Naruto estava um pouco afastado de si, observando-a em seu trabalho.

- Nossa missão está quase no fim – disse ela.

O loiro assentiu.

- Você é feliz, Naruto?

- O quê? – ficou confuso diante da pergunta súbita e da mudança de assunto.

- Você é feliz? – ela repetiu – Eu me lembro de quando estávamos atrás de trazer Sasuke-kun de volta – os olhos esmeraldinos olhavam para baixo, mas o que Sakura realmente via era algum lugar no passado, dentro de si – Mesmo com ele sempre escapando entre nossos dedos, você parecia feliz, Naruto. Quero dizer, quando estávamos juntos... Você é feliz agora?

- Eu acho que eu sou, sim – ele colocou os braços para trás e sorriu largamente – Agora que o teme tá de volta e estamos os três juntos de novo, dattebayo.

Sakura encarou ternamente o sorriso radiante no rosto infantil de Naruto. Ele, por mais que crescesse e amadurecesse, nunca mudaria. Seria sempre o garoto hiper-ativo, brincalhão, sorridente. Seu pequeno sol amarelo. Tomou impulso e passou seus braços ao redor da cintura dele sentindo-o desequilibrar-se um pouco e ficar surpreso ao colocar seus braços ao redor dela.

- O... O que está fazendo, Sa-sakura-chan?

- Você é meu melhor amigo, Naruto.

Ele fez um momento de silêncio e sorria quando respondeu:

- Você também é minha melhor amiga, dattebayo – encostou o queixo no topo da cabeça rosada. Ela apertou-o ainda mais.

- Sasuke... – seus lábios se moveram formando aquele nome, porém sua voz não saiu. Sentia-se feliz, a mais feliz de todas as pessoas do mundo e só queria que aquela felicidade perdurasse para sempre.

Ele estava parado lá como sempre, como ela o conhecia. Sério, austero, imperioso, muito parecido com o irmão na primeira vez que o vira muitos anos atrás. Mas havia o brilho da curiosidade e dos sonhos nos olhos do herdeiro Uchiha. Ele seguiu até ela e levantou a mão para alcançar seu rosto pálido. Passou levemente o polegar por seu lábio inferior manchando-o com a tintura carmim. Hinata suspirou com o carinho e se arrepiou quando ele passou o braço por sua cintura a trazendo para perto, aproximou seu quadril do dela e mordeu sua orelha antes de sussurrar provocante, possessivo, unicamente como apenas Uchiha Sasuke conseguiu lhe fazer sentir:

- Você éminhae de ninguém mais.

Chapter 8: Por Um Segundo de Eternidade

Chapter Text

- Saiam imediatamente daí! Todas vocês, voltem para a casa de chá, ainda há muitos clientes para atender ou vocês acham que aquele saquê vai saltar para o copo sem ajuda? – Hae encontrara as moças – gueixas e serviçais – umas sobre as outras o mais próximo do quarto onde estavam Hinata e Sasuke. Gritou com elas e espantou-as para os seus lugares - E vocês, já pra cozinha!

Hae as viu se distanciarem e ficou ali esperando, as mãos apoiadas nos quadris. Garantiria que aquela moça de olhos de neve tivesse ao menos privacidade contra aquelas abelhudas. Ser vendida – mesmo que por um preço tão grande e para um homem tão bonito quanto Uchiha Sasuke – já era humilhação suficiente. Mas Hae tinha olhos velhos, mais velhos que sua idade, e tinha experiência. Já havia percebido que aquela moça era forte, apesar de sua doçura e fragilidade e é assim que uma gueixa deve ser.

Gueixas escondem uma armadura de aço por baixo do rosto coberto pela maquiagem branca e os lábios vermelhos.

Olhou por cima do ombro para a única sala daokiaque tinha paredes de madeira, excetuando-se a porta que ainda era de quadradinhos de papel de seda. Suspirou e pôs-se a andar de volta a seu escritório. Fora, um dia, a gueixa mais cara daquela casa, mas já estava velha demais para dançar ou mesmo servir o chá a quem quer que fosse.

Bateu as costas contra a parede de madeira. Sasuke agarrara tão firmemente em sua cintura que só conseguia sentir o chão com a pontinha dos dedos. Ele a carregava pela sala com a boca colada a dela para algum lugar que nem ele mesmo sabia. Até encontrar uma das quatro paredes e prensá-la nela. Imediatamente os braços dele abandonaram a laçada de sua cintura e foram encontrar diversão maior nas coxas de Hinata para se ocupar.

Queria abrir os olhos e olhar para ele por um minuto, sentir o tempo parar como acontecia quando se deixava perder na negritude do ônix, mas não o fazia por medo de estar em um sonho, em um de seus devaneios que também eram sempre preenchidos pela estranha cortina de luz. Agarrava-se a seu quimono branco com medo de que se afrouxasse o aperto, ele viraria pó. E não podia ter a decepção de perdê-lo, não depois de descobrir amá-lo. Fora tudo tão rápido quanto um susto e o seu coração ainda não voltara a bater no ritmo normal. Hinata tinha certeza que, perto de Sasuke, ele nunca mais voltaria a bater no ritmo normal.

Sentia desejo naquele momento enquanto suas mãos percorriam o corpo de Hinata por cima do quimono, investigando o que poderia encontrar, se divertindo e se excitando com a redondeza das curvas e procurando desesperadamente o nó do obi que atava as camadas de tecido. A chama que percorria seu sangue, atiçada pela fa*gulha que vinha do corpo de Hinata, estava acessa como nunca estivera antes. E ele queria poder dizer que era somente aquilo, somente uma chama passageira que, quando a lenha acaba, se apaga. Lembrou-se de súbito da voz de Naruto e do amigo lhe dizendo que não era pra magoar Hinata, que só era pra beijá-la novamente quando tivesse certeza de seus sentimentos.

Não tinha nenhuma certeza sobre sentimento algum. Nem sabia dizer se havia qualquer sentimento. Haviaalguma coisa, havia a chama. Soltou um suspiro pesado quando separou seus lábios dos dela sentindo a mãos pequenas em suas costas, infiltradas em seu quimono, arranharem-no. Atacou o pescoço dela como um animal em fúria ataca sua presa e sentiu-a gemer muito baixo.

Não havia sentimento, não havia sentimento. Mentir para si mesmo era algo a que já estava acostumado a fazer, mas mentir para Hinata não era fácil, pois não era uma prática freqüente em sua vida.Notá-lanão era uma prática freqüente em sua vida e veja só onde ele tinha ido parar? Entre a curva do pescoço dela, beijando-o, mordiscando-o, lambendo-o e sentindo o seu cheiro adocicado. Procurou mais desesperadamente o nó do obi na roupa dela e, quando não encontrou e pensou em rasgar o quimono, uma das mãos dela deixou de arranhar suas costas para, com um movimento delicado que Sasuke não viu, desatar o nó e imediatamente afrouxar as camadas de pano para ele.

E como se desatando o nó do obi também tivesse desatado a venda que lhe cobria os olhos, Sasuke se afastou de Hinata como se ela estivesse pegando fogo. Ambos estavam, na realidade. Não de um jeito ruim ou doloroso, mas se eles continuassem Sasuke sabia que chegariam a um ponto onde não há mais volta, onde não há mais como parar. E ele fizera uma promessa a seu melhor amigo.

- Sa-sasuke... – ele estava de costas não se permitindo encará-la. Hinata parecia preocupada – Você está bem?

Ele não responde e continuou de costas enquanto milhares de coisas passavam por sua cabeça. Seu cérebro shinobi queria bolar estratégias, colocar tudo numa ordem lógica, mas ele tinha o cheiro de Hinata impregnado em si fazendo-o se perder em um labirinto de luz cada vez que tentava coordenar seus pensamentos.

A mão pequena o tocou no braço fazendo uma pequena pressão para que ele se voltasse para ela. O Uchiha o fez sem resistência, mas procurou manter seus olhos duros. A outra mão de Hinata segurava o quimono na altura do peito para que ele não se abrisse e os olhos dela estavam baixos, cobertos pela franja farta. Quando ela falou, algo em Sasuke tremeu:

- Obrigada, Sasuke-san – ela abaixava a cabeça como uma reverência, pois tomara uma resolução. Ele a tinha comprado como ordenara Tsunade e, quando entrara no quarto, tomou-a para alguns beijos e carícias como recompensa pela compra. Os sentimentos e a chama foram ilusões provocadas por sua mente, porque aquele a sua frente era Uchiha Sasuke, alguém que nunca se interessaria por Hyuuga Hinata – Mesmo que tenham sido... Apenas ordens de Tsunade-sama, obrigada por não... Não deixar m-mais ninguém me comprar.

Sasuke alcançou a mesma linha de pensamento que Hinata e cogitou deixar as coisas daquela maneira, mas ele queria sentir a chama. Queria a fa*gulha para fazer a chama percorrer suas veias, pois aquilo parecia uma droga na qual se viciara. Proporcionava-lhe uma sensação boa que não se lembrava de um dia já ter sentido.

- Não minta para si mesma – ele respondeu e fez Hinata levantar a cabeça. A maquiagem branca de sua face estava maculada por uma única linha negra que descia de seu olho e terminava no queixo – O motivo de eu tê-la comprado não foi apenas uma ordem – Hinata sentiu-se encolher e sentiu-se também aquecida sob a intensidade dos olhos negros que não desviavam de si. Em poucos segundos, caiu no abismo negro dos olhos dele novamente e encontrou-se em um lugar familiar e de que tinha constantes saudades.

A imagem de Naruto chegou a sua mente mais uma vez quando suas mãos tremeram sob o impulso de tocá-la na face. Fechou os olhos quebrando o contato e disse, numa voz sussurrada que denotava quanto ódio e medo Sasuke tinha que suas palavras se tornassem realidade.

- Eu apenas não suportaria magoá-la como eu sei que pode acontecer se continuarmos com isso, Hinata – ao pronunciar seu nome outra lágrima desceu pelo caminho negro deixado pela primeira e Hinata lembrou-se do que Sakura lhe contara, pois a Haruno desabafara com Hinata e a morena escutara, consolando, enxugando as lágrimas, tirando as últimas dores do peito da nin-médica e mandando-as embora junto com o curso do rio – Não sou bom em lidar com sentimentos.

A kunoichi praticamente ouviu o orgulho dele rachando por ter que admitir aquilo.

- Você já está me magoando, Sasuke – afastando-se dela daquele jeito, sem lhe permitir nem mesmo a ilusão da criação de um sentimento, ele a estava magoando da pior maneira – E eu não me importo. Os cacos podem ser colados depois, mas a xícara só corre o risco de quebrar se alguém a usar.

- É isso que eu estou tentando evitar – ele sussurrou com os dentes cerrados, como se Hinata não estivesse entendendo a dor dele ao tomar aquela decisão – Não quero que os cacos precisem ser colados.

- Então segure a xícara com firmeza – Hinata tirou sua mão da frente do quimono, soltando e deixando as camadas de pano escorrer por seu tronco revelando o que tinha por baixo. Com ambas as mãos ela circulou o pescoço do Uchiha e, na ponta dos pés, alcançou a boca dele.

- Vou segurar – foi a resposta que ela queria ouvir, mas estava incerta se viria ou se ele iria afastá-la de novo e ir embora.

Quando seus lábios se encontraram naquele momento, como a primeira vez que o faziam com os seus sentimentos postos na mesa, mesmo que ainda levemente obscuros e mal entendidos, a chama que os percorreu foi a mais intensa de todas até aquele momento, depois dos toques, dos beijos, das trocas de olhares.

Um dos braços de Sasuke envolveu a cintura de Hinata e a guiou para dar alguns passos para trás. A sua outra mão foi para trás do corpo e retirou Kusanagi do cinto ainda na bainha para deixá-la cair por ali, junto do pano do quimono de Hinata. Os dedos finos dela encontraram os cabelos mais compridos da nuca de Sasuke e acariciaram os fios macios atiçando-os para cima. O Uchiha já a beijava a tanto tempo que era difícil se concentrar na tarefa de retribuir os carinhos, o beijo e buscar por ar e ficou satisfeita que, tão ofegante quando ela mesma, Sasuke parou o beijo e trilhou um caminho demorado de beijos molhados e sôfregos até seu pescoço.

Agarrou-lhe o quimono e sentiu sob seus dedos o símbolo em alto relevo do bordado do Clã Uchiha e a sua mente veio toda a imensidão do orgulho daquele Clã que Sasuke ainda sustentava em suas costas. Sorriu por se encontrar naquela situação e com ele. Se ele a magoasse, não importava. Se ele e a fizesse eternamente feliz, não importava. Se ela estava ali e se ele estava ali, é porque os dois queriam aquilo, mesmo que durasse o tempo de um olhar. Ela só queria um segundo de eternidade com ele.

Tirou suas mãos do cabelo de Sasuke e desceu por seu peito arranhando a pele pálida a ponto de deixar as marcas vermelhas de suas unhas e viu-o contrair o abdômen quando passou os dedos perto demais de seu umbigo. Infiltrou as mãos no quimono pelos dois lados de sua cintura e arrancou o pano dali. Sasuke ajudou-a a terminar de tirá-lo e as mãos de Hinata foram para o cinto e para a calça. Sasuke já retirara os sapatos e quando Hinata deixou-o livre do aperto da roupa, mas ainda sem tirá-la, ele deslizou um dos braços até seus quadris e, pegando-a no colo, deitou sobre o espaço arrumado para eles no centro do quarto.

O Uchiha rasgou sem dificuldade os panos que escondiam os seios de Hinata enquanto ela se esticava para terminar de arrancar-lhe as calças. Insatisfeita com a dificuldade, ela segurou Sasuke e, num golpe que ele não reconheceu, colocou-se por cima. O que mais o impressionou, porém, foi o sorriso malicioso que ela lhe deu quando, terminada a tarefa que ela fora executar, voltou para ficar com o rosto a altura do seu e o joelho pressionado fracamente sobre seu membro, ainda sob a cueca. Sasuke gemeu quando a pressão aumentou e Hinata arranhou levemente seu umbigo, provocando-lhe arrepios excitantes, e depois passou a beijar-lhe o peito, o pescoço, até alcançar a boca de novo.

Ainda com a Hyuuga por cima, Sasuke apertou-a contra si agarrando-lhe o seio direito e, com um movimento, sentando-se com ela em seu colo para poder colocar o outro seio em sua boca. Agiu sobre os dois seios, fazendo o mesmo processo meticuloso e demorado de sugar, lamber e morder de leve até ouvir Hinata dar um gemido alto. Satisfeito com o que fizera, colocou-a por baixo de si de novo. Seus corpos unidos já estavam cobertos de suor e os cabelos grudavam nos rosto, os toques escorregavam e apenas beijos já não mais saciavam.

O par ônix se encontrou uma única vez com os perolados, mas os olhos da Hyuuga estavam determinados e Sasuke também não acreditava mais que pudesse parar se ela tivesse lhe recusado. Desceu até as coxas de Hinata beijando-as e acariciando-as e, sem paciência para tirar-lhe a calcinha, apenas a rasgou. Hinata, envergonhada, quando sentiu o rubor nas faces e a quentura em sua intimidade quis fechar as pernas, mas Sasuke estava bem entre elas. Ele arrancou a própria cueca, que já se tornara apertada e incômoda há tempos, e distribuiu beijos no interior das coxas pálidas de Hinata sentindo-a estremecer e gemer abafado quando beijou seu cl*tóris uma única vez e voltou para encará-la.

Sasuke não fez promessas de que não doeria, de que seria gentil e pararia quando ela quisesse. E nem Hinata esperou por nenhum dessas coisas. Ele a beijou, enfiando a língua em sua boca buscando a sua com desespero, como se estivesse perdida. Hinata interrompeu o beijo quando o sentiu dentro dela, rompendo-a. Doeu e doeu mais. Arranhou as costas pálidas tanto quando arranhou o peitoral e os braços de Sasuke, mordeu seu ombro e lamentou-se por deixar marcas na pele dele. Demorou alguns segundos para se acostumar ao ritmo dele, mas gostou da sensação de ser preenchida quando o prazer começou a chegar os poucos. E então só queria que Sasuke fosse cada vez mais rápido e mais fundo e sussurrou isso em sua orelha, soltando sua respiração pesada misturada a gemidos em sua orelha, e igualando seus quadris aos dele para que a preenchesse não apenas fisicamente.

O Uchiha sentou-se a colocando sobre ele novamente e Hinata soltou um grito quando o sentiu indo mais fundo que nunca. Contraiu os músculos da virilha quando uma sensação de flutuar se apossou do seu corpo. Não sabia descrever o que acontecera, mas fora maravilhoso. Devagar soltou suas unhas dos ombros de Sasuke – nem percebera que as enfiara lá com tanta força a ponto de fazê-lo sangrar. Continuou os movimentos na esperança de sentir aquilo de novo e a segunda vez foi ainda melhor. Não demorou a ele também parecer sentir aquilo, pois a agarrou com força puxando para si e prendeu a respiração. Sentiu o líquido quente dentro de si ao mesmo tempo em que a sensação de cansaço chegou para eles ainda parados na mesma posição, ofegantes e suados.

- Preciso ir – Hinata disse quando sua respiração já se estabilizara o suficiente, mas ainda mantinham-se na mesma posição.

- Não... – ele pediu segurando seu braço.

- Você conhece a tradição, Sasuke – Hinata levantou-lhe o rosto para encará-la e os olhos negros brilhavam de forma diferente. A morena sorriu antes de beijar-lhe os lábios e afastar os fios negros grudados na testa – Depois da consumação da venda, eu não posso ver ninguém até amanhã à noite.

- Vou até seu quarto – ele afirmou resoluto, mas aquilo só fez a morena rir. Sabia que ele tinha coragem e sabia que as palavras dele raramente eram vãs, mas até mesmo a ousadia de Uchiha Sasuke não era suficientemente forte para conflitar com sua responsabilidade perante aquela missão.

- Ah, Sa-sasuke? – ela chamou docemente enquanto o rubor subia as maçãs do rosto e ela tentava se cobrir com as mãos ao se afastar dele – Poderia... Não olhar enquanto e-eu me visto?

O Uchiha revirou os olhos perante aquilo, mas acatou o pedido virando-se para procurar e vestir as próprias roupas. Quando estava quase terminando encontrou seu quimono e notou o cheiro dela ali, mais impregnado do que nunca. Aspirou seu braço e percebeu o cheiro dela envolta de si por completo. Tinha impressão de que nunca mais conseguiria se livrar do cheiro de canela de Hinata.

Entrou em seu quarto e o mais delicadamente que conseguiu chutou Naruto para fora de sua cama. Queria poder chamá-lo para ir até algum lugar calmo e treinarem, simplesmente desperdiçar energia, mas Ren dissera que fariam a última reunião de ataque a Vila da Folha durante o almoço.

- Você é idiota, teme? Porque fez isso? – reclamou o loiro sentando-se do chão depois de descobrir o que o tinha atingido e tentando colocar as idéias no lugar. As coisas quase nunca faziam muito sentido para Naruto quando ele acabava de acordar.

- Você não tem cama, dobe?

- Experimenta dormir naquele pulgueiro que eles chamam de alojamento dos serviçais, dattebayo – Naruto se levantou e ajeitou o melhor que pode a peruca enquanto observava Sasuke se livrar de suas armas para depois começar a se despir – Nem o Akamaru dormiria lá.

- Hum – resmungou o Uchiha em resposta. Já que um treino não aconteceria entre eles para desperdiçar energia, quem sabe Naruto não poderia começar a falar demais e dar-lhes um pretexto para discussão? Era outra forma de se cansar.

- Espera um momento, Sasuke. Que horas são?

- Por volta das duas – o moreno levantou-se e jogou água por seu rosto, cabelo e ombros. Queria dormir e, contraditoriamente, queria se cansar mais. Queria desperdiçar uma energia que sentia estar ali sobrando, queria ir logo para a Vila e matar algumas legiões. Estava feliz, mas também cansado e precisando dormir.

- E como está a Hinata-chan? – o sorriso malicioso não combinava com o semblante sempre sorridente, inocente e determinado de Naruto. Aquele tipo de sorriso apenas o fazia ficar muito parecido com uma raposa que persegue um coelho. Definitivamente Sasuke não acreditava ter semblante de coelho para o melhor amigo usar daquele sorriso com ele.

- Foi para os aposentos dela, não poderá sair de lá até amanhã à noite.

- Você sabe que não foi isso que eu perguntei – Naruto se aproximou do amigo que pegara em seus pertencer alguns mapas do País do Fogo e pusera-se a analisá-los – Hein, Sasuke?

Sasuke sentiu sua sobrancelha tremer e cometeu o irreparável erro de encarar Naruto, mesmo que brevemente. A cor rosada subiu tão rápida a suas bochechas que nem percebeu que estava ali, até Naruto gritar que ele estava corado e que não acreditava que ele e Hinata tinham mesmo feito aquilo. Disse várias baboseiras que esperava mesmo que Sasuke não tivesse apenas se aproveitado da Hyuuga, porque senão ele, Kiba e Neji teriam o prazer de prendê-la a uma árvore e castrá-lo; que desejava boa sorte a Sasuke quando ele fosse ter a conversa com Hyuuga Hiashi; que ele tinha que jurar que jamais magoaria Hinata e várias coisas do tipo a qual Sasuke apenas ouviu – ou fingiu ouvir – até chegar a uma parte que o interessou.

- Naruto, quero que me prometa uma coisa – o loiro se calou a prestou atenção a súbita seriedade do melhor amigo.

- O que é, Sasuke?

- Vai prometer?

- Você sabe que sim, dattebayo!

- Se, um dia, eu acabar... – os olhos ônix fizeram força para continuarem pregados aos olhos de safira de Naruto e foi um ato difícil para Sasuke, meio constrangedor por acreditar que o todo-poderoso Uchiha um dia poderia cometer erros, mas perante aquilo ele já se decidira que precisava selar aquela promessa e ninguém melhor que Naruto – Magoando a Hinata...

- Sasuke... – mas o Uchiha o calou com o olhar e Naruto o esperou continuar.

- Se eu a magoar, prometa que você vai me tirar de perto dela. Prometa que, se isso acontecer, vai me colocar num lugar oposto do mundo, para que eu não possa machucá-la de novo.

O Uzumaki quis protestar, dizer que aquilo era loucura, mas a intensidade dos sentimentos nas palavras de Sasuke não lhe permitiu isso, nem lhe permitiram fazer troça ou piadas sobre como ele estava amolecendo por um par de olhos perolados. Naruto sorriu deixando seus olhos como uma risca fina e pousou a mão no ombro esquerdo de Sasuke que entendeu o gesto e pousou sua mão no ombro direito de Naruto. Estava feliz por Sasuke, nunca esperava que o melhor amigo pudesse encontrar um sentimento para compartilhar com Hinata, especialmente um sentimento intenso como esse que o Uchiha vinha se esforçando para manter dentro de si, sem criar alarde, mas que Naruto via que só tendia a querer sair e crescer.

- Eu prometo.

- Obrigado.

- Agora, vê se dorme um pouco, já que amanhã é a reunião final de planejamento, parece que daqui dois dias você vai se ver sozinho no covil inimigo – Naruto colocou-se na janela, as mãos atrás da cabeça enquanto Sasuke fazia exatamente aquilo, rumando para a cama.

- Não seria a primeira vez.

- Eu sei – o loiro sorriu – Mas será a primeira vez que a gente vai ter quefingirse enfrentar nas linhas de frente, como inimigos.

- Então não finja – ambos sabiam o que o Uchiha queria dizer e Naruto não conseguiu se conter em retrucar.

- Não posso, porque não seria justo tirar você de Hinata tão cedo, teme.

- Quero ver você tentar, dobe – Naruto não viu de onde a kunai arremessada por Sasuke veio, ele só a viu a tempo de interceptá-la a alguns milímetros de seu rosto. Sabia que a trajetória dela era apenas para passar de raspão, mas não queria um novo corte no rosto.

- Você não precisa ser tão agressivo, dattebayo!

Porém o Uchiha já tinha se enfiado debaixo das cobertas, lhe dado as costas e não mais ouvia.

O plano do que fazer quando descobrira os meios por onde Ren queria invadir a Vila da Folha fora decidido com alguns dias de antecedência. Sasuke convocara Naruto, Sakura e Hinata para o mesmo lugar na floresta onde eles tinham se separado para o início daquela missão.

Sasuke os dividira. Queria que Naruto, Hinata e Sakura voltassem logo que Ren decidisse que eles partiriam, pois os três eram ninjas úteis para a batalha e o contingente de homens de o senhor feudal conseguira, apesar de muitos não serem nem mesmo guerreiros treinados, era grande. O Uchiha ficaria para trás e seguiria para a batalha junto de Masaru Ren e, quando os exércitos dele já estivessem suficientemente abatidos – pois Sasuke mataria seus supostos aliados discretamente enquanto fingiria matar seus conterrâneos – ele e Naruto esmagariam a cabeça daquela aranha asquerosa. Uma mensagem fora enviada a Hokage por um dos sapos de Naruto avisando por onde os exércitos inimigos atacariam e com que tipo de ninjas seria mais adequado proteger cada flanco.

Essa reunião era a última para a confirmação das coisas que Sasuke já sabia.

- Conseguimos um novo flanco, como o senhor queria, Ren-sama – o olhos negros desviaram-se do jardim que observava até aquele momento para o interlocutor. O que ele queria dizer com novo flanco? – Chiren conseguiu recrutar uns ninjas patifes da Vila da Névoa e eles estarão atacando por trás, bem no lugar onde ficam aquelas estátuas dos Hokages.

Não, aquilo não era nada bom. Em sua mensagem para a Hokage não tinha nada sobre invasão do flanco sul da Vila, bem onde as pessoas se abrigam em situações como aquela. Um ataque ali condenaria a Vila a uma perda maciça de civis. Sasuke não demonstrou nada, mas seu cérebro maquinava uma opção enquanto desferia impropérios.

- Isso é ótimo, Ryuusuke. Mesmo a Folha sendo a maior Vila Shinobi entre os cinco países, não há um contingente de ninjas tão grande entre eles para rechaçar o meu exército – e Sasuke temia essas palavras justamente por serem as mais verdadeiras que ele poderia ouvir – O laço da Folha com a Areia é forte, mas não tem como eles enviarem ninjas tão rapidamente, ainda mais com os recentes conflitos políticos que eles estão tento com a Pedra.

O Uchiha continuou praguejando em sua mente. Porque bem naquele momento o Tsuchikage tinha que morrer e os opositores à atual aliança da Vila da Pedra com as Vilas da Areia e da Folha tinham que ser o partido mais forte em disputa pelo cargo?

- E há mais um coisa: Ren-sama, você tem certeza que deseja mesmo levá-la? Isso poderá ser um problema, caso ela seja ferida.

- Quem é que você pretende levar? E pra onde, Ren-sama? – perguntou Chiren que, até aquele momento, estava ocupado demais devorando um leitão assado que fora depositado em sua frente.

- Hinata – respondeu Ren e os pêlos todos de Sasuke se arrepiaram com a menção daquele nome e do intuito do senhor feudal – Sempre levo um amuleto para minhas batalhas e o amuleto que escolhi dessa vez foi ela.

- Eu acho que esse amuleto deu mais sorte pro Uchiha ali – Chiren já estava bêbado e Ren não se importava em apenas ignorá-lo naquela situação, mas o pavio de Sasuke era bem mais curto – E como é que foi com aHinata-chan, hein, Uchiha? – Sasuke percebeu os olhos de Chiren analisarem as marcas de unhas em seu peito – Parece que você fez a vadia gritar...

A frase de Chiren foi calada de súbito. Wakusei e Ryuusuke colocaram-se em guarda, mas Chiren apenas estremeceu quando sentiu a lâmina fria de Kusanagi pressionada contra seu pescoço. Daquela vez Sasuke não conseguira se controlar, pois ouvir o nome de Hinata ser proferido daquela boca imunda era o estopim para sua paciência explodir e acabar. Os olhos vermelhos começaram a girar. Ren, em seu lugar, sem mover um músculo, bebericou seu chá e apenas observou a cena com seus olhos aquosos brilhando.

- Por acaso está mudando de lado para tentar ferir seus aliados desse jeito, Uchiha-san? – perguntou Wakusei. Sasuke nem se limitou a olhá-lo de canto, pressionou Kusanagi na garganta de Chiren até um filete de sangue escorrer, depois apenas devolveu a espada a bainha e dirigiu-se para a porta.

- Há mais alguma coisa que eu deva saber sobre a investida de amanhã? – perguntou dirigindo-se diretamente a Ren.

- Não, isso é tudo.

Saiu da sala de jantar e bateu a porta de correr.

Aquele novo flanco acatando pelo sul o deixou preocupado. Não havia tempo de mandar um sapo mensageiro de Naruto até a Vila, mobilizar todas as pessoas de dentro das estátuas dos Hokages para outro lugar seguro e reestruturar a estratégia de batalha já montada. Mas as palavras de Wakusei tinham lhe dado um ideia de um plano que poderia dar certo. Só esperava que as pessoas envolvidas compreendessem depressa o que ele estava fazendo.

Convocou Naruto, Sakura e Hinata às pressas para o mesmo local onde se separaram para o começo daquela missão. Já estava quase na hora e nenhum deles ainda tinha chegado. Como sempre, a noite estava fria no feudo de Masaru Ren e a neblina cobria seus pés. Esperava-os recostado a uma árvore, olhos e ouvidos atentos ao menor movimento e ruído, como um bom ninja sempre deve fazer.

- Sasuke – ouviu o chamado. Seus olhos procuraram a voz conhecida, mas sua mão voou para o punho de Kusanagi. Armadilhas entre ninjas não eram raras e ele sabia existir mais de um ninja hábil em imitar sons.

O Uchiha estava tenso e preocupado com as mudanças de planos de Ren e seus aliados e talvez isso o estivesse deixando um pouco apreensivo. Hinata saiu do meio dos arbustos e lhe lançou um pequeno sorriso, apesar de ter percebido a reação dele. Parte da lâmina de Kusanagi que Sasuke desembainhara voltou a ficar oculta.

Com a visão da Hyuuga, a intenção de Ren voltou imediatamente a sua cabeça. Aproximou-se de Hinata que o esperou sem se mover, seu coração acelerou e a adrenalina fluiu. Quis sorrir bobamente para ele, mas se conteve. Os dedos dele alcançaram seu cabelo, depois se pescoço e Hinata nem percebeu de onde veio a mão quando Sasuke agarrou sua cintura e a trouxe para perto, colocando os lábios com sofreguidão. Hinata se apoiou nos ombros dele e ficou na ponta dos pés para passar os braços em volta do pescoço de Sasuke e acariciar-lhe os cabelos.

O moreno parou quando ouviu algo se aproximando. A kunoichi também notou e tentou se afastar dele um pouco, mas ele ainda a manteve seguramente firme para aproximar-se de sua orelha e sussurrar:

- Fique comigo.

Ela nem teve tempo de lhe perguntar o que significava aquilo quando Naruto e Sakura chegaram.

- Não consegue mais largar da Hinata-chan, hein, teme? – Naruto soltou mal chegara à clareira fazendo Hinata corar. Sasuke o ignorou como sempre – Hinata-chan, não hesite em meter a mão na cara do Sasuke se ele abusar da mão boba, dattebayo – Sakura o mandou ficar quieto antes de cumprimentar os dois e ficou no canto junto de Hinata, esperando e de prontidão, caso a Hyuuga desmaiasse com mais alguma brincadeira do loiro. Naruto colocou os braços atrás da cabeça e recostou-se a uma árvore próxima – Então, teme, o que é que você tem pra nos falar?

Sasuke saiu das sombras onde fora para depois de se afastar de Hinata e ficou no centro da clareira, observando os demais. Naruto se desencostou da árvore, inquieto; ele conhecia aquele olhar que Sasuke estava lhe lançando e franziu as sobrancelhas, esperando-o falar.

- Não vou ajudá-los a salvar a Vila da Folha – disse Sasuke e Sakura soltou uma exclamação, Hinata arregalou os olhos sem entender – Vou ajudar Ren a destruí-la.

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AmbSil and mayyhemsleft kudos on this work!

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  1. AmbSilon Chapter 1Tue 14May 202410:26PM UTC

    Que bom ver Tilim de novo por aqui!

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